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Além de todos os fatores estruturais mencionados acima, consideramos que, em nossa análise, seria imprescindível incluir, também, fatores sociais. Em consonância com Labov (1972), defendemos que o aspecto social é de suma importância em uma pesquisa lingüística, visto que o indivíduo a ser analisado está sócio e historicamente inserido em uma cultura e isso, em maior ou menor escala, interfere em seus comportamentos, inclusive em termos lingüísticos. Por outro lado, se supomos, de acordo com teorias de estocagem do léxico mental, que a gramática emerge do uso que os falantes fazem dela (HOPPER, 1998), e que a experiência do indivíduo afeta as representações mentais (BYBEE, 2001), é possível afirmar que o contexto social no qual o falante convive desempenha algum papel na sua forma peculiar de se colocar no mundo, o que inclui, obviamente, seu comportamento lingüístico. Devido a esses motivos, incluímos variáveis sociais nesta análise. Apresentaremos, abaixo, tais fatores selecionados para esta pesquisa. Devemos mencionar, também, que os mesmos critérios foram utilizados tanto para a codificação dos dados quanto para a escolha dos informantes.

1. Faixa Etária:

x Jovens: entre 15 e 20 anos x Medianos: entre 35 e 40 anos x Adultos: entre 55 e 60 anos

A literatura lingüística demonstra que faixa etária é um dos grandes fatores que interferem na fala dos indivíduos. Chambers (1995) observa que, quando existe mudança lingüística, geralmente os falantes mais jovens são os primeiros a adotarem a forma inovadora. Scherre (1998) registra que são os falantes de 7 a 14 anos os que mais apagam as marcas formas de concordância nominal, mas o padrão curvilinear (que diferencia as faixas etárias) não é muito acentuado.

Em nossa pesquisa, selecionamos três faixas etárias a fim de investigar se as generalizações de plural analisadas nesta tese poderiam ser consideradas mudança em progresso. Se esse fosse o caso, esperaríamos que os falantes da primeira faixa etária (15 a 20 anos) apresentassem uma taxa maior de generalizações de plural que os da terceira faixa (entre 55 e 60 anos) (Cf. CHAMBERS, 1995).

2. Escolaridade: x Fundamental x Superior

Scherre (1988) observa que os falantes de nível primário de escolaridade são mais propensos ao apagamento das marcas formais de plural do PB. Votre (2003) indica a relevância da variável escolaridade em fenômenos que são estigmatizados socialmente. Além disso, sabemos que, na cultura escolar do Brasil, existe um ensino bastante voltado para idiossincrasias lingüísticas, como, por exemplo, mostrar aos alunos todas as possibilidades de plurais para as palavras em –ão e incentivá-los a memorizar as irregularidades. Por causa disso, resolvemos adotar o fator escolaridade a fim de verificar se falantes que freqüentaram a escola por mais tempo tenderiam a preservar mais as formas padronizadas de plural do que indivíduos que têm nível mais baixo de instrução.

Com relação à interação idade/escolaridade, para os falantes de 15 a 20 anos, tivemos de contar com aqueles que haviam, apenas, ingressado no Ensino Superior, já que

aos 20 anos de idade é difícil que alguém já tenha concluído essa etapa escolar. Nas demais faixas etárias, fomos bastante criteriosos quanto ao nível de escolaridade dos informantes, considerando apenas aqueles que, efetivamente, já haviam concluído o Ensino Fundamental ou Superior.

Nossa hipótese para esse fator, em consonância com a literatura lingüística, era que falantes mais escolarizados teriam menor probabilidade de generalizações de plural. No entanto, a questão da estigmatização dos fenômenos lingüísticos pode ser uma variável importante nesse processo de migração de plurais. Não fizemos teste de reação subjetiva, a fim de verificar se a utilização de um plural por outro (nos grupos de palavras analisados) teria algum juízo de valor. Mesmo assim, esperávamos que falantes mais escolarizados preservassem mais os plurais etimológicos, por causa do esforço escolar em manter a norma padrão.

3. Gênero: x Feminino x Masculino

Na literatura sociolingüística, várias são as análises que apontam comportamentos divergentes entre homens e mulheres no que diz respeito ao uso da linguagem. Labov (1972, p. 243) afirma que “In careful speech, women use fewer stigmatized forms than men, (LABOV 1966a:288), and are more sensitive to the prestige pattern.” Chambers (1995) observa que as mulheres usam menos variantes não-padrão, demonstram ter maior consciência do prestígio que a fala possui e modelam melhor a linguagem de acordo com a situação de comunicação. Labov (2001) apresenta um capítulo inteiro sobre o “paradoxo do gênero”, que consiste no fato de que as mulheres são mais atentas ao padrão lingüístico, mas costumam, ao mesmo tempo, ser mais progressivas e, conseqüentemente, líderes nas mudanças lingüísticas. Scherre (1998) observa que as mulheres preservam mais as marcas de concordância nominal que os homens. Paiva (2003, p. 36) aponta que

“Quando se trata de implementar na língua uma forma socialmente prestigiada [...], as mulheres tendem a assumir a liderança da mudança. Ao contrário, quando se trata de implementar uma forma socialmente desprestigiada, as mulheres assumem uma atitude conservadora e os homens tomam a liderança do processo.”

Já que há tantas pesquisas indicando a interferência do gênero na linguagem, incluímos esse fator em nossa pesquisa, a fim de investigar se homens e mulheres apresentariam comportamentos lingüísticos divergentes no que concerne às marcações de plural. Nossa expectativa, em consonância com a literatura lingüística, é de que as mulheres tenderiam a preservar mais que os homens as formas padronizadas de plural.

Após esclarecermos todos os fatores sociais que foram considerados em nossa análise, passaremos à próxima subseção, que descreve como o trabalho de campo foi conduzido e aponta algumas peculiaridades referentes à codificação dos dados.

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