CADRE THEORIQUE
I. CONCEPTIONS DES LIMITES
1.1 De quoi la limite est-elle le nom ?
O golpe de Estado de 14 de novembro é descrito por muitos como o ponto de partida da desgraça da Guiné-Bissau, de entre estes autores que se dedicaram a analisar os efeitos negativos do golpe de Nino Vieira, dois destacaram-se: O Tenente-Coronel Queba Sambo e o Professor F. Delfim da Silva. Este último fez uma abordagem histórica do problema e relatou o seguinte:
“Os combatentes da liberdade da pátria que, deixando-se arrastar numa terrível guerra civil a partir do dia 14 de novembro de 1980, acabariam por protagonizar a tragedia nacional da Guiné-Bissau. Entre o golpe de Estado de 1980 de 1980 e os fuzilamentos de 1986 realmente tinha triunfado entre nós o espírito de autodestruição. Vimos então – entre 1980 e 1986 – descer sobre nosso país e a enraizar-se nele uma surpreendente «ordem político-militar», uma cultura de golpe, de violência, de ódio, de traição entre combatentes da liberdade da pátria. Vimos os heróis da revolução golpista celebrarem uma “grande” vitoria sobre quem não lutou, nem se preparou para lutar, nem quis lutar. Vimos descer o reino de Kikia Matcho, um fenómeno terrível que foi observado por Filinto Barros, mas que bem cedo tinha sido captado pelos filtros apurados dos nossos melhores artistas – José Carlos Hans Schwarz (que o combateu até à sua morte) e Flora Gomes que o denunciou no seu Mortu Nega”.81
80“For the PAIGC leadership, the terrain of political combat had clearly shifted from hills,
rivers, forestland, and plains of countryside to the more staid offices of an urban-based government. The opposition was no longer a brutal foreign power but rather individual competitors within the ruling political elite. The lack of motivation to maintain common bonds among cadres within the PAIGC set the stage for the politics of intragovernmental factional. Indeed, behind the scenes interpersonal antagonism became the cornerstone of postcolonial political life. As this process of political decay unfolded, several strands of factional conflict stood out in, particular, and provided the basis for the grouping of certain personalities and sets of antagonism that would culminate, after a mere six years of
independence, in a successful coup d´état.” Cf. Joshua B. Forest, 1992, p. 55-56
Este autor argumentou que quem consegue compreender a razão da destruição política, e não raras vezes, da destruição física de tantos combatentes guineenses deveria saber que:
“foi sim, por causa do começo de um regime fundado no golpe militar, na celebrada cultura de golpe, essa mesma cultura de conspiração e de golpe que alimentou e, ao mesmo tempo, perseguiu o regime nascido no dia 14 de Novembro de 1980 até aos fuzilamentos de 1986. E é essa cultura de complot que continua e continuara a perseguir a ordem política guineense enquanto durar o paradigma que foi instituído pelo vitorioso golpe militar de 14 de Novembro de 1980.82
Celisa De Carvalho indicou que:
“foram várias as lutas no interior do PAIGC, povoadas de intrigas e histórias mal contadas, que invariavelmente justificavam as constantes intentonas e demissões, mas tendo sempre na ordem do dia questões de natureza étnico/tribal/nacionalista.”83
O povo guineense acolheu o golpe de Estado de 14 de novembro com uma euforia desmedida, esperando que dias melhores fossem chegar. Para além do facto de este golpe ter desalojado os Cabo- Verdianos da sua hegemonia na administração do estado Guineense, o que em si constituiu motivo de alegria pelos guineenses de origem, o movimento reajustador tinha o apoio popular devido à difícil situação em que o regime de Luís Cabral tinha colocado o país. Passado algum tempo, a euforia deu lugar à realidade e a Guiné-Bissau deixava-se nas mãos de um tirano rodeado de um grupinho de indivíduos ambiciosos e incompetentes que levou o país a uma má governação, como o assinalou Rubilson Delcano, que refere:
“O País era governado por um individuo tirano, um déspota, então, aqueles como o Viriato Pã, Paulo Correia e entre outros que regressaram ao País depois de uma formação no estrangeiro, para darem os seus contributos em prol da nação, só por terem uma visão diferente, foram estupidamente assassinados por pessoas desconhecidos. (…) Este autor, chama atenção
82 Cf. Id. P. 17
para os sucessivos golpes de Estado misturado com as questões étnicas na disputa política para garantir a supremacia eleitoral entre as principais forças políticas. O que chama atenção é a presença dos interesses externos na Guiné-Bissau e a disputa interna, envolvendo alguns países eurocêntricos e africanos, o que resultou no fato de que nenhum governo democraticamente eleito conseguiu terminar o seu mandato constitucional.”84
Os objetivos inicialmente fixados pelos novos detentores do poder depois do 14 de novembro e que lhes proporcionaram o apoio popular foram abandonados, e apareceram os verdadeiros motivos do movimento que eram nada mais do que apropriar-se do Estado para fins pessoais. Rapidamente observou-se uma transformação do 14 de novembro, como Queba Sambu observa:
“O 14 de Novembro, rapidamente se transformou nos mais intrépidos pseudo- defensores do nosso povo, apresentando-se com uma mensagem que, teoricamente, se situava a 180 graus da anterior. Outra característica particular da nova situação tem a ver com o fato de as Forças Armadas, de repente, se terem transformado no centro de gravidade do xadrez político nacional, aparecendo alguns dos seus elementos aos olhos dos seus companheiros, pelo seu comportamento, como mercenários e desencadeando uma onda de guerrilha política contra os cidadãos.”85