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Thierry PHAM

Dans le document Prise en chargede la psychopathie (Page 29-33)

O isolamento da região fê-la autossuficiente em muitos dos aspetos económicos, sociais e organizativos, existindo um forte sentimento de união e solidariedade entre o povo, preservando muito dos arquétipos da cultura popular que têm a memória oral como veículo de transmissão intergeracional, especialmente no que concerne ao universo religioso e imaginário. Neste quadro socioeducativo coexistia a afoiteza com a superstição, impondo-se facilmente os equívocos entre o real e o fantástico, conduzindo à aceitação de todo um elenco estereotipado para a consolidação de lendas e milagres. Esta circunstância é mais evidente quando existem, ou se acredita existirem, elementos físicos, simbólicos e /ou espirituais que ligam o espaço terreno às respetivas divindades, ou seja, locais onde tenham acontecido milagres e/ou se conservem túmulos de santos ou relíquias relevantes, bem como imagens de devoção muito procuradas. As relíquias instituem um caráter sagrado ao lugar e constituem uma benesse para a população local, sustentando as relações de devoção, de proteção, de identificação e de pertença entre os fiéis e a divindade ao comunicarem com o sagrado através do toque e/ou do beijo.

Numa sociedade rural como a região do Douro, muitas são as histórias que se contam, com maior ou menor convicção de quem as narra, sob a forma de lendas ou exempla, recorrendo ao sobrenatural para compreender o real inexplicável. As lendas religiosas «são pias homenagens de reconhecimento à intercessão dos santos/Virgem que motiva e justifica a importância dos cultos populares, cristológicos, marianos e dos santorais na história da piedade cristã» (Marques, 2005: 65-66); os exempla são histórias edificantes «na maioria das vezes para uso dos pregadores, que gostam de introduzir os exempla nos seus discursos para que os ouvintes assimilem melhor uma lição salutar [mensagem]. Foram um produto ideológico de largo consumo» (Le Goff 1990: 158) necessário para as comunidades que deles

usufruem. Em momentos de crise ou de revitalização da cristandade foram criteriosamente invocados como suporte de pregação e inseridos numa estratégia teológico-cristã para representar os domínios da salvação: «vêm ao encontro da tradição mediterrânica transmitida pelos Árabes, e acolhida com tanto interesse pelos clérigos e leigos nas cortes senhoriais e régia» (Mattoso 1995: 218).

Ainda que neste campo os estudos sejam esparsos, é certo que a divulgação de uma lenda causava uma profunda agitação na psique humana, funcionando a dois níveis: ora atraindo os devotos/crentes para promessa, oração e devoção; ora estimulando os visitantes que por curiosidade queriam ver de perto o local da ocorrência por isso a Irmandade tinha todo o interesse em propagar o advento de lendas da Virgem dos Remédios. O registo oral mais antigo que se conhece diz respeito à lenda do pau, conforme os texto seguinte:

Texto a)

Uma mulher alentejana muito doente a quem os vizinhos e amigos previam uma morte próxima pediu ao marido, vendedor ambulante, que lhe trouxesse uma esquírola de um santo milagreiro que se dizia existir no norte, as quais depois de fervidas curavam a sua doença. O cônjuge não achou o santo, mas para não desiludir a esposa, arrancou algumas aparas de madeira à barca que serviu para atravessar o Tejo. A mulher julgando tratar-se de uma graça do Santo, preparou a infusão e logo ao terceiro dia ficou curada (Anónimo, lenda popular).

A Virgem dos Remédios amparava os protegidos, daí que o marido, no estendal do desânimo e nas horas marcadas pelo sofrimento, justificou a cura da esposa com a intervenção de Nossa Senhora dos Remédios, inscrevendo num quadro a seguinte sentença: O que cura é

a fé, não o pau da barca. Esta história reflete a dimensão fantástica da lenda, ainda que, sob o

ponto de vista histórico, não exista documentação ou registos de qualquer cura milagrosa; trata-se de um acontecimento muito provavelmente inverosímil da cultura popular, muito semelhante às narrativas medievais em que a Virgem aparecia como protetora dos mais frágeis. O povo com a sua tradicional “fantasia” modelou a história dando mais visibilidade ao culto, conferindo-lhe notoriedade. A cura converte e desencadeia emoções, por isso a lenda requer uma organização própria e a existência de grupos sociais interessados na sua manutenção. O pau da barca foi o objeto símbolo profilático escolhido pela Virgem para se manifestar perante o crente, enaltecendo o valor taumaturgo da lenda. As comunidades religiosas foram mantendo, com as suas diferenças ou singularidades, os seus segredos aparentemente imunes e alheios ao desencantamento do povo. Nesta senda, a Irmandade delatava publicamente, e sempre que lhe era oportuno, as maravilhas da Virgem,

sobrelevando a sua propaganda institucional, conforme descrição, texto B. O juiz dirigiu-se aos Irmãos e contou o seguinte episódio:

Texto b)

Na sessão da Mesa Administrativa de 09 de Março de 1914 (…) o senhor Juiz disse que achando-se consolidadas as melhoras do nosso colega da Mesa, e ex-mo Senhor Joaquim Pereira Gomes, que actualmente se acha completamente restabelecido da pertinaz e perigosíssima doença que o teve às portas da morte, entendia que era de justiça que n’esta acta se exarasse a manifestação do sentimento de regozijo que toda a Mesa sentia por tão feliz resultado. A Mesa não só aprovou esta proposta mas deliberou mais que no dia 14 d’este mez e às 11 horas da manha, na Igreja do Santuário e no altar da Virgem Nossa Senhora dos Remédios fosse celebrada uma missa em acção de graças e em reconhecimento para com a Virgem, Nossa Padroeira por haver salvado a vida ao nosso, muito prezado companheiro de meza; que a meza fosse convidada a assistir a esta mossa e que disto se desse conhecimento por ofício ao Ex.mo Senhor Joaquim Pereira Gomes (AINSRL, 1903-1917, fl 68-68vs).

Na exegese da narração oral em presença, percebe-se assim o sentido de seduzir os Irmãos num propósito de encantamento; num cenário de tristeza anunciada, como uma espécie de condenação ou fatalidade, o Irmão salvou-se graças à proteção da Virgem. Daí que, este texto, mais que informar acerca do estado de saúde do Irmão, visava promover os feitos da Virgem, um arquétipo semelhante ao das lendas, numa fase em que o país atravessava um período mais anticlerical e tendencialmente a-religioso, piorado com a Lei da Separação da

Igreja do Estado (20 de abril de 1911)32. Nestas pelejas, a Irmandade procurou salientar a

força propulsora da Virgem, talvez pela disponibilidade dos Irmãos aceitarem, sem reservas, o domínio do maravilhoso e do sobrenatural. Refira-se ainda que a atuação do juiz não foi despicienda, destinando-se a preservar a estrutura corporativa da Irmandade. O objetivo era evitar mudanças na hierarquia social, ainda que os movimentos anticlericais, impondo fortes entraves ao processo da doutrinação e apostolado, dificultassem a comunicação do juiz em público, condicionado pela atuação das autoridades. Por isso, sempre que era oportuno, recorria à fantasia, divulgando os acontecimentos deslumbrantes de Nossa Senhora dos Remédios, procedendo a simples demonstrações com grande probabilidade de a notícia fluir rapidamente no seio desta camada social. Estes episódios eram uma espécie de atlante, permitindo à Irmandade passar a regular prova por parte do cabido relativamente às questões do culto. Note-se que, pouco tempo antes, os estatutos (1913) tinham sido conotados com laivos de secularismo e recusados pela cúria diocesana. A Instituição punha ao seu serviço os mais instruídos, ou seja, os que dominavam o saber simbólico que, como seria de esperar, se

concentrava na pessoa do juiz para discursar, passando do raciocínio demonstrativo a uma técnica mais persuasiva, atribuindo um sentido mais ou menos dramático às mensagens, conforme o conteúdo dos avisos e/ou das notícias que pretendia dar. O objetivo era relembrar os Irmãos que a melhor forma de alcançarem a salvação era por meio de dedicação à Virgem, impressionando-os ao usar expressões como: «perigosíssima doença que o teve às portas da morte» (Idem). Persuadir é mais importante que demonstrar, por isso, se insistia mais nos argumentos dirigidos ao coração do que à razão, como instrumentalização eficaz dos diversos estratos sociais, sobretudo os mais baixos.

Estas histórias são, certamente, uma pequena amostra das inúmeras narrativas e lendas que convidavam os indivíduos a ponderarem sobre os riscos que corriam todos os que optassem por viver à margem de um percurso cristão e/ou afastado da Virgem dos Remédios. Pode então perguntar-se: para quê tamanha necessidade de promoção dos feitos da Virgem? Terão servido estes episódios para reforçar a devoção e o culto local? Julga-se que sim; as lendas e histórias apologéticas serviam necessariamente para incitar, no imaginário popular, uma áurea mítica com a Virgem.

Salvaguardando as devidas distâncias, as duas narrativas têm muitas similitudes no sistema de propaganda devocional. O objetivo era manipular a mente humana, arrastando os indiferentes e/ou indecisos, criando nos Irmãos um sentimento de segurança e solidez anímica do povo. Os textos ajudavam a refletir e a celebrar, servindo de vetores de ligação entre o imaginário e à cultura popular no trânsito dos séculos. Cabia à Irmandade criar condições sensoriais, disponibilizando uma encenação e quadros de leitura selecionados. Por outras palavras, se o juiz não tinha a possibilidade de escolher o lugar para ser alvo de um processo de sacralização, tinha ao menos a capacidade de simular um conjunto de revelações e/ou os sinais que dimanavam da Virgem.

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