DE JACQUES GODEFROY
IV. LA MÉTHODE DE GODEFROY
Objetos Narradores se origina desses produtos descartados, destituídos de sua função ou trocados por dinheiro. Sem um critério específico de coleta, os objetos que compõem o repertório coletado ao longo de um ano foram comprados, ganhados ou achados. De fato, foram poucos os objetos comprados em antiquário e demolidoras. A grande maioria dos elementos que compõem o repertório, ou foi achada ao acaso em terrenos baldios e frentes de casas para serem levados pelo caminhão de lixo, ou foi recebida de pessoas próximas que sabiam do meu trabalho, se não por um pedido pessoal. Apenas um dos objetos que compõem a série de trabalhos já pertencia a minha família; trata-se de um tamborete que se encontrava destituído de sua função original e era usado como suporte de vaso de planta na parte exterior da casa.
Portanto, não houve um critério formal e estrito para a coleta dos elementos quanto ao modo de encontro e obtenção dos mesmos. Houve, apesar disso, uma consonância quanto aos objetos e fragmentos serem do mobiliário e usados, além da grande maioria ser de madeira, compensado e MDF. A coleção composta ao longo de um ano possui treze gavetas, sete cadeiras, quatro tamboretes (sendo um de plástico), uma caixa média (tipo
baú), um criado mudo e dezesseis fragmentos (partes de gavetas, abajures, mesinhas, cadeiras, armário e cama). Esse conjunto é resultado de diferentes processos de coleta e de agenciamento, pois envolvem mais de um agenciador e, consequentemente, vários níveis de relações. Essas relações referem-se tanto aos tipos de vínculo que possuo com os agenciadores que intermediam meu acesso aos objetos descartados, quanto à relação dos mesmos com os objetos que me entregaram.
Todos esses agenciadores que fizeram parte do processo de coleta formam o que chamamos de laço social, pois todos os envolvidos (incluindo eu, Mariana) “doam” o que encontraram ou o que possuem para o sujeito receptor Mariana. Esses agenciadores são pessoas conhecidas pelo sujeito receptor: Fátima (mãe), Cláudia (orientadora) e dona Dionísia (catadora de reciclados). Os tipos de vínculos são, portanto, de parentesco e amizade.
A relação de cada um com os objetos que fazem parte do repertório é diferente e, por vezes, similar. Cada “doador” efetuou um mínimo ato de escolha de resíduos de matrizes, ou mesmo objetos inteiros, ao oferecê-lo(s) a mim. Nesse sentido, posso pensar que, além das informações constantes na própria matriz, tenho que lidar com informações implícitas de outros sujeitos, bem como aquilo de autorreferencial que quero passar no objeto como trabalho realizado.
Esse conjunto de objetos se iniciou com o auxílio de dona Dionísia, que recolhe reciclados na rua da casa onde moro. Há alguns anos que a ajudamos juntando-lhe reciclados e a pedi que, caso encontrasse objetos do mobiliário descartados nas ruas, os recolhesse para mim. Assim, ela já me trouxe no dia seguinte uma cadeira que tirou de sua casa, e que faz parte de um dos seis trabalhos desta série.
Dona Dionísia trouxe muitos outros objetos que ela encontrou nas ruas em que andava com o seu carrinho de mão em busca de materiais recicláveis, os quais compõem grande parte do repertório. Tudo o que ela encontrava e achava que pudesse me servir, ela recolhia para me entregar ou deixar no portão de entrada da casa: cadeiras sem encosto ou desmontadas, tamboretes, pranchas de compensado, prateleiras de armários, etc. De sua casa, Dionísia trouxe também uma mesinha azul que servia de suporte para a sua televisão, mas que ela resolveu me dar porque tinha conseguido outro suporte para o eletrodoméstico. Este objeto-matriz compõe outro trabalho da série.
Outro agenciador que faz parte do laço social é Fátima, minha mãe, a qual se tornou uma agenciadora atenta na procura por objetos descartados nas ruas para contribuir com a
composição de meu repertório pessoal. Nos momentos em que ela dirigia pela cidade, quando via algum objeto que pudesse ser importante para a construção dos trabalhos, ela parava para recolhê-lo. Às vezes me chamava para ajudá-la e, então, íamos até o local e recolhíamos o material como, por exemplo, uma porta de armário que se encontrava no passeio.
A orientadora Cláudia também intermediou o meu encontro com alguns dos objetos do conjunto. Ela me avisava quando encontrava objetos descartados nas calçadas em que ela passava no seu caminho diário da casa para o trabalho e vice-versa. Assim, eu ia até o local e recolhia. Do primeiro objeto, uma cadeira, conseguimos apenas duas ripas do encosto que ela conseguiu pegar antes de me avisar. Chegando ao lugar com ela, no entanto, outra pessoa já estava recolhendo a cadeira. Além das coletas, Cláudia me doou um tamborete de plástico, duas gavetas brancas pequenas e uma ripa de madeira com fórmica rosa que ela encontrou.
Existem também os agenciadores cujo vínculo é entre vendedor e comprador; são os donos do antiquário e da demolidora que coletam diversos tipos de objetos antigos, desde utensílios, móveis, peças decorativas, a restos de construção, como portas, janelas e azulejos, com o fim de comercializá-los. Minha visita ao antiquário ocorreu apenas uma vez e o objetivo era conhecer os materiais que ele possuía. Lá eu encontrei uma cadeira infantil antiga que comprei e que faz parte da série. Na demolidora comprei uma gaveta com compartimentos e pequenas pranchas de madeira compensada. Também pude encontrar em um comércio de máquinas de costura duas gavetas de uma mesa de máquina de costura antiga, que me foi dada pelo dono da loja chamado Robson.
Enquanto uma agenciadora à procura de objetos descartados, percebi a abundância dos mesmos nas calçadas e nos terrenos baldios, desde objetos em péssimo estado a objetos em considerável bom estado de uso. Encontrava-os em momentos de atenção e procura, ou em momentos de distração e acaso. Quando não podia recolhê-los, assim que me deparava com um objeto descartado, voltava depois para apanhá-lo; foi o caso da cadeira em condições muito ruins jogada num terreno baldio e da qual levei apenas as ripas do encosto. Outra cadeira que encontrei num terreno baldio foi no percurso da minha casa até a universidade dentro do ônibus coletivo; depois retornei para apanhá-la para, então, compor a série com mais um objeto.
Percebo que a primeira etapa de operações, que é a coleta de objetos descartados para a elaboração e construção da série Objetos Narradores, envolve processos de composição
de um repertório variado e dinâmico que todo bricoleur necessita para o desenvolvimento de seus projetos. Este processo corresponde ao conjunto de utensílios, materiais e resíduos que o bricoleur coleta, reaproveita e conserva ao longo da vida para operar, ele próprio, uma tarefa mais ou menos delineada, mas em vias de alteração, em função dos elementos que encontra e recebe de outros. Percebo também que esse processo é todo permeado de relações intersubjetivas que se associam às informações da matriz e às minhas referências a serem “inscritas” nesse corpo. As subjetividades, os acasos, as intenções e as escolhas que permeiam o processo de coleta me inserem como autora em diversos níveis ou papéis dentro do percurso criativo.
Portanto, as minhas informações, as dos sujeitos e as da matriz determinam as ações de triagem dos objetos que recebi e coletei, bem como as intervenções e combinações entre as matrizes objetuais das quais disponho. Dessa forma, me coloco como uma “bricoleur em segundo nível” que organiza de modo não fixo essas matrizes, repensando os materiais que foram descartados no espaço urbano a partir de um sistema de agenciamentos de coleta.
A maneira como os objetos descartados são encontrados e a intenção com que os mesmos são recolhidos faz parte do processo de coleta e “marcam” o momento de elaboração e construção dos trabalhos. Em cada objeto percebo não apenas as suas marcas de uso e suas condições físicas, como também o modo como ele foi encontrado, como ele chegou até mim e o significado que ele possui para o agenciador que o entregou a mim. Todo esse conjunto de percepções soma ao objeto-matriz, transformado e ressignificado em ‘objetos narradores’.