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Le deuxième programme d’assainissement

6.1 Politique des caisses vides et

6.1.2 Le deuxième programme d’assainissement

A relação de dependência/independência dos pais, muito explorada no 11° ano, quase não surge no outro grupo, talvez por estar oculta sob a capa da naturalização, ou pela própria fluidez da comunicação ter levado a outros caminhos. Pode antever-se a ideia do prolongamento da dependência na juventude, como reflectem Jones e Wallace (1992), ou seja da ligação a um paradigma de "cidadania dependente" (Arnot e Dillabough, 2003). A dependência é assumida como natural pela maioria dos rapazes que se consideram destituídos de bens, e reconhecem aos pais o papel de provedores, ideia corroborada por uma rapariga: "A tua mesada também vem dos teus pais...logo também não é teu".

"praticamente os meus pais trabalham para mim"

"a nossa vida é dos nossos pais...os nossos pais é que nos estão a pôr a comida na mesa... tamos a viver à custa dos nossos pais...nós gastamos o dinheiro... a ir pa noite e essas coisas todas... estão a pagar para nós construirmos uma vida nossa".

"tenho a certeza que nunca vou ter a vida que tenho hoje, nos estudos"

Futre TER E SER: tensões (irreconciliáveis na formação da cidadania e género numa elite da (serm)periíeira

"Quando os pais têm muito 'konw how'...Têm muito valor... os pais deviam dar as notas...embora seja muita massa!"

"Aquilo que a minha mãe me está sempre a dizer [é] que tenho que saber-me habituar a tudo porque...quando eu for grande se calhar...não vou conseguir ter a vida que tenho agora".

No entanto, um dos rapazes, assume:

"Nós é que temos que começar a preocupar-nos com as nossas coisas, agora... pode haver pressão dos pais, mas... estamos a ganhar consciência que... se nós não trabalharmos agora, no futuro, quem se vai tramar somos nós não são os nossos pais".

A relação com os pais assenta também no reconhecimento do seu apoio no futuro, mesmo para os luxos, transformados em necessidades, no quadro da modulação de uma cidadania de consumo e de individualização que os distancia de uma individuação reflexiva (Giddens, 1998), e que surge ligada à procura de coerência, estabilidade, e continuidade, levando, na linha das reflexões de Perrenoud (1995), as e os indivíduos a privilegiar o que lhes é familiar, previsível e inteligível:

"se a vida não corre como nós queremos, claro que os pais vão estar lá para nos ajudar. Não é como se nós não conseguirmos um emprego vamos ficar na rua... Claro que se eu vou querer essas coisas, grandes carros, grandes casas..., claro que sei que os meus pais vão estar lá para me ajudar... Não quer dizer que eu vou optar por me deixar ficar para trás porque sei que os meus pais vão estar lá". Essa dependência temporária assume ainda a forma de um compromisso, carregando uma compreensão do mundo como sistema de troca mercantil em que o desempenho escolar surge como responsabilidade das e dos jovens nessa relação, ora cumprida, ora não. Aprendizagem útil para um mundo de trabalho em que, em troca de um salário elevado que garanta o nível de vida a que estão habituados/as, estes e estas jovens se demitirão de ser pessoas, em perseguição do lucro? Constituir-se-ão como os/as principais opressores de si próprios/as deixando que a perseguição do lucro os conduza ao abandono de perspectivas de humanização e de solidariedade? Uma jovem conta:

"o que a minha mãe nos dizia...na brincadeira quando eu era pequenina... eu dou-vos notinhas para a escolinha mas vocês têm que me trazer as outras notinhas!... continua a ser isso... os pais acho que se sentem realizados em trabalhar para nós andarmos cá, para nós levarmos aquelas notas boas e eles vêem que nos estamos a esforçar... é uma maneira de devolver o dinheiro que eles pagam com as nossas notas".

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Divididos entre aceitação e rejeição da dependência, entre a garantia do conforto e do luxo providenciado e o desejo de construção de uma situação de independência económica, comentam:

"Eu praticamente esbanjo o dinheiro dos meus pais... E quando venho para esta escola...pensam que eu estou a trabalhar e eu... não posso habituar-me muito à coisa de receber o dinheiro assim dos meus paizinhos...é esquisito...da minha mãe não quero...Isso está fora de questão ir pô-la a trabalhar. Por amor de Deus" "Fazes mal" [troça outro].

"vou arranjar um trabalho qualquer [enquanto estudo] E vou...sei lá... ganhar... ganhar pra mim".

"Claro que eu acho que aqui toda a gente vai querer a certa altura viver à custa... sozinho"

Evidencia-se, particularmente nas raparigas, a capacitação para a necessidade de assumir os próprios "destinos", ideia que parece um avanço em relação à tradicional construção das raparigas como dependentes:

"Não são os meus pais [que fazem pressão], sou eu que quero ir para medicina". "Lá em Inglaterra, depois dos dezoito as pessoas saem de casa e começam a viver por si próprias... ao s dezoito já não vou estar em casa e depois começo a construir a minha vida... a pessoa não devia depender dos pais muito tempo...quando crescemos não devíamos precisar...do dinheiro deles...devíamos de tentar ganhar às nossas custas"

"eu sei que não vou estudar aqui...Eles querem [ir para Inglaterra] mas eu...ainda não sei"

"é super difícil entrar em qualquer universidade inglesa, mas acho que vou tentar na mesma...Sei que é um risco porque é uma coisa completamente diferente ficar cá com os papás...Ou ir sozinha. Mas gostava, acho que gostava"

"Viver à custa dos meus pais, isso não entra nos meus planos...Uma coisa é teres uma boa casa e viveres à custa do teu trabalho. Outra coisa é fazeres a vida à custa dos teus pais"

"pode ser um pequeno investimento" [contraria um dos rapazes enquanto outro acrescenta] "pode haver pressão dos pais [para o sucesso], mas...se nós não trabalharmos agora, no futuro, quem se vai tramar somos nós"

1.6. Um "Nós" hierarquizado: dimensões de incomunicabilidade

Grandes mundos, pequenas intersecções, lógicas diferenciadas relacionam adultos e jovens, parecendo que a imposição de uma lógica adulta que não corresponde aos seus anseios, surge como entrave à assunção de uma autonomia de que se sentem capazes mas que não têm a possibilidade de exercitar. É também face a essas dimensões de incomunicabilidade que se parece poder assumir que, no seio do próprio grupo, estes e estas jovens acabam por ser definidos de forma exógena, constituídos como "outros",

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sendo situados no mundo por uma "rede de significados dominantes" (Young, 1990) que lhes é, apesar disso, estranha:

"Não têm percepção do que se passa [e afirmam] os problemas são só nós, as crianças não têm problemas nem deviam ter... Isso são os adultos que às vezes pensam assim".

No grupo do 11° ano ressalta mais a cumplicidade, o reconhecimento do esforço dos progenitores e o do desfrute de alguns lazeres:

"é aquela liberdade...de 'Oh que fixe...agora estou aqui na cama, é uma alegria e vou tomar banho, depois vou almoçar fora com os meus pais"

No grupo do 10° acentua-se a incomunicabilidade em relações em que, de um lado estão presentes o castigo e o suborno e, do outro, se desenvolvem estratégias relacionais, como a mentira ou a sedução, para a resolução de problemas. Relações em que a presença da mãe é bastante mais marcada, em que o pai, diluído na díade "pais" é referido, pontualmente, no singular no que toca à subsistência. As e os jovens verbalizam preocupações que poderiam talvez ser expressas por quaisquer jovens de quaisquer outros grupos, o que permite evidenciar que, apesar dos contextos, são jovens como outros/as jovens, em desenvolvimento, em busca, no confronto com conflitos...:

"não tens a mesma intimidade com a tua mãe, com os teus pais, não falas de certeza de muitos problemas, com os teus pais, que tens com os teus amigos" "não nos sentimos à vontade"

"Há um certo tabu [por parte] da sociedade...Conflito de gerações" "não gostarmos de alguém com quem se vive!...Pode acontecer". Existe um controlo excessivo:

"é mais controlo...não chegar tarde a casa...ver se temos as pastas feitas"

"A minha mãe não me pode controlar a... não sei quantos quilómetros de distância"

"há muita insegurança"

"não me deixarem ir a Manchester...é muito arriscado.,.e lá os...holligans... é muita responsabilidade... ainda somos muito jovens... é perigoso"

"Preocupam-se connosco mas de uma forma excessiva" "Demais!"

Há falta de confiança e as/os próprios jovens nem sempre são honestos:

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"às vezes revolto-me porque...parece que a minha mãe não se acredita em mim...eu digo que arrumei e ela não se acredita...tem que ir sempre lá ver", "diz 'ai, bem, eu acredito mas' ... Há sempre um mas"

"eu dou-me bem!... sou muito esquecida...perco muitas coisas...ela vai aos arames com isso... tentei várias maneiras mas esqueço-me sempre"

"todas as semanas mando umas mentiras à mãe e ao pai"

"A minha mãe não acredita em mim mas isso...eu já lhe menti...diz que vai demorar muito tempo a...readquirir a confiança...Não foi uma [peta] foram muitas...com medo da reacção que ela ia ter...damo-nos bem melhor...tirar o computador...isso costumava funcionar uma semana porque depois eu 'ó mãe, anda lá...e tal' e depois ela deixava...e depois era tirar a televisão...mas não funcionava"

"Só preciso de tirar boas notas e não há chatices".

Segundo este último jovem, a mãe só se preocupa com isso. Ideia que parece articular- -se com as preocupações de competição e concorrência ligadas aos princípios do mercado, que admitimos estarem presentes neste grupo, e no modo como estes e estas jovens se vão movimentando no seu percurso escolar. Uma visão de mundo que pais e mães carregam, ligada à apresentação de resultados, independentemente do esforço ou do progresso que tenha sido conseguido. O jovem acaba por assumir, com embaraço, que se não tirar boas notas:

"Bem aí... já...prefiro não dizer", "Começamos a ralhar em polaco", "Tira-me o computador".

"Eu já não tenho...também devido a um castigo mas esse funcionou porque... o meu pai...disse 'ah, de castigo, já que tu não tiraste boas notas..."

Outro jovem, cujo pai é militar de carreira e com o qual parece ter uma relação feita de ausências, conflito e de, pouco confessada, admiração, acrescenta:

"Os pais querem ter tudo organizado"

"ficamos zangados com os nossos pais, quando...pedem para arranjar o quarto e assim"

"Arrumar o quarto é fácil...encafuo tudo nas gavetas e já está".

Apenas um dos rapazes, questionado directamente "Is there anything worrying or upsetting you?" se fecha num "No!" assertivo.

Partilhando com a mãe as responsabilidades da relação, uma rapariga reflecte:

"Eu acho que é por fases...às vezes, parece que estamos a dar-nos lindamente, por alguma coisinha...ela diz-me alguma coisa que não gosta... mas não é por mal...ela não faz de propósito mas eu levo logo a mal... estou sempre a criticá-la, a dizer mal dela, que não estou para a aturar e depois ela também fica muito

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revoltada e ficamos mesmo chateadas... ela às vezes diz assim 'quer ir às compras?' e eu, é logo ó mãe, mãe, mãe e eu fico logo amiguinha... costumamos dar-nos bem, é só mulheres lá em casa".

Pertencendo a um grupo favorecido, sabem que os pais é que têm que se "Preocupar com a vida, com ganhar dinheiro" para a manutenção do seu estilo de vida. Revelando maturidade numa análise de relativização, as/os jovens reconhecem:

"um adolescente pode não ter pais e isso é um problema" "Os nossos problemas são muito diferentes dos dos adultos"

"Para nós podem ser sérios só que não assim, problemas do outro mundo... na minha idade se calhar acho que os meus são mais importantes mas tenho consciência que...os da minha mãe são mais importantes...tanto da minha mae como dos pais do T, são os problemas dele, do irmão, quer dizer eles dependem do pai...se não tu morres à fome...são problemas mais importantes".

A imagem do adulto que foge às regras, recebida com gargalhadas, traz, pontualmente, a visão de um mundo em que quem é (re)conhecido, ou lhe é próximo, pode usufruir de direitos particulares:

"o meu tio tá agora na casa dos seus trinta e cinco... não o estavam a deixar entrar uma discoteca...porque tinha...um controlo qualquer que ja tava muito cheio... e vê lá a T [nome conhecido] a entrar, lá com um coiso VIP... chega... ve a T, é... não sei quê, que não conhecia de lado nenhum e entra."