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Durante o início do período (1914) em que serve como médico em uma pequena cidade húngara durante a guerra, Ferenczi dedica-se a traduzir para sua língua natal o livro Três ensaios sobre a teoria da sexualidade de Freud. Essa tradução o incentiva a escrever um texto próprio, com o intuito de explicar o processo evolutivo das relações sexuais humanas, que ele considera não estar suficientemente desenvolvido na obra de Freud. Tendo revelado suas idéias a Freud em 191538, em 1919 as exporia a um certo

38 Embora Freud faça alusão a uma passagem dessa obra de Ferenczi apenas em seu artigo O tabu da

virgindade, de 1918 (Freud, 1970b, p. 190), parece haver uma influência de Ferenczi em todos os textos freudianos (ao menos nos que serão utilizados neste trabalho) do período da Primeira Guerra. Vale ressaltar que Ferenczi faz, em Thalassa, várias referências a termos utilizados por Freud em artigos publicados entre 1914 e 1924. Contudo, com uma única exceção (Ferenczi, 1993, pp. 284-285), essas referências aparecem na forma de notas de rodapé e apostos, dando a impressão da mera utilização do nome que, posteriormente, Freud teria dado a certos conceitos desenvolvidos por Ferenczi. De qualquer forma, a dúvida permanece.

número de amigos analistas39. Contudo, a obra só será publicada em 1924 – dez anos após ser escrita – com o título de Thalassa, ensaio sobre a teoria da genitalidade (Ferenczi, 1993, pp. 255-257).

Ferenczi inicia Thalassa com uma discussão sobre o erotismo anal e o uretral – esse último com base em algumas asserções de Abraham. Propõe então uma explicação para a sexualidade humana em um deslocamento dos erotismos pré-genitais para o órgão sexual. Nesse sentido, a ejaculação precoce teria relação com a uretralidade (expulsão precipitada), e a incapacidade de ejacular com a analidade (retenção). Lembra então que, segundo a embriologia, o pênis seria uma aquisição tardia, desenvolvido a partir do intestino. Se para Freud, nos Três ensaios..., os erotismos pré-genitais permanecem ligados às preliminares do ato sexual, Ferenczi defende a permanência destes erotismo no ato sexual em si, na forma de um deslocamento. Na atividade sexual normal, estes erotismos estariam misturados, sem que um prevalecesse sobre o outro. Ferenczi aponta ainda o deslocamento do erotismo clitoridiano da mulher para a vagina, como ilustração para sua tese (Ferenczi, 1993, pp. 258-265).

Se queremos levar a sério a hipótese de uma pangênese da função genital, devemos considerar o membro viril como um duplo em miniatura do ego inteiro, a encarnação do ego-prazer, e nesse desdobramento do ego vemos a condição fundamental do amor narcísico pelo ego. Para esse pequeno ego reduzido que nos sonhos e nas fantasias simboliza tantas vezes a pessoa inteira, é necessário criar, no momento do coito, condições que lhe assegurem uma satisfação simples e infalível (Ferenczi, 1993, p. 267).

Os atos preparatórios do coito têm como função, entre outras coisas, facilitar a identificação dos parceiros. Isto permitirá ao homem confiar à mulher o mais precioso de seus órgãos. Mesmo sendo uma necessidade premente a libertação da secreção sexual, o homem ainda resistirá a ela, de forma que o fato de confiar em sua parceira, considerando seu corpo como um lugar seguro e apropriado para guardar o seu sêmen, facilitará a ejaculação. Assevera então que toda a evolução da sexualidade humana,

39 Segundo o tradutor francês, na edição alemã de seu livro Ferenczi teria feito – ao referir-se à influência

de sua obra no trabalho de outros psicanalistas – uma alusão direta ao nome de Rank. Vale ressaltar que Ferenczi afirma ter desenvolvido a idéia de um "trauma de nascimento" já em um texto publicado em 1913 (O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios) e que um extrato de Thalassa foi apresentado no Congresso da IPA de 1922 (Ferenczi, 1993, pp. 257[nota]/258[nota]/269). Considerando apenas sua data de publicação, Roudinesco e Plon (1998) afirmam que a obra de Ferenczi é "próxima da de Rank, sobre o trauma de nascimento" (p. 234). Na verdade, Ferenczi é que teria tido uma grande influência sobre a obra mais célebre de Rank (de 1923).

desde a sucção do dedo pelo bebê, até o coito propriamente dito, seria objeto de uma tentativa do ego de regressar ao útero materno, onde ainda não havia a ruptura entre o ego e o meio (Ferenczi, 1993, pp. 267-268).

Na fase oral, as pessoas que cuidam da criança mantêm, de alguma forma, a ilusão da situação intra-uterina, evitando que a criança sinta frio, ou seja exposta a uma grande luminosidade, por exemplo. A única tarefa do bebê seria mamar, assim mesmo, o seio é imposto à criança pela mãe, de forma que se desenvolve um "amor objetal passivo". Da mesma forma que se comporta, no ventre, como um parasita, a criança que mama exigirá da mãe sempre mais, com cada vez maior agressividade, de forma que, quando lhe surgem os dentes, precisa ser desmamada de forma a não "mastigar" o seio materno. Esse canibalismo da fase oral subseqüente visa também à satisfação da pulsão de voltar para o útero materno, o que seria comprovado pela presença, nos sonhos e sintomas neuróticos, de uma relação pênis/dente (Ferenczi, 1993, pp. 270-271).

O sadismo da fase oral canibalesca prossegue na fase seguinte, na qual a criança resiste à exigência de "entregar" as fezes quando lhe são exigidas. Isto ocorre devido a uma identificação da criança com as fezes. Seria um reinvestimento da libido em si mesmo, através da representação simultânea do papel da mãe (intestino) e do bebê (fezes). No período seguinte, onde surge a masturbação, a relação criança/fezes será substituída pela relação criança/pênis. A concha formada pela própria mão do menino simboliza o corpo materno. No complexo edipiano, a criança retoma a mãe como objeto, mas desta vez com o desejo de penetrá-la com o pênis (Ferenczi, 1993, pp. 271- 272).

No ato sexual adulto, o sexo masculino irá conseguir realizar parcialmente a volta para o útero materno. O pênis, com o qual o organismo inteiro se identifica, ao penetrar a mulher faz uma regressão simbólica ao útero; mas é o esperma que "tem o privilégio, enquanto representante do ego e de seu alter ego narcísico, o órgão genital, de chegar realmente ao interior do corpo materno" (Ferenczi, 1993, p. 268).

A abolição da consciência, a ausência de desejos, e o sono que acompanham o prazer do coito seriam provas da relação entre o ato sexual e o estado de vida intra- uterina. O desenvolvimento da mulher, por outro lado, sofre uma interrupção, no deslocamento da erogeneidade do clitóris (pênis feminino) para a vagina. Não apenas a

vagina pode se tornar erógena, mas outras partes do corpo da mulher também – especialmente os mamilos – e seria possível considerar o aleitamento "uma compensação para o prazer perdido da penetração e ejaculação" (Ferenczi, 1993, p. 273).

Apesar desta interrupção no desenvolvimento da mulher, Ferenczi considera que uma quantidade apreciável de erotismo anal e oral encontram-se na vagina, pois sua musculatura parece imitar os processos de ingestão e retenção. A ênfase do coito recairia na retenção (do pênis, do esperma e do feto). Contudo, a mulher não abandona totalmente o desejo "viril" de retorno ao ventre materno, que se manifestará então na fantasia – o que pode se dar sob a forma de uma identificação imaginária durante o coito com o "homem vitorioso", detentor de um pênis, sob a forma de uma sensação vaginal sugerindo a posse de um pênis (pênis oco) ou de uma identificação com a criança que traz dentro de seu corpo, durante a gravidez. Tudo isso parece "mais ou menos servir à mulher de consolo pela perda de um pênis" (Ferenczi, 1993, p. 273).

A observação atenta do desenvolvimento genital da mulher faz pensar que, no momento do primeiro coito, a genitalidade feminina ainda está, com freqüência, totalmente imatura. As primeiras tentativas de coito não passam, a bem dizer, de violações sangrentas. Somente mais tarde é que mulher aprende a sofrer o ato sexual de maneira passiva, e ainda mais tarde a encontrar nele prazer e até participar nele ativamente (Ferenczi, 1993, p. 274).

Mais adiante, ao falar de sua teoria filogenética, Ferenczi defende a teoria da evolução à partir dos peixes que, com a seca dos oceanos, tiveram que se adaptar à vida terrestre. Isso levaria a um desejo, no ser humano, de um retorno às águas do mar. Afirma também que o ato sexual, bem como a situação da vida intra-uterina, são representados simbolicamente como um peixe nadando (relação pênis/bebê). O corpo da mulher, e mais especificamente o útero materno, são vistos como o oceano. Também nesse desejo de retorno ao mar, sairia o homem vitorioso, pois ao penetrar a vagina úmida da mulher, estaria simbolicamente voltando às águas primordiais. Além disso, Ferenczi sustenta que os primeiros animais eram hermafroditas, e ao surgir a necessidade da procriação sexuada, os mais fortes acabaram conseguindo penetrar os mais fracos, com um pênis que se desenvolve à partir da cloaca, obtendo, desta forma um retorno ao ambiente úmido do mar (Ferenczi, 1993 , pp. 287-308).

Em uma nota da página 298 desta obra, Ferenczi (1993) afirma que:

O coito per cloacam imposto pelo macho seria, portanto, a causa original do fato de o erotismo feminino, igualmente fálico em sua origem, ter sido substituído pelo erotismo da cavidade cloacal (Jekels, Federn), passando o papel do pênis a ser representado pela criança e o conteúdo intestinal. A impossibilidade de evacuar os excrementos quando o pênis enche a cloaca, depois a liberação assim que o coito se consuma, portanto uma espécie de "tensão anal" e a brusca resolução desta, deviam provocar sensações voluptuosas apropriadas para oferecer à mulher consolo e compensação.

É uma pena não ser possível saber se esta nota foi inserida perto da data da publicação, ou na fase inicial da escrita desse texto como um todo. Há apenas uma indicação que aponta no sentido da primeira hipótese: o uso da palavra "fálico", que anteriormente Ferenczi afirmara ser recente (em relação a 1924) na pena de Freud. Seria de grande interesse saber em que data os autores citados aqui por Ferenczi (Jekels e Federn), referem-se à sensibilidade da vagina como sendo um erotismo cloacal. O próprio fato de Ferenczi citar, neste texto, a derivação cloacal da vagina – muito embora não lhe dê muito destaque – é de suma importância, pois esta idéia parece ser original em outros autores.

Com relação a seu livro como um todo, Ferenczi parece nele confirmar seus preconceitos – já esboçados em 1908 – contra a mulher: ser inferior, castrado, infeliz, e na busca eterna de compensações para o pênis, aqui tido como perdido no momento da separação dos primeiros animais em dois sexos. Mesmo o prazer da amamentação é visto como uma compensação, não como uma maneira da biologia reforçar a perpetuação da espécie. E a idéia de que a mulher sentiria um prazer anal na retirada do pênis da vagina, em virtude da desobstrução do canal retal, chega a ser caricata. Vale ressaltar que, apesar de considerar que a erotização da vagina na vida adulta ocorra em função de um deslocamento do erotismo do clitóris (como Freud), Ferenczi acredita haver também um deslocamento dos erotismos oral e anal neste processo. Vale ressaltar a importância da percepção de Ferenczi de que os primeiros atos sexuais são insatisfatórios para a mulher. Essa percepção parece encaminhá-lo para a solução do problema da genitalidade no sexo feminino, muito embora, em seguida, ele abandone este caminho.