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Dans le document 34-35 : Sciences et techniques (Page 104-106)

A cidade de Belém, no estado do Pará, região Norte do Brasil, possui algumas peculiaridades. A primeira delas é o clima quente e úmido, com temperatura média de 26º C. podendo alcançar os 40º nos meses de julho a novembro, por conta do arrefecimento das chuvas na região. O calor é companhia constante o ano todo, o que acaba por determinar alguns hábitos alimentares, como a salgação de peixes, mariscos e carnes secas, uma prática que ocorre desde a época colonial, quando os produtos precisavam ser secos e salgados para conservação.

Com população estimada13 de 1.437.600 habitantes, ultrapassando os dois milhões com os municípios vizinhos (Ananindeua, Benevides, Marituba e Santa Bárbara do Pará), para amenizar a temperatura, a cidade possui verdadeiros oásis arborizados espalhados por avenidas, como as famosas mangueiras nas grandes avenidas da cidade, o Museu Emílio Goeldi, o Bosque Rodrigues Alves, as praças da República e Batista Campos. As árvores contribuem para ventilar a cidade e trazem um aspecto bucólico à paisagem.

Uma paisagem sob mudança, pois com o forte movimento de exploração imobiliária, Belém cresce para o alto e uma das preocupações é se a especulação imobiliária não estaria afetando a ventilação da cidade e aumentando o calor, já que aos poucos a cidade perde sua área de floresta urbana14.

13 Informação do IBGE, disponível em

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2009/POP2009_DOU.pdf, consultado em 18/10/2009.

14 Segundo o relatório Belém Sustentável 2007 produzido pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente

da Amazônia, Imazon: “na Grande Belém, a floresta urbana diminuiu de 33%, em 2001, para 31% em 2006. Do total de florestas remanescentes (369 quilômetros quadrados), mais de dois terços ainda não estão protegidos na

Outra preocupação atual na cidade é com a frota de veículos. Tanto os ônibus, quanto os automóveis cresceram em número nos últimos anos, contribuindo para o aumento da poluição sonora na cidade15, que, aliás, foi considerada a capital do barulho em 2005, de acordo com uma pesquisa do Instituto Pereira Passos (IPP)16. Dados do Imazon (Idem, p. 97) apontam que “a média do nível de ruídos nas avenidas de grande fluxo em zonas habitacionais e de uso misto é de 83 decibéis, acima do que foi estipulado na lei municipal (70 decibéis)”. Contribuem para isso, segundo o relatório (Idem, p. 98), “a idade da frota de transportes coletivos, os congestionamentos, a falta de prudência dos condutores e o excesso de buzina”.

Caminhar por Belém nos leva a ouvir sonoridades que misturam elementos de uma natureza silvestre com uma cidade urbana. Comecemos esta caminhada por onde a cidade nasceu, às margens da orla do Rio Guamá, local que abriga a maior feira livre da América Latina, o mercado do Ver-o-Peso. O lugar, ao longo de seus 321 anos de história, sofreu várias mudanças, mas permanece um importante ponto turístico da Amazônia.

O “velho Ver-o-Peso”, símbolo de Belém, apresenta as várias faces de uma região que teima em resistir à pressão homogeneizadora da memória nacional. Muito mais do que um complexo arquitetônico, é um lugar cultural e humanístico, onde são perpetuadas as relações de troca que caracterizam as cidades portuárias e evidenciam a tendência comercial que a cidade apresenta desde sua origem. (Boletim da SEURB, 1988, p.1, apud CAMPELO:2002, p.152)

Situado entre a Baía do Guajará e a parte antiga de Belém, na av. Boulevard Castilho França, no bairro do Comércio, o Ver-o-Peso passou a ser chamado de Complexo do Ver-o-Peso em meados de 2002, por abrigar, além da tradicional feira, a Feira do Açai, o

forma de UPAs (Unidades de Proteção Ambiental). Além disso, as UPAs existentes, principalmente na forma de parques, estão distribuídas de forma desigual na Grande Belém e a execução dessas unidades ainda é incipiente. Até 2006, o desmatamento já havia atingido 50% da APA (Área de Proteção Ambiental) de Belém, 45% do Parque Ecológico de Belém (Médici), 34% do Parque Ambiental de Belém e 21% do Parque Ecológico da Ilha de Mosqueiro. A taxa de desmatamento anual na Grande Belém diminuiu de 0,55%, entre 1995 e 2001, para 0,32% entre 2002 e 2006. Em termos per capita, em 2001 havia 211 metros quadrados de floresta por habitante, enquanto em 2006 havia 176 metros quadrados” (2007, p. 19).

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Ainda segundo o relatório Belém Sustentável 2007: “aumentou a frota de veículos, o número de vítimas em acidentes de trânsito, as emissões de gases poluentes, a poluição sonora e as interferências visuais nas vias de grande fluxo. Na Grande Belém, a frota de veículos cresceu 53%, passando de 166 mil, em 2001, para 254 mil em 2007; neste ano havia um automóvel para 12 habitantes na Grande Belém. Em 2003 houve 145 mortes no trânsito, enquanto em 2006 registraram-se 231 vítimas fatais de acidente de trânsito ou o equivalente a 11 mortes por 100 mil habitantes. As principais vítimas foram os pedestres –50% do total– e, em seguida, os ciclistas (19%). Na Grande Belém, apesar do uso extensivo de bicicleta pela população, a infra-estrutura cicloviária (ciclofaixas e ciclovias) totalizava, em 2006, apenas 46,6 quilômetros” (Idem, p. 20).

16 Disponível em http://portalgeo.rio.rj.gov.br/estudoscariocas, pesquisa Orçamento Familiar,

Solar da Beira, a Praça do Relógio, a Praça do Pescador, o Mercado de Ferro, trazido em em partes da Inglaterra, para ser montado em Belém, no século XIX. Na realidade, o Ver-o-Peso não pode ser visto de uma forma isolada. Várias feiras compõem um todo, à primeira vista caótico, mas com uma lógica peculiar. Tudo o que compõe a cultura da região está ali, distribuído nas barracas de frutas, legumes, ervas e diversos outros setores.

Os sons do Ver-o-Peso17 são vários e começam ainda na madrugada com o desembarque de peixes e frutas dos barcos que ancoram vindos de ilhas próximas a Belém. São os sons de uma grande feira livre, cercada pelo som das águas do rio, dos vendedores ambulantes oferecendo das frutas regionais aos CDs e DVDs piratas, das vendedoras de ervas, sedutoramente tentando convencer as pessoas a adquirirem seus produtos, da música vinda de aparelhos de som, em geral, tocando o brega, estilo característico da região e suas ramificações (tecnobrega, brega melody etc.), das vozes de pessoas comprando e conversando, da buzina dos carros e ônibus.

Conforme adentra-se à cidade, que se desenvolveu de costas para o rio18, vivencia- se o centro urbano com todas as suas características: carros, ônibus, pedestres, ruídos de toda ordem. Para fugir do burburinho, há em Belém grandes praças verdes, conforme foi dito. Lugares em que ainda é possível ouvir o canto dos pássaros e onde é possível se proteger da chuva da tarde. Uma das praças que traz um típico espetáculo da natureza é a Praça Justo Chermont, onde fica a Basílica de Nazaré. É lá que às seis horas da tarde, encontramos, além do toque do sino avisando sobre a missa, a chegada de inúmeros periquitos “asa-branca”.

Uma pesquisa do Laboratório de Ornitologia e Bioacústica, do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará avaliou esses animais visando contabilizá-los e entender melhor o comportamento alimentar da espécie (...). Foi identificado que milhares de periquitos se reúnem todos os dias, após se alimentarem, na praça santuário, em frente à Basílica de Nazaré. Pousam em uma árvore específica (ceiba pentandra), que serve de dormitório. No local já foi contabilizado, durante um dia, no mês de outubro do ano passado, mais de 6 mil aves19.

17 O programa Visagem - Matinta Perera - divulga em um trecho uma composição feita a partir dos sons

do Ver-o-Peso, realizada pela pesquisadora paraense Marta Geórgia.

18 Segundo o arquiteto Flávio Nassar, a cidade se desenvolve de costas para o rio por uma cultura da

época: “A cidade portuguesa era de costas para o rio, como todas as cidades de 1700, 1600, porque não se tinha essa cultura de voltar a cidade para a natureza. Ela era até uma tentativa de se proteger da natureza, que era vista como agressiva, e o homem tinha que impor a sua linguagem urbana”, disponível em

http://www.ufpa.br/beiradorio/arquivo/beira05/entrevista.htm, consultado em 18/10/2009.

19 Informações da pesquisa “Comportamento alimentar e dinâmica populacional do periquito de asa

Na mesma avenida onde pousam os estridentes periquitos, fica o Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ponto turístico de Belém, localizado no centro da cidade, tem sido objeto de pesquisa pela intensa exposição aos ruídos do entorno. Segundo pesquisa do arquiteto Antonio Carlos Lobo Soares, “no interior do parque os níveis sonoros estão acima dos valores estipulados pela Organização Mundial de Saúde para áreas de parque e lazer”20. Na pesquisa, Lobo Soares diagnostica os principais barulhos ouvidos de dentro do parque.

Apesar da existência de Lei Municipal que torna defeso o tráfego de veículos pesados, acima de 20 toneladas, na Tv. Nove de Janeiro constatou- se a presença de alguns veículos pesados como ônibus escolares, caminhões de mudança e coleta de lixo. Nas outras três vias de entorno do PZB não há restrição quanto à circulação de qualquer tipo de veículo rodado. Além dos sons produzidos pelo tráfego rodado, tráfego aéreo e agentes atmosféricos, chamou a atenção a incidência na área de sirenes de ambulâncias, carros de bombeiros e de polícia; “carros sons” de publicidade; carros com sons automotivos em alto volume; fogos de artifício; obras públicas e privadas. Merecem destaque os ruídos produzidos por equipamentos utilizados em obras, como um bate-estaca, em construção de blocos de apartamentos na confluência das Avenidas Alcindo Cacela e Conselheiro Furtado, acerca de duzentos metros do PZB, uma “britadeira” utilizada pela prefeitura em obra de recuperação da rede de esgoto na esquina da Tv. Nove de Janeiro com Magalhães Barata, e a central de ar-refrigerado de uma loja de departamentos, localizada na frente do PZB na Av. Magalhães Barata.

As centrais de ar-refrigerado são comuns em vários prédios da cidade, tornando-se parte integrante dos ambientes. Mas não é só, o cenário complementa-se com o barulho das obras dos grandes edifícios; dos gritos dos camelôs; dos carros som fazendo propagandas de toda ordem; dos vendedores ambulantes oferecendo comidas típicas ou outros produtos; os jornaleiros, presença constante nos sinais de trânsito e guardas civis noturnos com seus apitos, anunciando sua passagem pelas ruas escuras.

O que se consome é propagado, cantado e anunciado como vinhetas radiofônicas, dia e noite. Nas ruas ou nas portas das casas ambulantes vendem a pipoca, a vassoura, o cheiro-verde, a tapioca, o camarão, e o jornal anunciando as mídias dominantes das famílias, as elites políticas. A informação coletiva com suas heranças do passado, as mudanças globais no presente e as aspirações futuras estão nas ruas, naquilo que a vida urbana talvez tenha de mais público, amplificando-se aos ouvidos da multidão e não nas mídias de quem “lê acredita” (VASCONCELOS, 2008).

pássaros e entender o comportamento alimentar da espécie. Disponível em

http://www.portal.ufpa.br/interna_minutodauniversidade.php?idMinuto=196, consultado em 15.10.2009.

20 “A Paisagem Sonora do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém – Brasil”,

Na periferia, à noite, os sons são outros. Em alguns bairros, as festas de aparelhagens tomam conta. Toca-se o tecnobrega que além de ser fonte de renda para muitas pessoas, também é certeza de público, conforme a pesquisa “O tecnobrega paraense e o modelo de negócio aberto”, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, em parceria com o site Overmundo e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.

Estima-se que as aparelhagens e as bandas de música brega realizem cerca de 3.164 festas e 849 shows por mês na região metropolitana de Belém, respectivamente. Isto certamente faz das festas e shows de tecnobrega uma das formas de entretenimento mais populares da região metropolitana de Belém. Os números impressionam ainda mais quando consideramos um modelo de mercado musical particular e distinto, sem a presença de grandes gravadoras ou selos21.

As aparelhagens fazem parte de um conglomerado físico, desenhadas e montadas como verdadeiras naves espaciais22, nas quais o DJ realiza sua performance. Equipamentos de última geração são utilizados para animar as festas: telões, notebooks, câmeras de vídeos, efeitos visuais com raio laser entre outros.

Sua estrutura física é geralmente constituída por uma cabine de controle, duas ou três torres de caixas de som de cerca de três metros de altura com alto-falantes, além de uma mesa de som, computadores, equalizadores e equipamentos de iluminação (...) Os principais efeitos especiais que uma aparelhagem dispõe são exibidos no auge da festa, que é a chegada do DJ principal. Este é o momento em que a festa se torna um espetáculo de efeitos sonoros e visuais no qual a cabine se movimenta e o DJ apresenta ao público todos os recursos tecnológicos da aparelhagem. O DJ principal se torna a personagem central da festa e é visto como um astro pelo público ao demonstrar o domínio dos recursos tecnológicos23.

As festas de aparelhagem que ocorrem nos bairros da cidade sofreram forte fiscalização do poder público nos últimos anos, restringindo o número de execuções, principalmente por causa do “volume alto dos sons das aparelhagens e a freqüência de brigas e roubos ocorridos fora das casas noturnas” (Idem, p. 08). Durante a realização do Fórum Social Mundial 2009, em Belém, por exemplo, as festas foram proibidas nos bairros de

21 Disponível em http://www.overmundo.com.br/banco/pesquisa-o-tecnobrega-de-belem-do-para-e-os-

modelos-de-negocio-abertos, consultado em 19/10/2009.

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A pesquisadora Giseli Vasconcelos analisa a estética das festas de aparelhagem procurando relações com filmes futuristas e capas de discos caribenhos. Cf VASCONCELOS, GISELI. Espaço[nave] manifestação coletiva do aparelhamento midiático. Disponível em http://www.tecnobrega.org/wp- content/uploads/2008/04/espaconave.pdf, consultado em 18/10/2009.

23 Disponível em http://www.overmundo.com.br/banco/pesquisa-o-tecnobrega-de-belem-do-para-e-os-

Canudos, Condor, Cremação, Guamá, Jurunas e Terra Firme, tradicionais locais de festas, como forma de conter os índices de criminalidade na região24.

Já em uma decisão juíza da 3ª Vara de Fazenda da Capital, Rosileide Maria da Costa Cunha, as festas de 20 grupos de aparelhagem de som foram suspensas a partir do dia 27 de janeiro de 201025. Segundo a decisão, as festas só poderiam ocorrer se, entre outros requisitos, garantissem o isolamento acústico do local. Os donos das aparelhagens prometiam recorrer na justiça para continuarem com as festas.

Por certo, muito ainda pode ser dito sobre a paisagem sonora belenense, mas nossa intenção, neste momento, é situar algumas sonoridades que encontramos em Belém, local que serve de cenário para uma parcela considerável das histórias dos programas Visagem, como veremos na segunda parte desta tese. Agora, partimos para uma aproximação maior com nosso objeto de estudo, a partir de uma visita à programação radiofônica em FM. Nosso objetivo é mostrar o que o ouvinte de rádio tem à disposição no dial belenense.

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