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Le dernier adieu

Dans le document PAR AMOUR POUR MON P’TIT POISSON ROUGE (Page 163-167)

Apesar de já não ser ensinado formalmente, no contexto da comunidade católica damanense o português predomina como língua materna, é a língua utilizada no espaço doméstico e transmitida oralmente de pais para filhos. A geração mais velha18, que frequentou a escola primária durante o período colonial, fala um português próximo do de Portugal – que vou denominar português-padrão, de acordo com a norma usada pela linguística – e também o que vulgarmente designa por português de Damão, que é a língua indo-portuguesa em que as gerações mais novas se exprimem.

Na sua tese de doutoramento intitulada The indo-portuguese language of Diu o linguista Hugo Cardoso esboça um enquadramento histórico do termo “indo-português”, que remete não

17 Este estatuto é bem visível pelo modo como Portugal tem tratado a questão de Damão não dando qualquer

importância, por exemplo, aos pedidos insistentes de presença de um padre português pelo menos numa das paróquias damanenses, ou, também, por não apoiar o ensino do português através do destacamento de um leitor ou professor da língua, por intermédio das entidades competentes como o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Instituto Camões ou mesmo o Centro Cultural Português em Goa ou em Nova Deli.

18 A classificação da comunidade católica por gerações é um aspeto importante neste trabalho e por essa razão

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apenas para uma mas para diversas línguas de contacto de base lexical portuguesa que ao longo dos tempos se foram espalhando pelo sul da Ásia, como resultado das atividades coloniais que os portugueses vinham desenvolvendo desde o século XVI e do poder que a língua portuguesa mantinha na região. No Sul da Ásia, diversas variantes relativamente estáveis de indo-português chegaram a ser registadas no Sri Lanka, em vários portos dos atuais estados indianos do Gujarat e Maharashtra, nos estados de Goa, Karnataka e Kerala mas também na costa oriental indiana e no Bangladesh. Desde o final do século XIX vários estudiosos se dedicaram ao registo e análise destas línguas indo-portuguesas e destaco aqui os trabalhos de Mons. Sebastião Dalgado (1900, 1903, 1906, 1913, 1917, 1921), Jeronymo Quadros (1899, 1907) e Hugo Schuchardt (1883, 1890, 1899) (op. cit. Cardoso 2009) que, entre outros, refletiram sobre a subdivisão da família linguística indo-portuguesa em grupos segundo a língua endémica de cada território.

Em 1903 Dalgado publicou o seu Dialecto indo-português de Damão numa separata da revista Ta-

Ssi-Yang-Kuo. Confessa nunca ter “estado em Damão, nem ouvido fallar o seu crioulo” (1903,

2), que considera como um dos subdialetos do “crioulo norteiro ou, como é denominado na India, português dos norteiros” (ibid.). Três anos mais tarde, Dalgado apresentou o grupo das variantes indo-portuguesas conhecido por “Norteiro” que inclui as variantes faladas na antiga Província do Norte. Esta região incluía os territórios portugueses entre Damão e Korlai, abrangendo Diu. Segundo Cardoso, estas variantes indo-portuguesas são atualmente faladas em Diu, Korlai e Damão. Ambos os estudos sobre o indo-português de Damão e do Norte (Dalgado 1903, 1906) respeitam a seguinte estrutura: “A) Phonologia; B) Morphologia; C) Syntaxe; D) Textos” – comparações da Parábola do Filho Pródigo em crioulo norteiro, de Diu e de Damão; “fabulas e contos, maximas e provérbios, adivinhas, dialogos em subdialectos de Tecelaria, Chevai, Bombaim e outras partes” e poesia (vide infra) – e E) Vocabulário. Dalgado clarifica o significado dos termos “Norte” e “Norteiro” pois, para além do primeiro apenas corresponder às “terras setentrionaes que estão ou estiveram sob o dominio de Portugal”, o segundo “Não comprehende todos os habitantes do Norte indistinctamente, mas tão sómente os que adoptaram a religião e a lingua dos dominadores, isto é, os que são christãos e falam português, embora não sejam, como não são na sua maioria, descendentes de Portugueses” (1906, 142).

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Para além dos seus estudos específicos sobre o indo-português do Ceilão (1900), de Goa (1900-1901), de Damão (1903), das Províncias do Norte (1906) e do Negapatão (1917), Dalgado publicou vários trabalhos sobre a análise do indo-português em geral, debruçando-se sobre a influência do vocabulário português nas línguas asiáticas e sobre o empréstimo de vocábulos portugueses a línguas orientais e destas ao português e, posteriormente, a línguas europeias. Todas estas referências podem ser encontradas no extensivo levantamento bibliográfico realizado por Maria Isabel Tomás (1992) sobre os crioulos portugueses na Índia, no Ceilão, em Malaca, em Singapura, na Indonésia, em Macau e em Hong Kong.

Também com um caráter mais amplo destaco as publicações de David Jackson (1990, 1991, 1995, 2005), que se centra no estudo dos crioulos de base portuguesa do Oriente e na circulação à escala mundial de indivíduos e de bens que marcou o domínio colonial português e que propiciou uma interpenetração do léxico e de características estruturais nas línguas crioulas. Nestes trabalhos o autor faz um levantamento de versos encontrados desde o final do século XIX por diversos linguistas ou estudiosos em diferentes ex-possessões portuguesas e compara esse material poético que parece circular pela Ásia do sul.

Dando enfoque às Províncias do Norte destaco o artigo de Clancy Clements (1991), que se propunha colmatar a lacuna que então existia no estudo dos crioulos indo-portugueses falados em Damão, Diu e Korlai. Após uma breve contextualização histórica, geográfica e demográfica de Damão, o autor dá conta da existência de dois crioulos portugueses ligeiramente diferentes: um que é falado em Damão Pequeno e que sofreu uma maior descrioulização por influência do português-padrão e outro que é falado em Badrapôr (vide

infra) e que, dado o maior isolamento do bairro, sofreu uma menor descrioulização. Clements

realça que, em 1991, o português-padrão já tinha deixado de ser a principal língua de ensino para passar a ser lecionada como uma disciplina de opção que poucos alunos frequentavam. Deste modo, as principais influências de que o crioulo português de Damão é alvo já não vinham do português mas do inglês e do gujarati: “Since it [gujarati] has also co-existed with Daman CP [Daman Creole Portuguese] since the beginning, one finds an unmistakable Gujarati influence on the creole, most of it concentrated in vocabulary items, although some structural influence is also evident” (Clements 1991, 638). Quanto ao inglês, o autor nota que começava a ganhar terreno na igreja, nas escolas, nos serviços administrativos e como língua de comunicação entre os jovens:

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Because of the increasingly important role English is playing in the lives of the younger Daman CP speakers, the creole is considered by some to be in danger of extinction in the next 100 years. At present, however, it is very much alive, forms an integral part of the communities’ lives, especially in Badrapur, and is still a means of cultural expression in song and verse (Clements 1991, 639). Contrariamente ao que Clements idealizava com a publicação do seu artigo, pouco foi feito no sentido de alargar o conhecimento dos crioulos indo-portugueses de Damão, Diu e Korlai. À exceção de Dalgado (1903) e de uma tese de licenciatura apresentada em 1960 à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa por Maria Manuela Lopes intitulada Notas sobre o crioulo

português de Damão – a que não me foi possível aceder –, a língua damanense nunca foi objeto

de nenhum estudo profundo recente. O próprio Clements publicou em 1996 os resultados do prosseguimento da sua pesquisa sobre o indo-português de Korlai (op. cit. Cardoso 2009) e desenvolveu um estudo comparativo entre os crioulos de Diu, Damão e Korlai, apresentando um cenário possível da origem destes dois últimos (Clements 2009; Clements e Koontz- Garboden 2002).

A língua indo-portuguesa de Diu foi analisada por Hugo Cardoso no âmbito do seu doutoramento (2009). Apesar do seu enfoque, Cardoso tece algumas considerações e comparações entre esta língua e a de Damão. Estas, juntamente com a de Korlai, são as únicas variantes do indo-português norteiro que no século XXI ainda sobrevivem (Cardoso 2006). O autor reflete sobre os domínios de uso dos crioulos indo-portugueses, sobre o seu estatuto social e sobre o multilingualismo das comunidades que os falam. Aponta os principais desafios com que estas línguas se deparam diariamente e propõe sugestões com o intuito de fomentar a sua manutenção. Noutras publicações, Cardoso (2010b, 2012) descreve e analisa algumas características que separam os crioulos norteiros do português-padrão, como a terminação das palavras na sílaba tónica, a ausência de flexão de género e número em substantivos e adjetivos e de formas verbais que exprimam as categorias de pessoa e número. Apresenta ainda exemplos do cancioneiro indo-português, norteiro e não só, que foram registados em diferentes territórios do antigo império colonial português.

Apesar de a língua damanense se incluir neste grupo de línguas de contacto de base lexical portuguesa designado por indo-português – o próprio Hugo Cardoso reconhece semelhanças entre as variantes damanense e diuense e compara-as numa secção da sua tese – eu irei adotar no decorrer deste trabalho o termo veicularmente utilizado pelos damanenses católicos para se

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referirem à sua língua – o português de Damão. Durante a minha experiência no terreno pude ouvir diferentes versões sobre a origem e as características do português de Damão, especialmente por parte dos elementos da geração mais velha. Essas versões compartem o facto de esta língua não respeitar as mesmas regras gramaticais do português-padrão mas divergem quanto à sua origem, ora afirmando que é uma forma de português arcaico (apontando como justificação o emprego de palavras como “botar” que caíram em desuso em Portugal), ora que denota uma mistura do português-padrão com línguas indianas. Os testemunhos de Maria da Graça Lopes (e Rocha) e de Gabriel Guedes – antigo professor de português no Instituto de Nossa Senhora de Fátima – são um reflexo desta situação:

Nós fomos à escola, os nossos antepassados não foram, eles falaram por ouvir, por isso quando ouvir a gente não fala, não pronuncia, nós não terminamos as palavras. Macau têm o patuá e eu tenho livros aqui que eu mais ou menos posso perceber aquilo, é português daqui, que não é completado: “mes”, “cadêr”. Quando dizemos “mesa”, “cadeira”, podemos distinguir se é masculino ou feminino, com aquilo só não dá, fica um bocadinho errado para uma pessoa que já sabe português, mas para nós passa. É português antigo e aliás não era misturado mas agora estou a ver que sim, o tom já está um bocado mais indiano.

(Maria da Graça Lopes (e Rocha), Damão, 10/02/2010)

Cá em Damão nós falamos um dialeto que é conhecido como indo-dialeto português de Damão, não tem mistura com a língua local, e quase todos os nossos mandós são em indo-dialeto português de Damão, não são como concani de Goa.

(Gabriel Guedes, Damão, 21/03/2010)

O português de Damão convive com o português-padrão. Para reforçar uma distinção entre os dois tipos de português os próprios falantes nativos também designam o português de Damão por “broken Portuguese” ou “português quebrado”. Estas expressões refletem o posicionamento dos damanenses face à língua que falam, que de algum modo consideram estatutariamente inferior e desprestigiada face ao português-padrão. Reflete igualmente o incómodo que alguns damanenses católicos ainda sentem ao falá-la, por se queixarem que não tem gramática e não é “polida”. Este preconceito é uma herança do colonialismo, um testemunho de uma espécie de incorporação da “colonialidade do poder” (Quijano 2008, 2009), e havia sido já realçado por Dalgado durante a sua estada nos territórios das Províncias do Norte. Parece, portanto, ser um sentimento generalizado e não exclusivo de Damão: “As classes illustradas manifestam desamor a sua lingua materna, pela consciencia e pejo que tem da sua corrupção, e procuram descartar-se d’ella, servindo-se ou do português legitimo, ou do

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inglês, lingua official, principalmente em Bombaim e nos suburbios” (Dalgado 1906, 143). Também no seu estudo sobre o indo-português do Ceilão (1900) Dalgado distingue o “português alto (puro)” do “português basso (baixo)” ou do “broken Portuguese”.

A existência destes modos diferentes de falar português tem sistematicamente suscitado a curiosidade de investigadores, linguistas, viajantes e indivíduos de diferentes perfis que passam por estes territórios indianos. No que diz respeito a Damão, é extremamente comum encontrarmos alusões à língua independentemente da profundidade ou do conhecimento linguístico que as pessoas detêm, sempre que escrevem ou se referem àquele território de matriz colonial portuguesa. Mesmo a escrita ensaística, novelística ou jornalística tende a referir-se ao português de Damão à laia, por exemplo, de curiosidade. Exemplo disso é o trabalho da escritora e cantora portuguesa Nita Lupi (vide infra), que visitou Damão na década de 50 do século XX descrevendo no seu livro sobre música o que denominou de “dialeto de Damão”. De acordo com as suas palavras o vocabulário seria constituído por termos desenvolvidos a partir do português arcaico e influenciados pelas línguas indianas:

Most of the words have the final syllable lopped off, which gives the songs a quaint elegance, as one can see from those included in this book.

In some verses the word deixar (to leave) changes into dichá, minha (mine) into

minh', perdido (lost) into pérdi, and the term você or vossemecê (you) into just óss.

Let us take out of curiosity a few of the more peculiar terms of Damão dialect which are quoted in studies of the dialectics of the luso-asian language: cordá,

acordar (wake up), launtá levantar (rise), bam, vamos (let us go), morteng, macilenta

(pale), temps, tempero (seasoning), lonh', para longe (far), pert, para perto (near). There are infinite variants within this frame (Lupi 1960, 122-123).

Uma vez que a língua indo-portuguesa em que os damanenses católicos se exprimem e que distinguem do português-padrão não foi ainda alvo de uma análise verdadeiramente aprofundada eu utilizarei, ao longo deste trabalho, a designação que eles próprios dão à sua língua materna: português de Damão. Contudo, recorrerei frequentemente aos estudos acima referidos realizados no domínio da linguística sobre os crioulos indo-portugueses para procurar contextualizar e clarificar a minha análise do mandó damanense.

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