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Le travail des enseignants spécialisés étudié sous l’angle de la tâche

1.2 L’enseignement envisagé dans une perspective ergonomique

―Talvez os mortos possam ser reduzidos a formas fixas, embora os seus registros que sobrevivem sejam contra isso.‖ (WILLIAMS, 1979, p. 129)

Por fim, a natureza desta pesquisa encontra uma boa chave de compreensão no conceito de estrutura de sentimentos, proposto por Raymond Williams em Marxismo e literatura (1979). Ciente do contexto que fora produzido tal conceito, é necessário sublinhar que a apropriação do conceito é feita de forma distinta. Não se trata de localizar aquela discussão de referências, marcas e elaborações intelectuais, mas ajustar tal reflexão para práticas discursivas que procuro evidenciar.

Ao propor sua Teoria cultural, Williams tem a necessidade de situar aquelas experiências que não são tão claramente definidas e estão numa condição de emergência. Numa perspectiva temporal equivocada, poderiam não ser confirmadas como sociais, pois estão em processo e, desta forma, não poderiam ser (a) vali(d)adas na sua conformação, muito menos em sua forma. Segundo Williams, é a redução do social a formas fixas que continua sendo o deslize primário. Acredito que a experiência de consumo compartilhada da música tem sintonia com essa reflexão na medida em que se trata de uma experiência até pouco privada, individual, mas que diante das práticas discursivas nesse entorno ganha novas dimensões. Trata-se de uma teoria que parte da idéia de hegemonia, mas assimila para além daquilo que é dominante, ou seja, o residual e emergente.

É dessa prática emergente que Williams chega à noção de estrutura de sentimentos. Estudar a experiência tecnológica perceptiva da cultura moderna traz questões profícuas sobre

essa sensibilidade e as dimensões subjetivas dessas práticas. Williams oferece esse suporte para a percepção dessas experiências vividas relacionadas às novas tecnologias, à temporalidade, ao social, ao pessoal, entre outros. Pela própria noção de ―estrutura‖, Williams não nega a fixidez das práticas, mas procurar tornar pesquisável aquela situação da experiência presente, não sedimentada, informe. Segundo Williams,

a alternativa real às formas fixas recebidas e produzidas não é o silêncio: não a ausência, o inconsciente, que a cultura burguesa mitificou. É um tipo de sentimento e pensamento que é realmente social e material, mas em fase embriônicas, antes de se tornar uma troca plenamente articulada e definida. Suas relações com o que já está articulado e definido são, então, excepcionalmente complexa (WILLIAMS, 1979, p.128).

Tratando-se de um fenômeno, o compartilhamento se revela como prática emergente que modifica as normas estabelecidas para o consumo da música. Segundo o próprio Williams:

o que importa, finalmente, no entendimento da cultura emergente, em distinção da cultura dominante e residual, é que ela não é nunca apenas uma questão de prática imediata. Na verdade, depende crucialmente de descobrir novas formas ou adaptações da forma. Repetidamente, o que temos de observar é, com efeito, uma emergência preliminar, atuante e pressionante, mas ainda não perfeitamente articulado, e não o aparecimento evidente que pode ser identificado com maior confiança. É para compreender melhor essa condição de emergência preliminar, bem como as formas mas evidentes do emergente, do residual e do dominante, que devemos explorar o conceito de estrutura de sentimento (WILLIAMS, 1979, p. 129).

A conseqüência metodológica para o uso deste conceito me parece ter sido arcada desde o início da estruturação desta pesquisa. Williams escreve que

as modificações qualitativas específicas não são consideradas como epifenômeno das instituições, formações e crenças modificadas, ou simplesmente evidências secundárias, de novas relações econômicas entre e dentro de classes. Ao mesmo tempo são tomadas, desde o início, como experiência ‗social‘, e não como experiência ‗pessoal‘, ou como as características incidentais, meramente superficiais, da sociedade (WILLIAMS, 1979, p. 133-134).

Este entendimento vai para além daquele sentido de social atribuído ao passado, formal e institucional, mas lança luz sobre as ―modificações de presença‖, perspectiva mais dinâmica e complexa. Mesmo sendo emergente ou pré-emergentes, são sociais por motivos que são anteriores a sua definição, classificação ou racionalização, ou mesmo de exercerem pressões observáveis e demarcarem claramente os contornos dessa experiência.

A escolha do uso da palavra sentimento tem uma intenção muito clara, que é afastar-se das noções de ―ideologia‖ e ―visão de mundo‖. Em sintonia com Williams,

estamos interessados em significados e valores tal como vividos e sentidos ativamente, e as relações entre eles e as crenças formais ou sistemáticas são, na prática, variáveis (inclusive historicamente variáveis), em relação a vários aspectos, que vão do assentimento formal com dissentimento privado até a interação

mais nuançada entre crenças interpretadas e selecionadas, e experiências vividas e justificadas (WILLIAMS, 1979, p.134).

Vale ressaltar que este sentimento não é utilizado da forma senso-comunal em oposição ao pensamento, mas de características do impulso, contenção e tom, elementos especificamente afetivos da consciência e das relações. Trata-se de uma experiência em processo, de uma hipótese cultural derivada na prática de tentativas de compreender esses elementos e suas ligações.

O conceito auxilia na compreensão de novos significados e de características emergentes na sociedade, contemplando aquilo que escapa ao fixo ou instituições já sedimentadas manter, tendo relação como as experiências vividas e sentidas no presente para a compreensão dos experiências do momento. O conceito de Estruturas de sentimento é importante para a compreensão das mudanças, onde o conteúdo social se revela nos vários elementos emergentes e dominantes, que se interligam tornando-se evidente os laços de geração ou período (incertezas nos rumos da produção e da experiência musical). Pode-se perceber nesses projetos (plataformas de compartilhamento), o surgimento de um imaginário crítico.

A idéia de pensar o compartilhamento a luz desse conceito permite a identificação de um fenômeno descentrado, mas que reforça valores (tal como vividos e sentidos ativamente) difusos e internalizados. Por se tratar de uma mudança de comportamento, acho que esse conceito pode nos trazer algo substancial na percepção de um fenômeno social, mesmo que seja algo em processo. Considerar uma ―estrutura de sentimento‖ permite adensar algo que poderia ser entendido de forma somente individual ou local, mas encontra elementos e motivações comuns, compartilhadas e em proporções globais. O trinômio já trabalhado (resistindo, colaborando e participando) está em diálogo com o que queremos evidenciar. Essa ―estrutura de sentimento‖ está mais próxima de uma forma de ―consumo construído‖ (de características mais autônomas). Podemos identificar essa forma de consumo em contraposição a um ―consumo motivado‖, isto é, de características mais suscetíveis aos apelos de mercado. A ideia de refletir ou distinguir de modo mais expressivo esse ―consumo construído‖ me permite uma reflexão menos estruturalista e mais próximo de um entendimento de síntese, já que não deixo de tentar captar o contexto (de novas tecnologias, capitalismos, direitos) no qual esse sentimento é despertado, ou para seguir uma coerência semântica, construído.

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