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A minha vivência e observação no terreno permitiram-me identificar em Damão a existência de três gerações que distingo da seguinte forma: a geração mais velha, a geração intermédia e a geração mais nova. Esta distinção deve ser vista, claro, de uma forma flexível e indicativa, uma vez que não é possível compartimentar rigidamente a população católica damanense. Seguindo a linha de pensamento de Gutiérrez (2009), as gerações não podem ser ontologicamente purificadas, as suas fronteiras não são passíveis de serem delimitadas nem os seus elementos isolados. Mas, pelas razões que seguidamente apresentarei, entendo ser importante estabelecer esta diferenciação dado que ela me permite operacionalizar informação importante para a problemática da minha pesquisa.
Na verdade, o meu trabalho iniciou-se num momento em que se comemoravam os cinquenta anos do fim da colonização portuguesa em Damão. A população com a qual contactei tem, por isso, diferentes experiências coloniais e, inclusivamente, passou por diferentes estatutos de nacionalidade. Com eles, transporta também vivências diferentes: uns porque nasceram e foram educados inicialmente como portugueses, outros porque nasceram indianos embora filhos de “pais portugueses”, outros porque congregam a herança de um passado familiar que agora têm a responsabilidade de guardar e transmitir embora nunca o tenham experienciado.
Considero que a geração mais velha é constituída pelos damanenses com idade superior a sessenta anos, ou seja, que nasceram e frequentaram o ensino primário durante o período colonial português. É esta geração a detentora do repertório expressivo que remete para a herança portuguesa – parcialmente herdado das gerações anteriores – e a responsável pela sua sobrevivência, manutenção e transmissão às gerações mais novas. Na prática, são os seus elementos, invariavelmente mulheres, que organizam pontualmente grupos de dança portuguesa formados por membros das gerações mais novas, aos quais ensinam as danças que recordam ter aprendido com os oficiais portugueses ou com as suas esposas ou enquanto alunas do Instituto de Nossa Senhora de Fátima durante o período colonial. São também os elementos da geração mais velha que se organizam para cantar e tocar mandó nas festas familiares e nos programas culturais e estimulam os jovens a acompanhá-los nesta prática em rituais associados ao casamento, como a lavada-de-cabeça (vide infra). No contexto religioso público, é a geração mais velha que forma o coro que acompanha as missas rezadas em português, que canta a novena ou a trezena de cada festa religiosa (com o terço, ladainha e hinos cantados em latim ou em português) e os motetes em latim em cada um dos domingos
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da Quaresma e durante as procissões pascais. No contexto religioso doméstico, são os membros da geração mais velha que tomam a iniciativa de cantar os hinos em português durante a visita domiciliária da imagem de Nossa Senhora por cada uma das casas do bairro e, no caso da família Mendonça, são os seus membros mais velhos que garantem a performance do caderno do Louvado do Menino Jesus (vide infra) na altura do Natal, com os cânticos em português e em latim.
De acordo a minha perceção, a geração intermédia engloba os damanenses com idades entre os trinta e os sessenta anos, isto é, os filhos da geração mais velha. Embora na sua maioria tenham nascido com nacionalidade indiana foram ensinados no contexto familiar de acordo com o modelo luso-damanense, ou seja, falando português-padrão e português de Damão e desempenhando música e dança portuguesas assim como o mandó de Damão.
A geração mais nova é formada pelos indivíduos com idades inferiores a trinta anos que são também educados e influenciados por este modelo – no contexto doméstico e no interior da comunidade católica –, embora progressivamente atraídos pela cultura indiana e anglo- saxónica.
Enquanto a língua portuguesa e o português de Damão permanecem como línguas de comunicação intergeracional, a música parece estar cada vez mais repartida pelas diferentes gerações correspondendo a cada uma delas repertórios diferentes. Mas se a mais velha se identifica com um repertório que designa por indo-português (música e dança herdadas dos portugueses e o mandó), as gerações mais novas adotam sobretudo música anglo-saxónica, música de Bollywood e música portuguesa atual, veiculada pelos meios de comunicação de massa. Atualmente, observa-se um momento crítico de passagem de testemunho entre gerações. A geração mais velha preocupa-se sobretudo com o eventual “fim” da sua cultura de diferenciação, enquanto as gerações mais novas se afastam cada vez mais do registo dos seus pais e avós aproximando-se da Índia e da cultura anglo-saxónica. É interessante que, apesar desta aproximação à Índia ser vista pela geração mais velha como uma ameaça, a geração mais nova encontra na música portuguesa atual uma plataforma a partir da qual mantém um elo de ligação à cultura com a qual os seus pais e avós se identificam e que remete para um referencial português. Na verdade, estas práticas musicais congregam as diferentes gerações mesmo quando num primeiro olhar parecem ser exclusivas de uma determinada geração. A
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lavada-de-cabeça (vide infra) é um bom exemplo desta partilha, pois neste ritual associado ao
casamento, preparado para os noivos pelas mulheres da geração mais velha, são cantados mandós e canções portuguesas com os quais a geração mais nova também se identifica. Da mesma forma convivem as diversas gerações na performance dos cânticos do Louvado do
Menino Jesus e da visita domiciliária da imagem de Nossa Senhora, embora cada uma tenha
protagonismos diferentes, parecendo claro que a mais nova procura conhecer, aprender e partilhar o repertório musical adotado pela geração mais velha com o qual também aquela se identifica.
A partição de uma comunidade a partir do elemento “geração” é, e insisto, um mecanismo complexo e talvez perigoso se o tornarmos num modo rígido de identificação. Assim, tal como propõe Gutiérrez, o conceito de geração deve ser entendido como uma categoria simbólica e não como a entidade responsável pela mudança social e cultural:
El cambio es real pero no lo ejecuta un sujeto colectivo llamado generación. Un sujeto masivo que es capaz de romper con sus seculares tradiciones y negar, así, una parte de la identidad. (…)
Las tradiciones, merced a la autodinámica de la identidad, sobreviven a las generaciones y se diluyen con ellas y en ellas. Pues, a pesar de las disyunciones que realizamos aquí, las generaciones no serían más que tomografías de la identidad en su constante proceso de cambio. Las generaciones son las renovadas tradiciones. La generación es la materialización de la identidad, el sujeto colectivo en el que es posible describirla por su comportamiento general. Y ese sujeto es el único portador de tradiciones o, al menos, el único en quien es posible identificarlas (Gutiérrez 2009, 41-42).
A importância de diagnosticar o perfil das diferentes gerações é central para o meu trabalho porque elas testemunham processos de adoção e de ressignificação da música e das práticas a ela associadas. Os próximos capítulos, dedicados à música damanense – secular e religiosa –, procurarão mostrar esses processos.