• Aucun résultat trouvé

La théorie de l’accroissement du patrimoine (TAP) Une brève exposition

Les contributions allemandes II

2. La théorie de l’accroissement du patrimoine (TAP) Une brève exposition

Enquanto o funcionário da cooperativa de rádio táxi Rodotaxi comentava sobre seus deveres como coordenador/organizador da fila de táxi do Shopping Bela Vista, também abordava um outro aspecto bastante interessante, ao dizer que uma de suas funções era a de impedir que taxistas que não fossem vinculados à cooperativa de rádio Rodotaxi, de frequentarem o ponto de táxi da portaria principal do Shopping Bela Vista. Essa informação fez emergirem os conflitos existentes entre os taxistas (diaristas, auxiliares, permissionários ou locados) versus taxistas cooperados.

Apesar da interação entre os taxistas trabalhar num mesmo ponto ou fila de táxi, não é garantia de que exista intimidade, muito menos amizade entre todos eles. A proximidade possibilitada pelo trabalho pode ser naturalmente acompanhada por um distanciamento social entre os taxistas. Percebi isso quando, muitas vezes acompanhado de meu pai, observei certa rivalidade ou antipatia de um taxista para com o outro durante as entrevistas. Tal comportamento me fez, quando sozinho no campo, passar a não comentar que era filho de um taxista de imediato, a não ser que isso me facilitasse a entrada em algum espaço próprio dos taxistas.

Segundo o presidente da AMT (Associação Metropolitana dos Taxistas) esses pontos de táxi privados em Salvador são oriundos de convênios fechados entre cooperativas de rádio táxi e empreendimentos particulares, a exemplo dos shoppings e hospitais em Salvador. Contudo, uma das principais conquistas políticas da classe foi fazer com que o regulamento fosse cumprido, ou seja, estes empreendimentos são obrigados a negociar e destinar a implementação de pontos de táxi de rua (livre) para que taxistas não-cooperados possam também explorar corridas oriundas desses locais e de seu entorno.

Na verdade, ali é o seguinte, essas empresas (rádio táxi) mandam projetos, propostas, para lá e eles escolhem. Aí é uma coisa de empresa para empresa. Isso aí foi uma briga minha porque todos esses locais têm lugar para o táxi comum. Shopping Paralela foi um pau da porra, mas a gente conseguiu botar, só que ninguém roda. Mas tem vaga para carro que não é de cooperativa. A do Iguatemi é antiga, mas eu digo dos novos shoppings, que não tinha, que eles escolheram tomar conta e a gente brigou por causa disso382. (informação verbal) Art. 29 – O estacionamento em pontos privativos considerados de interesse turístico pela Prefeitura poderá ser objeto de exigências especiais, inclusive quanto ao tipo, capacidade, ano de fabricação, estado de conservação ou outras particularidades dos veículos (Regulamento do serviço de táxis no município de Salvador de 1980). Art. 58 – Os pontos de estacionamento serão de 02 (duas) categorias:

a) Livre; b) Privativos

Parágrafo 1º - Pontos livres destinam-se a utilização pelos táxis, observada a quantidade de vagas fixadas.

Parágrafo 2º - Os pontos privativos são regulamentados pela necessidade do serviço e de acordo com suas características especificas, quais sejam:

I – Transbordo

II – Turismo (Regulamento do serviço de táxis no município de Salvador de 1992).

Sobre tal aspecto, comentaram alguns taxistas que apesar de não considerarem correto a existência de filas de táxi privadas por ser isso uma concorrência desleal, privilegiando os cooperados, é do conhecimento dos taxistas entrevistados de que se não forem associados das cooperativas de rádio táxi que firmaram contrato de prestação de serviço com os shoppings ou hospitais, estes se encontram proibidos de frequentar e explorar as corridas no ponto de táxi da parte interna desses empreendimentos.

Como exemplo, os taxistas citaram o Shopping da Bahia (Iguatemi) e os Hospitais Aliança e da Bahia que possuem contrato com a cooperativa de rádio táxi, Rodotaxi e o Salvador Shopping que possui contrato com a cooperativa de rádio táxi, Use Táxi. No entanto, outros taxistas relativizam, não veem grandes problemas com isso, considerando que o fluxo de pessoas e a oferta de corridas do lado de fora dos shoppings é bem maior do que a do interior deles. Os taxistas pertencentes às cooperativas de rádio táxi exploram as laterais dos shoppings enquanto as portarias principais são exploradas pelos taxistas, em sua maioria, não cooperados.

[Rangel]: Essa fila aqui é a fila pública estabelecida pela Prefeitura. No caso dentro do Shopping é a fila particular do Iguatemi que é da Rodotaxi. [Marcio]: Tem um contrato com o Shopping. O Salvador Shopping tem contrato com a Use Taxi só quem pode rodar na portaria

principal dentro de lá são os carros da Use. Eu acho errado isso. [Rangel]: Lá fora a questão da portaria do shopping se encontra em logradouro público certo. No caso aqui dentro já está no perímetro particular do shopping. Mas eu vou dizer a você, para gente é até mais vantagem porque o fluxo de corridas é bem maior383. (informação verbal) O Iguatemi não se responsabiliza por nada aqui em relação aos taxistas daqui de fora (do estoque), apenas com a Rodotaxi que tem um ponto lá dentro. Eles rodam nas laterais e a gente roda na portaria principal. Toda a lateral do Shopping é mantida pela Rodotaxi384.

(informação verbal)

O fato é que, seguindo novamente os argumentos de Mcflarne e Rutheford (2008), o caso dos pontos de táxi privados em Salvador e seus impactos para a qualidade das relações estabelecidas entre os taxistas na capital baiana expressam a centralidade que a infraestrutura detêm no processo de construção da cidade moderna e suas repercussões socioespaciais385. Se o desenvolvimento da infraestrutura urbana das cidades contemporâneas é um processo político que envolve a ação de diversos atores, penso que a construção de shoppings e hospitais em Salvador e no tocante às relações firmadas em contrato com cooperativas de rádio táxi, interessadas em explorar corridas oriundas destes empreendimentos e de seu entorno, esses agentes observados em conjunto acabam por transformar esses espaços (pontos de táxi privados) em arenas de tensão, negociação e luta.

Em decorrência, os conflitos por usuários e corridas existentes entre taxistas cooperados e não cooperados nos pontos de táxi privados demonstram, como os não- cooperados rapidamente se adaptam e respondem de forma bastante criativa aos métodos dominantes de infraestrutura que regem a metrópole baiana386. Com isso, se por um lado os taxistas não-cooperados se encontram proibidos de frequentarem pontos e filas de táxi privadas, isso não acontece com os cooperados. Segundo os taxistas cooperados da Rodotaxi do ponto de táxi privado do Shopping Bela Vista, eles, se assim o desejarem, podem frequentar e explorar corridas em pontos e filas de táxi de rua. Também comentaram que existe tal proibição entre as cooperativas, até porque parte do lucro que ganham com as corridas realizadas é direcionado ao pagamento da autorização para a exploração da parte interna dos shoppings. Em todo caso, os taxistas cooperados do

383 Marcio Santana e Cid Jorge de Almeida Rangel, taxistas. Entrevista concedida ao autor em 17 nov. 2014. 384 Nelmo. Entrevista concedida ao autor em 17 nov. 2014.

385 MCFLARNE & RUTHEFORD, 2008, p. 364. 386 Ibid, p. 366.

Shopping Bela Vista dizem não “puxar fila” em pontos de táxi de rua, pois a demanda de corridas direcionadas pela Central de sua rádio é suficiente para que se torne dispensável.

[Gerson]: Aqui no caso é um ponto exclusivo, aqui só roda quem é da Rodotaxi. [Gerson e Sergio]: A gente roda bem pouco em outros pontos que não são da Rodotaxi, acontece, mas bem pouco da gente parar em ponto normal (de rua).

[Gerson]: Isso é devido à demanda de nossa Cooperativa a gente não está tendo como atender às nossas chamadas imagine a de outros pontos. [Sergio]: A gente não puxa fila.

[Gerson]: A gente não tem tempo para pegar outra fila. Mas isso não significa que a gente não possa parar em outras filas, a gente pode parar tranquilo, como é na Rodoviária.

[Sergio]: Em qualquer ponto a gente pode parar. Tem uns que são exclusivos, como é aqui. Aqui não pode rodar outro táxi não, só se for da gente (Rodotaxi). De outra cooperativa, se não for da nossa também não pode. É porque aqui a gente paga o rateio.

[Gerson]: A gente paga para isso387.

[Gerson]: Não existe conflito. Porque todos os taxistas sabem disso (da exclusividade do ponto). A outra sabe, a Elite Táxi sabe que aqui é Rodotaxi. A gente vai ali, encontrou um ponto a gente sabe que é da Elite Táxi. A gente vai lá buscar passageiros ou pegar uma chamada por telefone. Agora chegar lá no ponto parar e esperar vim um passageiro não pode isso.

[Sergio]: O Salvador Shopping mesmo é a Use Táxi. A gente não pode ir para lá.

[Gerson]: Iguatemi já é a Rodotaxi, aí cada um tem sua área. No Hospital da Bahia é a gente na porta, do Hotel Mercury também388.

Os taxistas afirmam não existir conflitos entre taxistas cooperados e não- cooperados ao disputarem corridas e espaço nos pontos e filas de táxi de Salvador. Isso não foi o que presenciei quando visitei a AMT. Em clima caloroso os taxistas que lá se encontravam sugestionavam ao Presidente da Associação empreender uma campanha junto aos taxistas do estoque Shopping da Bahia (Iguatemi), no intuito de conseguir junto à Prefeitura e por intermédio da Associação melhores condições de trabalho. Questionavam os taxistas ao Presidente sobre a necessidade de se construir uma casa que servisse aos taxistas como local de reuniões, a exemplo do que fizeram no Shopping da Bahia para os cooperados da Rodotaxi. Compreendendo os pontos e filas de táxis em Salvador como espaços onde também se discute política e os rumos da classe, respondeu o Presidente, que isto era uma medida que constava na pauta da luta de classe dos taxistas.

387 Gerson dos Santos, taxista; e Sérgio Gomes, taxista, 51 anos de idade, 3 anos de praça, A-4627,

motorista Permissionário, Ponto e fila de táxi do Shopping Bela Vista, Cabula. Entrevista concedida ao autor em 20 mar. 2014.

Esqueça isso e vá nos pontos, esqueça quem fala. Porque todo o taxista fala. Mas calou a boca de um monte de taxista. Esqueça esses 10%. Você tem que ser representante do ponto Iguatemi. O ponto Iguatemi, a gente está precisando se o Iguatemi colocou uma casa para o Rodotaxi porque a gente não pode botar a nossa base ali em cima. Porque se você disser assim, vamos à luta para gente botar uma também. A gente não tem Sindicato a gente só tem a Associação então a gente botar uma base ali em cima para gente conversar ali. Não tem o estoque, ali do lado tem um terreno. A gente bota ali para gente uma casinha para nossas reuniões; quando a gente for fazer a gente faz ali no Shopping Iguatemi. A gente sai, tem o Shopping o Sumaré, o Shopping Itaigara e o Shopping Bela Vista que não é nosso, então a gente tem que botar o táxi nosso lá também389. (informação verbal) Eu acho, você lembra daquele Shopping ali da Boca do Rio onde os taxistas ficavam no sol, a gente tinha projeto, inclusive eu já falei com o vereador Everaldo Augusto o seguinte: toda a construção daqui de Salvador tem que chamar a categoria porque eles botam você. Já viu o ponto de táxi do Iguatemi, do Shopping Itaigara, do Shopping Baixa dos Sapateiros, já viu tudo do lado de fora? Então, Shopping Paralela do lado de fora. Quer dizer, é uma falta de respeito para os taxistas que vão atender os clientes e é uma falta de respeito também com os clientes deles que saem com sacola chovendo. Então, velho, uma de nossas propostas é isso, que de agora em diante toda a construção de shopping tem que ter um ponto de táxi, discutir para o ponto de táxi ficar bem localizado, nego esquece390. (informação verbal)

Disse o Presidente da AMT que a questão física dos pontos de táxi deveria fazer parte das conversas que aprovam os projetos de construção de shoppings, hotéis e outros empreendimentos privados na capital baiana, tendo o cuidado de construir pontos de táxis com coberturas de proteção contra chuva ou sol, banheiros, vestiários e localização do ponto visível ao usuário. Como exemplo da necessidade de instalação de um ponto de táxi de rua, citou o Presidente da AMT o caso da transferência do SAC (Serviço de Atendimento ao Cidadão) Shopping da Bahia (Iguatemi) para o Shopping Bela Vista – único empreendimento privado que até o momento da pesquisa não havia estabelecido local apropriado para os taxistas não-cooperados, até porque esta mudança aumentou o fluxo de pessoas e consequentemente o número de corridas no local.

Se você não for da cooperativa no ponto do Shopping Bela Vista você não roda. Mas por outro lado, é obrigatório ter uma fila de rua e lá não tem. Isso é o que outros que não são de cooperativa têm que cobrar. Lá não tem, o único Shopping que não tem fila de rua só tem o estoque e isso é errado. Até agora cadê o Sindicato, cadê a Associação, não tem. Ali (Bela Vista) tem que ter uma fila de rua, isso não existe, isso é errado até porque agora não tem condições, agora que passou o SAC para lá eles (Rodotaxi), não vão ter condições de suprir aquilo tudo lá

389 Roberto Franco, taxista. Entrevista concedida ao autor em 20 mar. 2014.

(demanda de corridas) e ninguém também está querendo ir para Rodotaxi dar dinheiro a esses caras não391. (informação verbal)

É comum acontecer conflitos entre taxistas cooperados e não-cooperados de rádio táxi, especialmente quando um taxista não-cooperado por conta de uma corrida solicitada conduz um passageiro a empreendimentos onde os pontos de táxi são explorados exclusivamente por cooperativas. As situações de conflitos ocorrem caso o taxista não- cooperado saia com outro passageiro do local. O que para os taxistas cooperados é algo inaceitável e motivo de discussões mesmo que esta seja a escolha do usuário. Para todos os efeitos, neste momento, o táxi ganha o status de objeto de consumo prevalecendo o gosto do passageiro ou cliente e a livre concorrência entre os taxistas.

Outro dia eu entrei naquele hospital que tem ali no Rio Vermelho (Aliança) e lá tem Rodotaxi. Eu parei o passageiro saltou; a moça em seguida perguntou: está livre? Eu falei que estava o jagunço lá falou ô minha senhora! o carro é aquele ali. Ela disse eu quero ir nesse que quem está pagando sou eu. O carro é aquele mais eu vou nesse. Entrou e eu fui embora, mas ele disse que era para pegar o da Rodotaxi. Até os caras que não têm nada a ver com eles estão garantindo corrida para eles. Devem estar recebendo uma ponta dos taxistas para fazer isso392. (informação verbal)

Você tendo o alvará de circulação você pode rodar em qualquer ponto da cidade. Até nesses pontos que algumas rádio táxi têm convênio eu paro. Como Elite Táxi, Tele Táxi, um atrás do outro, eu chego na cabeça da fila eu puxo. Eu só não tenho o rádio para modular. A vantagem que ele leva que às vezes eles saem antes de mim. A central de rádio chama ele como eu já fui de rádio também, fui da Alô Táxi, trabalhei uns 7 anos lá, mas proibir de parar não existe – isso pelo menos comigo. Aqui na Rodoviária a mesma coisa, pode vim carro de Locadora, de Cooperativa rádio táxi que aqui pode rodar393. (informação verbal)

Em outros casos, os taxistas não-cooperados ignoram a proibição de rodar em pontos privados e se colocam na fila juntos aos taxistas cooperados a disputar corridas. O que lhes motivam de certa forma a desafiar os cooperados em seus próprios espaços é a compreensão de que são detentores de um alvará de rodagem para explorar o serviço de táxi na cidade. Acreditam, portanto, que sendo possuidores dessa autorização dada pelo poder municipal, têm o direito de rodar e disputar corridas em qualquer ponto ou fila de táxi. Os taxistas não-cooperados, em sua maioria, encontram-se em total

391 Boy, taxista. Entrevista concedida ao autor em 26 mar. 2014. 392 Ibidem.

desacordo em relação a esse tipo de seleção, privilégio e fonte de conflitos que é a existência dos pontos e filas de táxi privados na capital baiana.