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Eco-Reporter : explication du principe des dialogues (gauche) et aide de jeu contextuelle (droite)

A coleta de dados ocorreu entre janeiro e março de 2006, na cidade de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro67. Os informantes que se enquadravam no perfil social delineado foram encontrados através de amigos. Contatamos tais pessoas e as convidamos para participarem do experimento, sem explicar exatamente qual seria o objeto de estudo nesta investigação. Dissemos aos falantes que estávamos fazendo uma pesquisa para a faculdade e precisávamos de pessoas naquela faixa etária, gênero e nível de escolaridade. A justificativa que adotamos para o uso dos experimentos foi que estávamos fazendo um teste de memória e queríamos analisar se a idade interferiria na capacidade de as pessoas se lembrarem de figuras ou palavras. No grupo de informantes consultados, não havia pessoas que eram amigos da entrevistadora, portanto ninguém ficou sabendo exatamente qual era o objeto real de estudo da pesquisa.

Na tabela abaixo, apresentamos a distribuição dos 36 informantes de acordo com os fatores sociais selecionados em nossa análise. A identidade das pessoas foi preservada e utilizamos números correspondentes aos indivíduos entrevistados. Em cada

67 A opção por essa cidade não tem nenhum significado especial. Ela foi escolhida simplesmente por ser o local onde a pesquisadora residia na época de realização da pesquisa.

grupo de plural, o número de informantes e os códigos utilizados para cada um deles são os mesmos.

Tabela 19: Distribuição dos informantes de acordo com fatores sociais

Jovens – 15 a 20 anos

Ensino Fundamental Ensino Superior

Gên. Masculino Gên. Feminino Gên. Masculino Gên. Feminino

20 25 15 35

5 34 23 4

21 16 12 1

Medianos – 35 a 40 anos

Ensino Fundamental Ensino Superior

Gên. Masculino Gên. Feminino Gên. Masculino Gên. Feminino

18 30 24 11

28 26 10 33

8 17 19 27

Adultos – 55 a 60 anos

Ensino Fundamental Ensino Superior

Gên. Masculino Gên. Feminino Gên. Masculino Gên. Feminino

36 31 29 22

3 2 14 32

7 6 9 13

Através da tabela acima, observamos que os 36 informantes foram homogeneamente divididos de acordo com faixa etária, grau de escolaridade e gênero. Houve exatamente o mesmo número de informantes por célula (três), a fim de que compuséssemos uma amostra comparativamente adequada sobre os grupos sociais analisados.

Com relação à realização das entrevistas, após o contato inicial, a pesquisadora deslocou-se até a casa ou local de trabalho do informante (segundo preferência dele), no horário previamente marcado. Em geral, os informantes foram bastante receptivos com a pesquisadora e colaborativos com a realização dos experimentos. Antes do início dos testes, todos os falantes leram e assinaram o “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido” (conforme mencionamos anteriormente) e foram informados de que seria necessário gravar e transcrever os dados da entrevista, mas informações específicas relacionadas à sua identidade pessoal seriam preservadas.

Com esses esclarecimentos feitos, explicamos detalhadamente ao informante como seria a realização dos experimentos e como eles deveriam proceder. Após certificarmo-nos de que o informante havia entendido perfeitamente o que teria de fazer, começamos a gravação dos testes. Cada experimento durou em torno de 10 a 15 minutos, dependendo da agilidade do entrevistando em realizar as tarefas determinadas. A maioria dos falantes ficou visivelmente nervosa ao saber que sua fala estava sendo gravada. Essa apreensão foi mais marcante no momento inicial da interação, mas foi amenizada com o desenrolar do experimento. Em quase todos os informantes vimos muito claramente uma preocupação e/ou insegurança em “acertar” todas as palavras que eram representadas nas figuras. Ao final das 36 entrevistas, contamos com o seguinte quantitativo de dados:

x Palavras terminadas em –ão: 1.341 dados; x Palavras terminadas em –l: 1.167 dados;

x Palavras terminadas em ditongo em –u: 971 dados.

Em cada uma das etapas da coleta dos dados, houve fatos que demonstraram idiossincrasias dos falantes e nos fizeram, também, refletir sobre a natureza do fenômeno analisado. Comentaremos tais peculiaridades a seguir, porque julgamos que são importantes para nossa pesquisa.

Na primeira parte da interação (“Conjunto de Figuras”), houve comportamentos díspares dos falantes, ao serem questionados sobre o que viam em cada uma daquelas gravuras. Alguns falantes foram extremamente sucintos, dizendo apenas “duas mãos”, “três caminhões”, e assim sucessivamente. Outros foram mais prolixos e falaram frases inteiras sobre o que estavam vendo: “Na primeira figura, eu vejo duas mãos, uma masculina e uma feminina, a masculina dando suporte à feminina”. Houve casos, também, de não-marcação do plural, decorrentes de estruturas como: “um conjunto de berimbauØ”, “um monte de grãoØ”. Da mesma forma, ocorreram, também, casos em que o falante via as figuras com dois piões ou vários jornais e dizia apenas “piãoØ” ou “jornalØ”. Essa característica de usar o singular para referir-se a uma classe como um todo parece ser uma tendência marcante no PB, por isso retomaremos esse ponto no Capítulo 6, “Análise de Dados”. Ainda nessa etapa do “Conjunto de Figuras”, observamos casos de formas que não se enquadravam ao padrão de pluralização esperado para aquela palavra. Exemplos disso são ocorrências de “móvis” como plural de “móveis” e “míssis” para

“mísseis”. Ocorrências semelhantes aconteceram, também, nas demais modalidades de elicitação de dados. Esses casos foram codificados como “Outra forma de plural adotada” e serão, também, discutidos no Capítulo 6, “Análise de Dados”.

Inúmeros foram os momentos em que os falantes claramente se sentiam em dúvida quanto ao plural adequado. Palavras como “chapéu”, “pião”, “sol” geraram grandes questionamentos por parte dos falantes, como “Chapéus ou chapéis? Chapéu, chapéis... não sei qual que é a certa”. Nessas situações, ficava claro que havia formas em competição no léxico mental do falante e este se sentia confuso quanto à utilização de um ou outro plural. Casos como esses foram comuns em todas as etapas dos experimentos. Na codificação dos dados, consideramos a resposta final que os falantes adotaram para a palavra, após o momento de hesitação.

Na “Leitura de Frases”, os falantes, em geral, não apresentaram dificuldades. As letras eram grandes, de modo a facilitar a leitura pelos informantes que eventualmente sofressem de algum problema de visão. Mais uma vez, as dúvidas dos informantes quanto ao plural de certos itens aconteceram. Casos de não-marcação do plural também foram registrados, como “Será que existem dois solØ na nossa galáxia?” ou “Crianças geralmente gostam de rodar piãoØ.”.

O “Teste de Reação” foi a etapa da coleta de dados que gerou maiores dúvidas nos falantes. Nesse experimento, a diversidade e o número de palavras foram maiores, porque podíamos prescindir da representação gráfica dos itens. Sendo assim, havia palavras bastante raras, como “jirau” e “mausoléu”, palavras que quase nunca são usadas no plural, como “mel” e “sol”, bem como palavras que apresentam formas concorrentes de plural, como “anão” (“anões”/“anães”/“anãos”) e “vulcão” (“vulcões”/“vulcães”/“vulcãos”). Por causa dessas características, a dificuldade do teste foi um pouco maior. Pudemos perceber que, para algumas palavras, os falantes formavam o plural prontamente, como “europeu”/“europeus”, “pão”/“pães”, entre outros. No entanto, principalmente nos casos de palavras pouco freqüentes ou nos casos em que havia mais de uma possibilidade de plural, os falantes hesitaram, demorando mais tempo para falar o plural, oscilando entre duas formas diferentes (“Sols ou sóis?”) ou até mesmo alongando o segmento precedente, como “Jirau – jiraaaaaaaus”, a fim de ter mais tempo para escolher uma forma de desinência plural. Outro detalhe que observamos foi que algumas formas de plural, como “vulcões” para “vulcão” e “anões” para “anão”, já são tão cristalizadas (a ocorrência das formas etimológicas – “vulcãos” e “anãos”, respectivamente – é inexistente, segundo o

Corpus NILC/São Carlos), que os falantes não demoraram para formar seus plurais, dada a lacuna dessas formas etimológicas no léxico diário. De forma análoga, para alguns falantes a forma de plural não-padrão já é a cristalizada, por isso “chapéis” e “degrais” foram prontamente apontadas como o plural de “chapéu” e “degrau”, respectivamente. Ainda com relação à opção por uma ou outra forma de plural, observamos que alguns falantes não foram consistentes em todas as etapas dos experimentos. A palavra “chapéu”, por exemplo, estava presente em todas as modalidades dos experimentos, e houve situações em que um mesmo falante adotou as formas “chapéis” e “chapéus” em fases distintas dos experimentos, sem se dar conta de que estava utilizando plurais diferentes para o mesmo singular. Tais fatos parecem demonstrar a existência de exemplares em competição no léxico mental dos falantes.

Um último comentário a ser feito é quanto à familiaridade da palavra. Observamos que algumas palavras, embora freqüentes, não são familiares, como “míssil”; por causa disso, a formação de plural para esse tipo de palavra apresentou um pouco de dificuldade para os falantes. Uma questão que gostaríamos de mencionar é que a contagem da freqüência de ocorrência da palavra é um excelente recurso para análise em lingüística de corpora; no entanto, em geral os corpora disponíveis para esse tipo de pesquisa baseiam-se em textos escritos ou em interações orais formais, como transcrição de aulas, por exemplo. Por isso, a alta freqüência de um item em um corpus de língua pode não corresponder à alta freqüência no léxico de um falante específico. Além das diferenças de formalidade entre fala e escrita que se refletem em discrepâncias entre um corpus de língua e o léxico do falante, não podemos negar que cada indivíduo tem uma história de vida e suas experiências enquanto ser humano se refletem, também, em seu vocabulário. Nesse sentido, não existe compatibilidade total entre um corpus lingüístico e o léxico de um falante. Toda comparação entre essas duas instâncias limita-se, apenas, a índices de freqüência, não a contagens categóricas.

Os dados coletados nas entrevistas foram digitalizados e editados segundo os parâmetros descritos anteriormente. Organizamos uma matriz no programa Microsoft Excel, a fim de facilitar a codificação dos dados. Para a análise estatística e probabilística, utilizamos o programa SPSS, delineado especificamente para pesquisas de caráter lingüístico. Nesse software, o recurso adotado foi a regressão logística, que analisa uma variável dependente binária (com dois fatores, portanto) e tenta identificar as variáveis independentes (mencionadas anteriormente na codificação dos dados) que interferem no

fenômeno em questão. Essa opção pela regressão binária acarretou outras decisões metodológicas, que serão oportunamente esclarecidas, no Capítulo 6, “Análise de Dados”.

Após a descrição detalhada da metodologia e das variáveis lingüísticas e extralingüísticas a serem adotadas nesta tese, passaremos ao capítulo seguinte, que analisa os dados coletados para nossa pesquisa, correlacionando-os com as hipóteses levantadas para cada uma das variáveis mencionadas neste capítulo de “Metodologia” e procurando alinhar os resultados com o Modelo de Redes e a Teoria dos Exemplares, escopos teóricos adotados em nossa tese.

C

APÍTULO

6

Análise de dados

Utilizando o Modelo de Redes (BYBEE, 1985, 1995, 2001) e a Teoria dos Exemplares (PIERREHUMBERT, 2000, 2001a, 2001b, 2001c), discutidos no Capítulo 4, “Quadro Teórico”, o presente capítulo tem como objetivo apresentar os resultados alcançados com a coleta de dados que realizamos. Apesar de essas duas correntes teóricas serem a linha básica de argumentação seguida ao longo desta tese, outras teorias sobre léxico mental (Modelo Conexionista68 e Teoria de Palavras e Regras69) podem ser eventualmente mencionadas, caso isso se faça necessário a partir da configuração dos dados.

Este capítulo está organizado da seguinte maneira: nas subseções 6.1, 6.2 e 6.3, apresentamos os resultados para cada um dos grupos de plurais analisados (em –ão, –l e ditongo em –u, nessa ordem); na subseção 6.4, comentamos os resultados do “Teste de Reação”; na subseção 6.5, propomos uma discussão geral dos principais resultados alcançados com os experimentos; finalmente, na subseção 6.6, encerramos o capítulo com as conclusões mais relevantes que obtivemos com a análise dos dados.

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