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B. L ES PROBLEMES DE LA REGION SUD EST
Existe ainda o perfil de torcedor que é fanático exclusivamente por um time, sediado em outra região. Esses torcedores também são alvo das polêmicas que envolvem o debate entre “anti-mistos” e “mistos”.
Um dos entrevistados exemplifica esse perfil. 23 anos, nasceu e mora na capital cearense, mas viveu quase 17 anos em Pacajus, na região metropolitana de Fortaleza. Considera-se palmeirense, afinidade que criou ao assistir o time paulista ser bicampeão brasileiro em 1994. Ele tem primos que torcem pelo Fortaleza e que tentaram torná-lo também um tricolor, inclusive levando-o ao estádio em um clássico contra o Ceará. Entretanto, disse que não se empolgou com nenhuma das duas equipes locais e permanecia ligado apenas ao time paulista. Afirma que o Palmeiras disputa as principais competições, e, portanto, não vê motivo para torcer por outro time, mesmo que do seu estado.
Assim como outros torcedores já mencionados, o entrevistado acima também vê na torcida pelo time “de fora” a chance de contemplar seus anseios pelos grandes títulos e competições. Sua distinção é que nem mesmo a influência familiar e a ida a um clássico local fizeram-no admirar um clube do seu estado.
“O que há de distintivo no torcedor ‘misto’ que o motiva a torcer por um time de outro estado”? Essa era a principal pergunta que eu esperava responder ao iniciar as entrevistas. Entretanto, logo notei que não seria algo encontrado facilmente. Um fator que imaginei que poderia ser decisivo não se confirmou. Trata-se da suposta não-ida ao estádio. Mesmo
existindo os “mistos” que não acompanham o time local ao vivo, muitos deles o fazem. Em contrapartida, a mídia confirmou-se um fator de grande importância. Graças a histórica grande exposição midiática, especialmente na TV, times de Rio de Janeiro e São Paulo se sobressaíram a outros estados dominantes (como Rio Grande do Sul e Minas Gerais) no que diz respeito ao número de torcedores fora de suas fronteiras.
O argumento mais recorrente entre aqueles que torcem por um time de fora, sendo ele exclusivo ou na companhia de um time local, é a questão da “expressividade nacional”. Os que torcem para dois clubes veem no do seu estado um time de relevância regional, incapaz de figurar no quadro dos grandes clubes do país, privilégio dos principais times do Sudeste e Sul. Descreveu-se neste trabalho os grandes time do Sudeste e Sul como os dominantes no
campo do futebol. São os maiores, mais bem estruturados, que recebem mais apoio financeiro,
contratam os melhores jogadores... Tudo isso é observado pelo torcedor, que ao falar de “expressividade” parece ter em mente muito daquilo que ajudou este trabalho a dividir os times de futebol do país entre dominantes e dominados. Mesmo sem operar com esses conceitos, o torcedor da região dominada quer também se sentir parte dos dominantes.
Por outro lado, mesmo identificando uma divisão no futebol nacional, o “misto” parece não ver nela uma distinção nós x eles como os “anti-mistos” costumam fazer, atribuindo os times nordestinos como “nossos” e os clubes de outras regiões como algo que pertence “aos outros”. Para o “misto”, o fato de uma equipe estar sediado em outra região não impede que ela seja vista como algo que pertença a um contexto do qual ele faça parte; não impede que ela possa ser algo dele.
Os torcedores, quando falam a respeito de seus times, com frequência usam a primeira pessoa do plural: "hoje nós vencemos", "na próxima rodada vamos jogar contra um time forte", "nos afastamos da zona de rebaixamento". Isso demonstra que eles, enquanto torcedores, se sentem uma parte ativa do clube. É esperado que os admiradores de futebol se interessem pelas grandes competições e jogadores mais talentosos. Usando os conceitos aqui trabalhados, o fã de futebol admira também o cenário que é privilégio dos dominantes. O torcedor, ao escolher um time "de fora" que participa desse cenário, se torna mais do que espectador: ele também se vê diretamente envolvido nele, se vê parte dos dominantes. Afinal, não é apenas o Fluminense o atual vencedor do Campeonato Brasileiro. Todos os seus torcedores, de qualquer região, também se sentem campeões nacionais.
Deste modo, identifico três principais diferenças que distinguem o torcedor “misto” do “não-misto”: em primeiro lugar, a divisão dominantes e dominados do futebol brasileiro é interpretada pelo segundo como uma divisão nós x eles, sendo “nós” os nordestinos e “eles” o
Sudeste. Mais que uma dicotomia, é também uma relação de adversários, que lutam por destaque no “campo” do futebol. O “misto” também enxerga essa condição desigual entre clubes do Sudeste e do Nordeste, mas não compartilha da visão de que os clubes nordestinos seriam “nossos”, enquanto os do Sudeste seriam “dos outros”.
Considerando os clubes de todos os estados como algo que possa fazer parte do nós, o torcedor “misto” escolhe clubes de Rio de Janeiro ou São Paulo parar torcer adotando como critério a “relevância nacional” que esses times mais ricos, bem estruturados, com os melhores jogadores e participantes das principais competições gozam. Por sua vez, os “não- mistos” priorizam outros critérios na escolha do clube, todos subordinados ao critério maior de que o time deve pertencer à sua região.
A opinião sobre o ato de se torcer também é diferente. Os “não-mistos” consideram que o torcedor de futebol deve ter apenas um clube. Os mistos não vêem problema em se torcer por dois ou mais, sem prejuízo à sua identidade de legítimo torcedor. Alguns dedicam a mesma intensidade de amor por todos os times, enquanto outros têm o sentimento em graus diferentes.