5. EPILOGUE
5.1 Pour faire le point …
Em 1912, Freud publica um artigo intitulado Sobre a tendência universal à
depreciação na esfera do amor, no qual discute a "impotência psíquica". Neste tipo de
impotência, homens com "natureza" intensamente libidinosa sentem-se impedidos de realizar o ato sexual, por falta de ereção, embora esta ereção ocorra em outros momentos. A impotência psíquica estaria relacionada apenas a determinado tipo de pessoas, que apresentam determinadas características – de resto não claras para o sujeito. Freud considera que o problema da total impotência psíquica, em que a relação com nenhum objeto é possível, surge devido a uma fixação incestuosa não superada na mãe ou na irmã. Com esta fixação, a libido afastar-se-ia da realidade, sendo substituída pela fantasia. A atividade masturbatória fortaleceria esta fixação (Freud, 1970a, pp. 163- 166).
No caso da impotência psíquica que se manifesta apenas em relação a determinados objetos, apenas uma parte da libido teria sido desconectada da realidade, e esta parte seria justamente a corrente afetiva. Assim, se uma pessoa lembra, de alguma maneira, as imagens incestuosas proibidas, se desperta, deste modo, a supervalorização,
então não servirá como objeto sexual. Há uma separação absoluta entre o amor e o desejo. A pessoa capaz de despertar o desejo tem que ser inferior, ou tem que ser inferiorizada, para que a relação sexual possa ocorrer. Nestes indivíduos, onde não ocorreu a confluência das correntes afetiva e sensual, sobretudo se mantiveram os alvos sexuais perversos, cuja realização só parece possível com um objeto sexual depreciado e desprezado (Freud, 1970a, pp. 166-167).
Freud afirma que a impotência psíquica encontrar-se-ia muito mais difundida que o suposto, sendo mesmo característica do homem civilizado uma certa quantia deste comportamento. Inclui na categoria de homens que sofrem de impotência psíquica, possivelmente pela primeira vez na literatura médica26, aqueles que conseguem sempre a ereção necessária para a realização do ato sexual, mas que dele não obtêm qualquer prazer – e afirma que esta situação seria extremamente comum:
Existe apenas um pequeno número de pessoas educadas em que as duas correntes, de afeição e de sensualidade, se fundiram adequadamente; o homem quase sempre sente respeito pela mulher que atua com restrição a sua atividade sexual, e só desenvolve potência completa quando se acha com um objeto sexual depreciado; e isto, por sua vez, é causado, em parte, pela entrada de componentes perversos em seus objetivos sexuais, os quais não ousa satisfazer com a mulher que ele respeita. Assegura-se de prazer sexual completo apenas quando se pode dedicar sem reserva a obter satisfação, o que, com sua mulher bem educada, por exemplo, não se atreve a realizar. É esta a origem de sua necessidade de um objeto sexual depreciado, de uma mulher eticamente inferior, a quem não precise atribuir escrúpulos estéticos, que não o conheça em seu outro círculo de relações sociais, e que ali não o possa julgar (Freud, 1970a, p. 168).
Freud aponta a necessidade do homem sobrepujar seu respeito pelas mulheres e aceitar a idéia do incesto com sua mãe (ou irmã), para que possa desfrutar de liberdade sexual e felicidade amorosa. Para isso, o homem deverá levar em conta, o quanto, provavelmente em seu inconsciente, considera o sexo como algo sujo e degradante, não só do corpo como da alma (Freud, 1970a, p. 169).
Na seqüência, Freud afirma que as mulheres se encontram também sob a influência de um efeito residual da educação sobre suas pulsões incestuosas, havendo contudo pouca indicação da necessidade de depreciação do objeto sexual, ligada a sua também pequena tendência à supervalorização. À longa contenção da sexualidade na mulher de sua época, com o conseqüente desenvolvimento da fantasia, Freud atribui a
freqüente incapacidade de desfazer a conexão entre atividade sexual e proibição, o que levaria à frigidez dentro do casamento. Se a mulher inicia, contudo, uma relação moralmente proibida, e por isso secreta (como suas fantasias), torna-se capaz de realizar-se sexualmente (Freud, 1970a, p. 169).
Como os homens são menos propensos a obedecer à restrição sexual antes do casamento, mas sua atividade ocorreria então com objetos por ele depreciados (prostitutas, empregadas, etc.), esta associação da permissão sexual apenas com objetos inferiores manter-se-ia. Freud ressalta ainda a importância deste comportamento masculino para a mulher, que com certeza se sente frustrada tanto no caso de um homem que se relacione com ela sem sua potência plena, quanto no caso em que a supervalorização inicial que recebe é substituída pela depreciação logo após a primeira relação sexual (Freud, 1970a, p. 170).
Apesar destas críticas à educação coerciva, Freud afirma que a plena liberdade sexual levaria a uma desvalorização da sexualidade e, conseqüentemente, do amor. Considera a possibilidade de que algo inerente à própria pulsão sexual seja desfavorável à realização da satisfação completa, porque, em primeiro lugar, como conseqüência da escolha bifásica do objeto e da proibição do incesto, o objeto final da pulsão jamais será o original, mas apenas um sucessor. Em segundo lugar, ao considerar que a pulsão sexual se desenvolve a partir de numerosos componentes, é possível perceber que alguns deles não podem integrar a pulsão em sua forma final, tendo que ser suprimidos ou destinados a outros fins, mais coerentes com a comunidade civilizada, através da sublimação. A neurose seria a conseqüência da fraqueza apresentada por algumas pessoas em sublimar os componentes iniciais da pulsão (Freud, 1970a, pp. 170-173).
Neste texto, Freud levanta um problema que atinge os relacionamentos heterossexuais ainda nos tempos hodiernos: a separação (feita pelos homens) das mulheres, entre aquelas que devem ser amadas e respeitadas, e aquelas com quem é possível realizar-se sexualmente. Embora o próprio Freud considere isso uma decorrência da restrição sexual da época, a liberdade incomensuravelmente maior de que se dispõe nos dias de hoje não foi capaz de retirar do psiquismo masculino essa separação. A persistência do problema provaria que, para além das restrições sociais
(excetuando-se a proibição do incesto, já que esta parece ser universal), sua base se encontra no próprio desenvolvimento sexual infantil.
Talvez o que provoque a tendência à depreciação nos homens e não nas mulheres, não seja, portanto, a obediência maior ou menor às normas sociais, mas sim o fato de que o menino, ao entrar na fase edípica, mantém seu objeto, enquanto a menina precisa mudar o seu. Assim, para o menino, a mãe das relações iniciais seria amada, e a mãe da fase edípica seria desejada. Desta forma, o problema da separação das mulheres em duas categorias, poderia ser considerado uma decorrência da própria peculiaridade do Édipo masculino.