IV.2 La métamorphose du Jersey
IV.2.2 Mécanismes et quantification
Uma vez que este estudo partiu em busca do significado das experiências dos informantes envolvidos, fez-se pertinente uma metodologia de pesquisa qualitativa e fenomenológica. Em primeiro lugar, a utilização da pesquisa de cunho qualitativo se justifica pela localização do estudo no campo das relações sociais e da subjetividade humana. Esse tipo também nos parece mais propício à interação entre os sujeitos desta pesquisa (pesquisadora e informantes), na qual se fez necessária uma relação de confiança e certo grau de liberdade que permitisse ao informante relatar as suas experiências, o que foi primordial para o nosso trabalho, dada a dificuldade de tratar de um assunto que envolve as frustrações, os constrangimentos e os sofrimentos vividos pelo informante.
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A recorrência ao discurso médico foi feita pelos informantes, sobretudo, para enfatizar a perda de certas funções da parte do corpo que foi operada (perda da capacidade de amamentar, etc.), tentando mostrar, no entanto, que esses prejuízos se aliavam a outros danos, sobretudo os afetivos e os sociais, causados pela cirurgia. Inclusive, o contato que estabelecemos com dois cirurgiões explica-se exatamente pelo fato de que a descrição da experiência do vivida pelo seu corpo continua a contar com esse saber culturalmente elaborado, do mesmo modo que antes da experiência. Assim, consideraremos o conteúdo subjetivo das narrativas, mas também os processos culturais que se entrelaçam ao corpo, interferindo nas respostas que o indivíduo dá às solicitações que o mundo lhe faz. Afinal, “assim como a natureza penetra até no centro de minha vida pessoal e entrelaça-se a ela, os comportamentos também descem na natureza e depositam-se nela sob a forma de um mundo cultural” (Merleau-Ponty, 2006: 465). O que nos interessa dizer, no entanto, é que o fato do indivíduo significar sua cirurgia como mal sucedida já nos indica algo a respeito do tipo de abertura para o mundo que lhe foi possibilitada por seu envolvimento técnico.
Quanto à adoção do método fenomenológico, é preciso dizer que, assim como Moreira (2004), vislumbramos um modelo de pesquisa que permitisse utilizar a “fenomenologia mundana”31
de Merleau-Ponty como uma ferramenta crítica. Assim, considerando o ser- corporal-perceptivo em um mundo-da-vida-histórico-cultural (Ihde, 2004: 21), fizemos uma imersão no universo de indivíduos mutilados e/ou deformados por cirurgias cosméticas. Foi justamente a partir dessa consideração que nos inspiramos no trabalho de Moreira & Cavalcante Junior (2008), o qual explora a possibilidade de se utilizar, como instrumento de pesquisa, não apenas a entrevista, “tradicionalmente utilizada no âmbito das pesquisas fenomenológicas”, mas, também, “instrumentos da Etnografia32
que pudessem ocasionalmente contribuir e enriquecer a compreensão do Lebenswelt (mundo vivido) do fenômeno estudado33” (Moreira & Cavalcante Junior, 2008: 250). Descreveremos esses instrumentos mais adiante.
De acordo com os autores,
“no âmbito da pesquisa fenomenológica, a entrevista nos proporciona a oportunidade de compreender a experiência vivida na perspectiva singular do sujeito colaborador que a viveu. Trata-se, com a utilização adicional de instrumentos da Etnografia, de acrescentar, mais explicitamente, uma perspectiva cultural à compreensão dessa experiência vivida, entendida esta última enquanto constituída mutuamente entre o homem e o mundo. (...) A Fenomenologia Mundana enquanto método crítico (...) pede, ou pelo menos recebe de bom grado, a contribuição do Método Etnográfico (Moreira & Cavalcante Junior, 2008: 250).
Sob tal inspiração, nosso material empírico foi composto pelas narrativas obtidas através de entrevistas semi-estruturadas com orientação fenomenológica e por aquilo que
31 Expressão utilizada pela autora. 32
Voltaremos a ressaltar que, não obstante nosso trabalho de campo não ter sido “etnograficamente orientado” (para utilizarmos a expressão de Lira, 2006), aquilo que Moreira & Cavalcante Junior descrevem como “instrumentos da Etnografia” é justamente o que, no nosso caso, se revelou um valioso material complementar. 33
Embora os autores também apontem alguns limites de integração entre o método fenomenológico e o método etnográfico.
chamaremos de “dados complementares” (entrevistas com cirurgiões, acesso a blogs, comunidades virtuais, matérias de programas televisivos e de revistas) que se constituíram como materiais secundários complementares e que contribuíram para a compreensão dos “cenários mais amplos da cultura onde o sujeito está inserido”, ao mesmo tempo em que nos permitiu “reunir artefatos que veiculem sentidos e significados portadores das condições de experiência com que o sujeito depara-se habitualmente em seus contextos de origem34” (Idem, Ibidem: 261). A respeito da influência deste trabalho de Moreira & Cavalcante Junior sobre a aproximação entre as pesquisas fenomenológicas e os instrumentos da etnografia, há algo de suma importância que precisa ser retomado: diferentemente do que ocorre nas pesquisas descritas pelos autores35, em nossa situação reconhecemos que o recurso a esse material complementar nem sempre atendeu a todos os elementos tradicionais da etnografia. Por exemplo, o acesso a blogs e às matérias de programas televisivos e de revistas não foi marcado exatamente pela interação entre pesquisador e pesquisado (apesar de algumas vezes terem se constituído, também, como fonte para futuras entrevistas, o que podemos complementar dizendo que estes dados tiveram grande relevância para nossas observações e vivências em campo). A propósito, as próprias condições do campo e a resistência de grande parte dos informantes não nos permitiram uma imersão no cotidiano destes últimos, tampouco
34 Foi com o auxílio desse material que pudemos compreender melhor o cenário mais amplo em que as experiências dos nossos informantes foram engendradas (para nos utilizar do nosso próprio exemplo: um cenário de ansiedade em que o corpo é colocado como ameaça ao sujeito, e que conhecemos melhor através do estímulo ao consumo da cirurgia, sobretudo na mídia). Além disso, essas informações são sugestivas do horizonte das possibilidades vislumbradas pelos indivíduos para sua re-organização no mundo.
35 Os autores citam como exemplo a pesquisa pela qual investigam a experiência vivida do estigma na doença mental e HIV/AIDS no Nordeste do Brasil, detalhando alguns procedimentos: “dividimos a equipe de pesquisa em dois grupos: 1) A equipe clínica, que está realizando entrevistas fenomenológicas com pacientes de um hospital público de Fortaleza. Estes pesquisadores, quando se encontram no hospital, fazem, também, observação participativa e produzem vinhetas, a partir desta imersão no campo, o hospital. 2) A equipe da comunidade, que neste projeto desenvolveu 4 estudos de caso etnográfico com 4 destes pacientes entrevistados, onde pesquisadores acompanharam estes pacientes em suas casas, suas comunidades, com visitas semanais ao longo de todo o ano de 2005. A análise dos resultados está sendo realizada a partir dos resultados dos dois instrumentos: a análise fenomenológica e as vinhetas” (Moreira & Cavalcante Junior, 2008: 253). Ou, ainda, em outro exemplo: “a pesquisadora queria estudar a experiência vivida do cardiopata, tendo, então, não apenas realizado entrevistas fenomenológicas com 15 pacientes, como também visitado durante um período de tempo o hospital do coração, onde realizava observação participativa (Idem, Ibidem: 254).
um tipo de observação participante que nos permitisse falar de um trabalho etnográfico em sua caracterização mais formal. Mas é importante destacar uma característica fundamentalmente ligada ao trabalho etnográfico, e que pode ser contemplada no trabalho com esse material: a abordagem do contexto mais amplo no qual se fundamenta a prática social em questão. Consideramos, portanto, que o trabalho etnográfico não se limita ao que chamamos aqui de “dados complementares”, mas que esses últimos também foram importantes até mesmo para refletirmos sobre nossa interação com os entrevistados: que representações e significados culturais reconhecíamos em nossos encontros? Em que medida percebíamos a relação entre as vozes dos informantes e o contexto cultural mais amplo do consumo das cirurgias, por exemplo?
Consideramos, assim, que o conteúdo desse material complementar poderia, de algum modo, nos dizer algo a respeito das práticas e das experiências das pessoas mutiladas e/ou deformadas pela cirurgia estética, embora a perspectiva do sujeito a respeito da sua própria experiência continuasse sendo o nosso objetivo último.
Considerando a definição de Minayo (1988) a respeito da entrevista semi-estruturada, achamos que ela se adequaria à orientação fenomenológica que buscamos dar ao nosso estudo.
“[a] entrevista semi-estruturada (...) combina perguntas fechadas (ou estruturadas) e abertas, onde o entrevistado tem a possibilidade de discorrer o tema proposto, sem respostas ou condições prefixadas pelo pesquisador (Minayo, 1988: 108)”.
A flexibilidade dessas entrevistas nos permitiu explorar temas e conteúdos que vieram a aparecer nas falas dos informantes (por exemplo, em vários momentos, os informantes passaram a dar maior ênfase às suas cirurgias reconstrutoras, não se limitando a tratar da experiência mal sucedida da cirurgia, e vimos aí um elemento que merecia nossa atenção. Assim, um novo tema emergiu, revelando-se significativo quanto à ressignificação feita pelo indivíduo a partir da experiência vivida, e isso pode ser devidamente explorado através do
recurso à entrevista semi-estruturada). Essa é uma característica importante dessas entrevistas: elas privilegiam a experiência vivida pelos participantes, permitindo dar maior atenção às suas expressões (Alves, 1991). Vimos nisso a possibilidade de intensificar a relação pesquisador/informante, no sentido de ambos poderem trazer novas questões à medida em que a interação ocorresse. De algum modo, isso inclusive coincide com o que Moreira (2004) entende como uma das fortalezas da pesquisa fenomenológica: estar “sempre aberta ao novo e a possibilidades criativas de compreensão do objeto de estudo, o que por sua vez também caracteriza seu caráter crítico” (Moreira, 2004: 455). É preciso lembrar que a fenomenologia tradicionalmente é sempre o pensar que se instala quando a inércia, o esperado, a atitude natural desanda, se torna impossível. A fenomenologia foge da expectativa. Enquanto pesquisadores, nós também somos surpreendidos na realização desse trabalho de pesquisa. Assim, estamos falando de um pensamento e de um método que é sempre movimento (Idem, Ibidem: 454). Também para a análise nos orientamos pelo trabalho de Moreira e suas recomendações sobre a redução fenomenológica a ser feita pelo pesquisador.
“Um aspecto importante de uma análise fenomenológica mundana se refere à atitude fenomenológica do pesquisador ao exercer a redução fenomenológica. Uma pesquisa desta natureza deverá sempre levar em conta e estar atenta a todos os fenômenos emergentes. O pesquisador deverá, portanto, praticar a redução, tentando pôr de lado seus próprios pensamentos e interesses, estando aberto a qualquer tipo de conteúdo ou tema que venham a emergir na sua pesquisa. (...) Relembrando com Merleau-Ponty que a redução nunca se completa, poderíamos dizer que o pesquisador estará tentando sempre, sem nunca conseguir completamente, deixar de lado suas hipóteses para estar aberto ao fenômeno emergente” (Idem, Ibidem: 455).
A autora define as etapas da análise que, no entanto, podem ser reconstruídas por cada pesquisador, de acordo com as especificidades de cada situação da pesquisa. São, em resumo: a) Divisão do texto nativo (transcrição literal da entrevista); b) Análise descritiva do significado emergente do movimento; c) “Sair dos parênteses” (Moreira, 2004: 454).
“o pesquisador volta a olhar para a sua hipótese, as suas suspeitas sobre possíveis caminhos para a compreensão de seu objeto de estudo. (...) Isto significa que, neste momento, o pesquisador deixa de praticar a redução fenomenológica, onde estava colocando entre parênteses ideias pré-concebidas, suspeitas, hipóteses. (...) Aqui o pesquisador retorna, então, à sua hipótese como desconfiança, se assume integralmente com os resultados da pesquisa e, principalmente posicionando-se frente a esses resultados. (...) Configura-se aqui todo o potencial crítico do método fenomenológico com base no pensamento de Merleau-Ponty”.
Sob influência desse modelo, combinamos então a análise fenomenológica de trechos das entrevistas com os dados complementares e fizemos as considerações finais acerca dos resultados.