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1. Force du langage en Grèce ancienne

1.3. Trois modalités pour l'efficacité de la parole

1.3.3. Les gestes de l'énonciation

A questão que orienta Amie Thomasson em sua filosofia da arte é: qual o estatuto ontológico das obras de arte? Em resposta, ela desenvolve um quadro de categorias ontológicas básicas, dentre as quais prevê um espaço para obras de arte na categoria dos

30 Como afirmamos anteriormente, Danto faz uma ontologia da arte na medida em que ele trata a arte como um

conceito fundamental em seu pensamento e investiga sua essência, isto é, realiza um “estudo do ser” da arte. Ele mesmo afirma, no prefácio à edição brasileira de A Transfiguração do Lugar-Comum, que “como obra de filosofia, o livro contribui para uma ontologia da obra de arte – para a análise da diferença ontológica entre as

obras de arte e os objetos comuns que eventualmente lhes são indistinguíveis”. DANTO, A. A Transfiguração do

“artefatos abstratos” 31. De modo semelhante à Weitz, a autora rastreia a estrutura essencial do

conceito “obra de arte” que utilizamos cotidianamente. Ou seja, sua teoria pretende formalizar a concepção de arte inerente à experiência comum, que decide quais dados serão tratados como obras de arte, e com base em quais critérios. Tanto Thomasson quanto Danto procuram esses critérios essenciais do conceito de arte na experiência comum, de modo que o conceito filosófico assim elaborado não exclua nenhum objeto tratado publicamente como obra de arte. Esse é o projeto básico compartilhado por ambos os pensadores.

A partir desse princípio, Thomasson rastreia as condições necessárias de existência e

identidade de obras de arte nas crenças e práticas do senso-comum. Essas condições são

analisadas dentro de um sistema de categorias ontológicas mais amplo, desenvolvido para dar conta de toda a experiência humana. No entanto, não se trata de um sistema categorial realista, pois ela desenvolve “categorias nas quais se pode dizer que as coisas existem, sem o compromisso de afirmar se essas categorias são ou não ocupadas” 32. A teoria de Thomasson

pode ser pensada como uma base analítica, consistindo na adoção de três conceitos basilares: o de “dependência ontológica”, como diretriz do método, e os conceitos de “coisas reais” (coisas localizadas espaço-temporalmente) e “estados mentais”, como os dois eixos básicos nos quais se funda toda dependência ontológica ulterior. A filósofa elabora uma ampla e detalhada descrição da “dependência ontológica”, que se funda em duas distinções básicas: a distinção entre duas formas de dependência, a genérica (dependência a um tipo) e a rígida (dependência a um particular), e a distinção baseada no tempo em que uma entidade requer outra para existir, que leva aos conceitos de dependência (A existe se B existe em qualquer tempo), dependência histórica (A existe se B existiu antes de A) e dependência constante (A existe apenas enquanto B existe). Combinando as duas distinções, a autora chega a seis modos

31THOMASSON, A. L. “The ontology of Art”. The Blackwell Guide to Aesthetics, ed. Peter Kivy, Oxford:

Blackwell, 2004. p. 8.

32THOMASSON, A. Fiction and Metaphysics.Tradução própria para uso acadêmico. Cambridge: Cambridge

de dependência ontológica. Sua hipótese é que, para qualquer entidade que se queira alocar em seu sistema categorial, ela possuirá um modo de dependência a estados mentais e outro a coisas reais, que, combinados, mostram seu lugar específico no esquema categorial 33. Essas relações de dependência são rastreadas por Thomasson nas condições de existência e identidade, impregnadas nas práticas e crenças cotidianas, do fenômeno que ela pretende alocar categorialmente.

Para não entrarmos nos detalhes de seu sistema, podemos expor brevemente que as condições de existência e identidade das obras de arte teriam os seguintes modos de dependência ontológica:

 Algumas obras de arte dependem de um objeto físico singular para existir, isto é, são um único exemplar concreto e só existem enquanto ele existe, como a pintura e o desenho (logo, possuem dependência rígida e constante a coisas reais). Outras dependem de objetos físicos em geral, ou seja, sua existência requer a instanciação em alguma coisa real, mas não uma coisa em particular, como a música e a literatura (que possuem, portanto, dependência genérica e constante a coisas reais).

33 O sistema ontológico proposto por Thomasson pode ser mais facilmente compreendido através de um

diagrama duplo que a autora elabora a partir dos seis tipos de dependência ontológica (referidos pelas iniciais abaixo):

Fonte: THOMASSON, A. Fiction and Metaphysics. Cambridge: CambridgeUniversity Press, 1999. p. 124.

Um dos quadrantes mostra a dependência a estados mentais e outro a coisas reais. Cada diagrama mostra dez possibilidades de localização para cada ente. Cada ente ocupa um espaço em cada diagrama, o que resulta em cem possibilidades de localização categorial para cada ente. Para se desenvolver uma ontologia categorial com base nesse sistema, basta selecionar as mais relevantes dentre essas cem possibilidades e nomeá-las como categorias ontológicas básicas. Cf. THOMASSON, A. Fiction and Metaphysics.Cambridge:

 Todas as obras de arte dependem dos estados mentais de um autor em particular. Talvez mais de um autor, mas nunca qualquer pessoa e sim aquele(s) autor(es) que criou (ou criaram) a obra (assim, todas as obras de arte possuem dependência rígida e histórica a estados mentais – histórica porque as obras continuam existindo para além da existência do autor);

 Todas as obras de arte dependem dos estados mentais de alguma comunidade ou grupo que possa compreender seu significado (dependência genérica e constante a estados mentais).

Através dessas relações de dependência, Thomasson localiza as obras de arte nas coordenadas de seu quadro categorial e dá um nome à categoria que as acolhe: “artefatos abstratos”, porque a arte comporta tanto características artefatuais, como ser criada por alguém e ter um suporte material, quanto características abstratas, como ter um significado que deve ser compreendido 34. Embora a autora não elabore uma lista das condições, essas relações de dependência poderiam ser resumidas do seguinte modo:

Condições necessárias de existência e identidade de uma obra de arte:  Possuir algum registro ou suporte espaço-temporal;

 Ser criado por estados mentais;  Possuir uma autoria específica;

 Ser acessado através de seu registro ou suporte por alguma comunidade;  Ser compreendido publicamente.

O problema da teoria de Thomasson é que, ainda que ela permita localizar a arte categorialmente, isso não significa que tudo que pertence à categoria dos artefatos abstratos

34 Em princípio, Thomasson admite a possibilidade de um pluralismo categorial em ontologia da arte. Assim,

diferentes tipos de obras de arte poderiam pertencer a categorias diferentes. Em Fiction and Metaphysics, a categoria dos artefatos abstratos é elaborada para entidades ficcionais e, ipso facto, para obras de arte literárias. A categoria funcionaria para obras de arte cuja dependência a objetos físicos é genérica. Para pinturas e desenhos, por exemplo, outra categoria ontológica poderia ser elaborada, mantendo-se toda a estrutura ontológica de sua teoria.

seja arte. Ou seja, a autora fornece condições necessárias, mas não apresenta condições suficientes para que algo seja identificado como uma obra de arte. Ela não entra nessa questão, mas podemos verificar, através das cadeias de dependência expostas acima, que a categoria acolhe não apenas obras de arte, mas também teorias científicas, filosóficas e religiosas. Uma teoria filosófica, por exemplo, também possui um registro espaço-temporal, também é criada por um autor específico, é acessada através de seu registro por uma comunidade e é compreendida publicamente. Assim, a autora determina o estatuto ontológico das obras de arte, como era sua meta inicial, mas não oferece um critério de distinção entre a arte e outros dados que pertencem à mesma categoria.

Com efeito, desde o princípio Thomasson evita comprometer-se com uma definição rigorosa que separe arte de não-arte. Ela não pode ser acusada, portanto, de incoerência ou de não cumprir seus objetivos teóricos. No entanto, são precisamente seus objetivos teóricos o ponto mais passível de crítica. Pois qual o propósito de evitar uma definição da arte, sem sequer argumentar a favor de sua indefinibilidade, e simplesmente chegar à afirmação de que ela pode ser alocada em uma categoria chamada “artefatos abstratos”? Embora tudo se encaixe muito bem em seu esquema categorial de dependências ontológicas, precisamos convir que ele ajuda muito pouco no esclarecimento do que é uma obra de arte e de como ela se diferencia de diversas outras manifestações culturais. Sua ontologia apresenta a vantagem de não excluir da categoria proposta qualquer coisa que seja tratada publicamente como arte, e desse modo contorna a crítica de Weitz sobre o fracasso das teorias filosóficas em contato com a abertura da arte, isto é, com a contínua criação de obras imprevisíveis que acabam por refutá-las. Contudo, ela mantém na mesma categoria outros fenômenos culturais que não são considerados arte. O preço pago por Thomasson ao desenvolver uma ontologia tão mínima é que ela acaba se tornando vazia e isenta de qualquer pensamento positivo sobre e a partir da

arte. Danto, por outro lado, propõe-se a desenvolver uma definição que seja capaz de distinguir entre o que é e o que não é arte. Ele afirma que

Definir arte é uma tarefa tão esquiva que a quase cômica inaplicabilidade das definições filosóficas da arte à própria arte tem sido explicada, pelos poucos que perceberam nessa inaplicabilidade um problema, como resultado da indefinibilidade da arte. Tanto é assim que Wittgenstein eliminou o problema, embora o fizesse por razões demasiado complexas para discutir num prefácio 35.

Portanto, ele conhece as complexas razões wittgensteinianas e a argumentação de Weitz a respeito da impossibilidade de definir a arte. Não obstante, ele assume os riscos da empreitada: “esse livro assume como programa uma definição de arte que quase implicaria a existência, afinal, de uma identidade artística fixa e universal” 36. O livro em questão é A

Transfiguração do Lugar-Comum, no qual Danto desenvolve uma definição que procura

capturar o que é essencial para que algo seja arte. Podemos resumir a definição que ele propõe através das seguintes propriedades:

 Obras de arte diferem de coisas reais porque são representações;

 Isso implica que são sempre sobre alguma coisa, ou seja, têm significado, conteúdo semântico (aboutness);

 O significado é incorporado na parte material da obra, isto é, ele é combinado com seu “modo de apresentação” material;

 Há sempre uma dimensão retórica, metafórica e estilística nas obras de arte, situadas na relação entre o significado e seu modo de apresentação;

 Obras de arte exigem uma interpretação historicamente contextualizada, que é constitutiva da sua identidade artística;

35 . DANTO, A. A Transfiguração do lugar comum. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p.

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36 DANTO, Arthur. Após o fim da arte: a Arte Contemporânea e os Limites da História. São Paulo: Odysseus

Essas propriedades são amplamente discutidas no decorrer do livro, embora nunca apareçam sob o formato de uma lista de condições essenciais. Provavelmente porque essa apresentação seria demasiado arriscada para uma obra tão inovadora e especulativa. Nossa hipótese é a seguinte: embora Danto não postule o pertencimento ao “mundo da arte” como uma condição essencial para que algo seja uma obra de arte, esse conceito é tacitamente pressuposto ao longo de toda a Transfiguração, e sua tentativa de definir a arte pode ser bem sucedida apenas se o incluirmos como uma condição necessária e suficiente. Com essa ressalva, acrescentaremos uma última propriedade na lista acima:

 A interpretação de algo como obra de arte é historicamente possibilitada pelo mundo da arte.

Nossa hipótese tem um apêndice: a principal diferença entre Thomasson e Danto é que aquela apresenta apenas condições necessárias para que algo seja considerado uma obra de arte, ao passo que este pretende apresentar condições necessárias e suficientes 37. Ao menos essa é a proposta inicial de Danto, embora ele termine o livro sem esclarecer com precisão o quanto as características essenciais apontadas são conclusivas. Danto é um autor cuja redação é agradável e prolixa, e por isso mesmo pode ser bastante imprecisa e ambivalente. Na

Transfiguração, ele constrói, através de uma coleção de exemplos e argumentações, uma base

arquitetônica com certas ideias centrais que precisam ser decantadas do fluxo de sua escrita. A lista acima é uma tentativa de resumir essas ideias centrais, mas elas poderiam ser organizadas de outros modos 38. Não pretendemos defender que Danto postula cinco ou seis condições essenciais para a existência da arte, pois as duas primeiras, por exemplo, poderiam ser

37Danto afirma partir da hipótese de que “existem condições necessárias e suficientes para que algo seja uma

obra de arte, independentemente de tempo e lugar”. Cf. DANTO, A. A Transfiguração do lugar comum. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p. 106.

38 Por exemplo, Virginia Aita oferece um resumo ligeiramente diferente em: AITA, V. “Arthur Danto:

Narratividade histórica da arte sub specie aeternitatis ou a arte sob o olhar do filósofo”. Ars, ano I, n.I, 2003. p. 155.

amalgamadas, já que são dois modos de apresentar a mesma tese. A lista funciona apenas para organizar as ideias basilares que o autor efetivamente desenvolve em meio ao carnaval de exemplos que preenche seu texto. Sobretudo nossa hipótese – de que “a interpretação de algo como obra de arte é historicamente possibilitada pelo mundo da arte” funciona como uma

condição suficiente para que algo seja arte – não é explicitamente assumida por Danto. Trata-

se de uma hipótese interpretativa que exploraremos nessa tese. Entretanto, o que mais interessa no momento é mostrar como a teoria de Danto pode, ao incluir o ambiente histórico legitimador do mundo da arte – que é mais discutido por Danto no precoce texto intitulado O

Mundo da Arte –, criar um limite entre arte e não-arte. Em seguida, analisaremos com mais

profundidade as ideias supramencionadas.

Além de não ajudar na definição de arte, a teoria de Thomasson apresenta outros inconvenientes. O comprometimento filosófico com os eixos “estados mentais” e “coisas reais”, ainda que eles não sejam assumidos realisticamente, é altamente questionável. Como nossa tese não é sobre metafísica, evitaremos uma digressão sobre o dualismo mente- realidade como base para um sistema categorial. Nosso tema é a compreensão conceitual da arte e não a criação de um quadro de categorias que abarque toda a experiência. Danto mostra que é possível elaborar uma filosofia da arte sem essas implicações tão metafisicamente comprometedoras. Ele não produz um amplo sistema categorial para, a partir dele, localizar a arte em uma categoria consistente com o esquema. O autor simplesmente trata a definição da arte como um problema que se manifesta em certo momento e que pode ser investigado a partir de sua própria história e em seu próprio contexto. Devido a essa diferença de motivação e de método, Danto torna-se muito mais específico do que Thomasson: embora ambos construam ontologias da arte em uma tonalidade pós-Weitz, aquele parece muito mais próximo da arte e mais capaz de criar conexões teórico-empíricas para pensá-la. Thomasson, por sua vez, acaba deixando a impressão de que busca na arte apenas uma confirmação de seu

método de análise categorial. O que Danto acrescenta à análise vazia de Thomasson é a história, o contexto, a teoria, o ambiente formador – o mundo da arte, historicamente constituído através de certas narrativas.