Em Damão, a comunidade católica que constitui o meu universo de estudo representa uma minoria da população total do território (2.7%). Esta comunidade marca a sua diferença através do vínculo religioso ao catolicismo, da conservação da língua portuguesa, da preservação do português de Damão como língua materna e da manutenção de práticas culturais alegadamente herdadas dos portugueses, entre as quais a música ocupa um lugar central. A importância da música enquanto prática ritualizada e identificadora faz com que ao longo deste trabalho sempre que utilizo a palavra “música” no quadro das práticas performativas desempenhadas pelos damanenses me esteja a referir a um repertório que inclui:
Textos cantados, por vezes com uma coreografia associada e acompanhamento instrumental, que remetem para um referencial português. Podem ser de caráter religioso (com textos em português ou em latim) ou secular. Neste último caso o repertório é constituído por canções portuguesas e brasileiras que são cantadas em situações informais ou formais podendo ser dançadas segundo o modelo dos agrupamentos folclóricos portugueses;
O mandó, que é um género musical local essencialmente vocal cantado em português de
Damão e que tem uma presença assídua no que os damanenses designam por
“programas culturais”, sendo igualmente frequente nas várias festas familiares; A música e a dança associadas à indústria cinematográfica de Bollywood;
A música popular12 europeia e norte-americana como danças de salão tocadas nas festas de casamento (valsa, foxtrot, quickstep, jive), rock, pop, hip hop e R&B.
Como pude verificar durante o meu trabalho de campo em Damão, estas práticas expressivas têm uma presença constante no seio da comunidade católica, seja nas festas familiares, nos rituais associados ao casamento, nos programas culturais, nas recepções oficiais, nas manifestações de religiosidade, na performance de agrupamentos folclóricos inspirados no modelo português e no World Daman Day/Dia de Damão (vide capítulo sexto). De acordo com a
12 Por “música popular” refiro-me à música desempenhada e gravada por músicos profissionais e divulgada nos
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minha experiência, o protagonismo oferecido à música pelos damanenses deverá ser interpelado a partir de diferentes prismas de análise:
1. O modo como o repertório foi/é construído, legitimado e adotado pelos damanenses católicos. Aqui se incluem processos históricos definidos durante o período colonial mas também o modo como os damanenses reagiram ao fim do colonialismo português, mantendo práticas musicais e linguísticas inscritas na própria música e guardando com elas ingredientes de identificação dos quais não querem abdicar. Este repertório inscreve vários tipos de música cuja plasticidade se altera em função dos protagonistas, dos lugares de performance, das ocasiões, do momento histórico e da função que a performance desempenha;
2. O modo como o repertório se diferencia do resto da Índia – incluindo o de outras ex- colónias portuguesas como é o caso de Goa – e se torna identificador da comunidade católica damanense pela sua reclamada unicidade. Este aspeto deve ser entendido a partir da existência de um tipo de música contrastante, construída a partir do paradigma da música ocidental mas, sobretudo, que reclama, no caso de Damão, uma ascendência portuguesa. É isto que efetivamente identifica a comunidade damanense católica, sobretudo em relação a Goa, e provoca inclusivamente o uso de música cantada em português ou importada de Portugal, para além dos géneros que são considerados damanenses;
3. O modo como o repertório viaja com a diáspora e integra as práticas performativas desempenhadas em lugares de emigração. Independentemente dos lugares de diáspora e dos movimentos migratórios, os damanenses viajam transportando a sua música e transformam-na numa bandeira de diferença quando integrados em territórios de acolhimento diaspórico. Nestes contextos, a plasticidade da música é retomada, alterando o modo como no interior do repertório os diferentes géneros musicais adquirem também diferentes ponderações. A relação com a música é tão importante quer se viva em Damão quer num espaço migratório. Porém, o modo como o repertório é gerido, incluindo ou excluindo géneros musicais e/ou coreográficos ou, ainda, dando maior ou menor importância aos mesmos, varia conforme o lugar onde se vive e, com isso, altera também a forma como os damanenses se autoidentificam; 4. O modo como o repertório viaja intergeracionalmente e é adotado e adaptado por
indivíduos de diferentes idades e experiências pós-coloniais. Também aqui a plasticidade do repertório se torna visível pela incorporação de géneros e estilos de
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música mais próximos das gerações mais novas (indianos e europeus). Todavia, este processo não exclui a manutenção da música cantada em português, seja ela importada de Portugal (religiosa ou secular) ou de origem damanense cantada, portanto, em
português de Damão. Esta viagem intergeracional levanta problemas interessantes e
instigantes que oferecem à música um lugar que é ao mesmo tempo de fruição estética – portanto, escolhida e elegida pelos seus intérpretes – e, também, de identificação e herança patrimonial, ou seja, herdada das gerações mais velhas;
5. O modo como a música estabelece uma interdependência com a vida ao ponto de não ser considerada um “saber à parte”. Na verdade, quando inicialmente os meus colaboradores me referiam a inexistência de música em Damão estavam de facto a expor um modo de olhar a música que não a recorta das outras práticas quotidianas. Neste sentido, a música enquanto prática associada a espaços de exposição acontece em Damão muito raramente e apenas com o intuito de heterorrepresentação. No contexto da diáspora, onde o quotidiano e o enquadramento territorial damanense estão ausentes, a música adquire um lugar expositivo mais intenso embora seja apenas desempenhada no interior da e para a comunidade. Aqui a música é também uma forma de manter e de viver Damão, performando-o intergeracionalmente.
Os problemas acima apresentados emanam a partir da minha experiência de trabalho de campo desenvolvido em Damão e no Reino Unido. Durante a minha permanência no Reino Unido confrontei-me com um conjunto de interrogações na tentativa de perceber de que forma as comunidades damanenses negociam os diversos aspetos decorrentes da situação ambivalente e indeterminada que vivem no contexto diaspórico, onde procuram conciliar uma multiplicidade de identificações e de associações que definem o seu quotidiano. Procurei assim perceber de que forma estas comunidades, uma vez deslocadas, constroem o lugar onde vivem, qual o papel das práticas transportadas de Damão para a diáspora, qual a função da música no processo de negociação, conciliação e construção identitária no interior da comunidade e entre esta e a comunidade de acolhimento e, finalmente, de que modo a música traça um caminho entre Damão e o Reino Unido, estabelece um elo de ligação entre os dois espaços e potencia a construção de um lugar de acolhimento à imagem de Damão.
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