Cláudio Galeno, médico grego do século II, aponta o erro do anatomista Herófilo (que afirmara no século III a.C. que as trompas de Falópio ligam-se à bexiga), mas utiliza os resultados de suas dissecações no desenvolvimento de um modelo de identidade estrutural dos genitais do homem e da mulher, no qual demonstra que as mulheres são, em essência, homens. Segundo ele, a falta de "calor vital" (considerada característica do ser perfeito – o homem), é responsável pelo fato da genitália da mulher ser interna, e não externa. Nesta estrutura, a "vagina" é vista como um pênis interno, os "lábios" como o prepúcio, o "útero" como o escroto e os "ovários" como os testículos – a diferença é que os "ovários" não se encontram dentro do escroto, como os testículos do homem. O inverso também está garantido, pois ao virar o "útero" ao contrário e colocá-lo para fora, os "ovários" ficariam dentro dele, como se o "útero" fosse o escroto. E a "vagina", projetada para fora, tornar-se-ia um pênis (Laqueur, 2001, pp. 15/42).
Para Galeno, o homem e a mulher contribuem para dar vida à matéria, mas a "semente" da mulher é menos potente e menos "informativa" que a do homem, em função da natureza da mulher – o que "significa" ter "semente mais fraca", incapaz de procriar, decorrência de seus prováveis "testículos" menores, que geram sêmen mais frio e mais úmido, resultante da deficiência de calor. Assim, a diferença das sementes decorre da suposta hierarquia entre os sexos. O homem é mais perfeito que a mulher porque tem "excesso de calor", o que faz com que sua semente seja mais quente e mais espessa que a da fêmea, e que o pênis seja saliente e não subdesenvolvido dentro do corpo, como o útero. Possivelmente por não haver ainda uma compreensão da vagina, os pensadores variam a correlação entre pênis/vagina e pênis/útero, sendo o útero também correlacionado ao escroto, tudo ao mesmo tempo (Laqueur, 2001, p. 55).
Segundo Galeno, portanto, as mulheres também produzem "sêmen", uma verdadeira semente geradora, senão não teriam "testículos", nem o desejo do coito. Mas sua "semente" é mais fraca, pois se fosse tão potente quanto a masculina, as mulheres seriam homens e a natureza desnecessariamente estaria misturando duas "sementes" iguais. Se a "semente" da mulher fosse tão forte quanto a do homem, e não precisasse ser misturada, não haveria necessidade de homens. Galeno desenvolve também uma
"neurologia" comum do prazer: o pênis e o colo do útero são ricamente dotados de nervos, por "precisarem de sensação" durante a relação sexual, enquanto os testículos, o escroto e o útero, não. Ou seja, para Galeno, a mulher necessita ter prazer durante o ato sexual, senão não irá gerar. No modelo de sexo único, estando a ejaculação tão associada ao orgasmo no macho19, pensa-se que a fêmea também deve ter prazer, ou não haverá a possibilidade de concepção (Laqueur, 2001, pp. 15/58-59).
O físico Soranus, também no século II, escreve um manual intitulado
Ginecologia, onde afirma que a mulher, para poder conceber, deve estar com "apetite
sexual" e, além disso, bem alimentada, para que suas necessidades sexuais não se desviem em função da fome. Deve também estar sóbria. Afirma também que as mulheres menstruam menos no verão, porque então suam mais, eliminando assim uma parte de seu "excesso de nutrientes", de forma a não precisar eliminar uma quantidade muito grande na menstruação. Quanto ao fato da mulher obter ou não prazer no ato sexual, pensa que é indiferente à concepção (Laqueur, 2001, pp. 65-66).
Pode-se dizer que, nesta época, ser homem ou mulher não está relacionado com o corpo, com o sexo biológico, com o real, com o fato de ser organicamente um ou outro de dois sexos incomensuráveis, mas com a posição social, o papel cultural, o comportamento. O corpo de sexo único não tem fronteiras aparentes que definam a condição social. Os teóricos do sexo único acreditam piamente na possibilidade de inversão sexual biológica: os homens que se associam intensamente com mulheres, por exemplo, podem "regredir" para sua conformação corporal. Há mulheres hisurtas, viris, "quentes demais" para procriar e tão valentes quanto os homens, assim como há homens efeminados, "frios demais" para procriar, e alguns ainda mais femininos que desejam ser penetrados. Também não há seleção do objeto pelo desejo – o corpo de um homem irá reagir sexualmente tanto à visão de uma mulher, quanto de um jovem atraente (Laqueur, 2001, pp. 19/66).
Porém, quando a honra e o status estão em jogo, o desejo pelo mesmo sexo é considerado perverso, mórbido e completamente repugnante. Escreveu-se muito
19 Freud (1970a) provavelmente foi o primeiro a perceber e a afirmar (em 1912), que a potência e a
ejaculação não estão necessariamente relacionadas ao prazer (p. 168). Apenas ao final do século XX, outros estudiosos da sexualidade começariam a perceber que a ejaculação não corresponde, necessariamente, à obtenção de um prazer real pelo homem, levando este conhecimento para um número maior de pessoas. Assim, a possibilidade de fingir o orgasmo começa a deixar de ser vista como um "privilégio" das mulheres.
mais sobre sexo entre homens que entre mulheres porque as conseqüências sociais e políticas imediatas do sexo entre homens eram potencialmente muito maiores. Já o sexo entre mulheres tinha relativamente pouca conseqüência. Mas fosse entre homens ou entre mulheres, a questão não é identificar o sexo, mas a diferença de status entre os parceiros e precisamente quem faz o quê. O homem ativo, o que penetra no coito anal, ou a mulher passiva, a que se deixa esfregar, não ameaçavam a ordem social. O parceiro fraco, efeminado, é que tinha problemas profundos, em termos médicos e morais. [...]. Por outro lado, havia a [...] mulher que fazia o papel do homem, que era condenada [...] considerada vítima de uma imaginação doentia e com sêmen excessivo e mal direcionado. [As ações destes homens e mulheres] eram anormais, não por violarem a heterossexualidade natural, mas por representarem – literalmente personificarem – as reservas radicais culturalmente inaceitáveis de poder e prestígio (Laqueur, 2001, p. 67).
Disso tudo é possível deduzir que, no mundo de sexo único, o gênero (ou seja, a forma culturalmente elaborada da diferença sexual, manifesta nos papéis e status atribuídos a cada sexo) é real, enquanto o corpo, o sexo biológico, é epifenômeno. O sexo é uma categoria sociológica, e não ontológica (Dicionário Aurélio eletrônico – século XXI, 1999 e Laqueur, 2001, p. 19).