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Portrait et perceptions de l’espace cellulaire

CHAPITRE 6 : LA CELLULE, UN REFUGE DE L’INTIME?

1. Portrait et perceptions de l’espace cellulaire

Os termos folclore e cultura popular, em muitos casos, são confundidos enquanto sinônimos. Logo, devemos fazer uma breve distinção, visto que o folclore pode se manifestar como cultura popular por meio de eventos e representações artísticas que venham a utilizar conteúdos folclóricos em sua composição. Mas o contrário não é possível. O que é classificado como cultura popular não deve ser imediatamente considerado folclore.

A impossibilidade de configurá-la como um sistema cultural coeso é um dos aspectos que nos permite distingui-la do folclore.

Na análise da cultura popular não cabe um estudo homogeneizante pois que se colocam juntas práticas e sentidos tão heterogêneos tais quais os que encontramos dispostas na diversidade dos grupos sociais. Em outras palavras, cultura popular é uma forma simplificadora de falar de uma realidade muito heterogênea que ao mesmo tempo em que abarca o folclore, está menos preocupada com a repetição de traços típicos. Conforme aponta Henrique Rocha:

A cultura popular tem de tradicional o que lhe é oriundo do conhecimento e práticas populares associadas ao cotidiano, porém, com mais desprendimento em relação à tradição, reunindo em seus fazeres elementos próprios de dinâmica cultural na qual está inserida sua vivência42.

Para alguns dos defensores do folclore (enquanto sinônimo de tradição), a mudança, a adoção de novos traços adquire um teor pejorativo, o que estaria ligado aos aspectos da dominação e da sobreposição dos meios de comunicação de massa e da indústria cultural. Essa perspectiva de deterioração é reforçada pelas concepções equivocadas que demonstram ignorância em relação à abrangência do folclore enquanto prática e vivência. É exatamente essa perspectiva conservadora que facilita a identificação do folclore com a imagem do exótico, do ultrapassado e distante. Na nossa concepção, o folclore está relacionado à tradição nas formas de viver e criar, mas também pode estar inserido no domínio do universo maior da cultura e também implícito na cultura popular.

A cultura popular auxilia o folclore a se movimentar e, em lugar de se atrelar a uma verdade primeira, longínqua, é arrastado pelo próprio impulso do tempo podendo ser inventivo em relação ao sentido inicial de onde herdou suas raízes. Se assim o auxilia, é porque ela já realiza este movimento sem grandes perdas. Pelo contrário, continua sabiamente acumulando significados. De acordo com a tríplice dinâmica de Raymond

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ROCHA, Henrique. Refletindo os Conceitos de Folclore, Cultura Popular e Tradição.In: Antropologia das Coisas do Povo. Clerton Martins (org.).São Paulo: Roca, 2004. p.p. 1-20. (p.17)

Williams43, a boa relação entre tradição e cultura popular se dá através da interpolação entre o arcaico, o residual e o novo. O arcaico seria composto pelos elementos de rememoração que efetivamente são mantidos no passado, pois perderam sua dinâmica no presente; o residual seria o âmbito dos elementos formados no passado, mas que mantém viabilidade no presente; e o novo representa um processo claro de inovação a partir das práticas e significados do passado.

Embora procure ser fiel à tradição, os fenômenos da cultura popular agregam novos significados e conotações ao que tenta reconstituir. Isso equivale dizer que estão sendo agregados à prática, elementos exteriores que permitem a ressemantização da expressão original. Por exemplo, ao encontrarmos danças folclóricas, recitais, músicas em cds, livros ou internet, esses instrumentos não representam a manifestação folclórica em si, mas seu registro em segunda mão. Por outro lado, os produtores da cultura popular necessitam acompanhar a evolução dos recursos tecnológicos, não apenas para o registro da tradição, mas para divulgação e até mesmo a continuidade do seu trabalho. É nesse sentido que a cultura popular promete inovações e, frequentemente, se torna criativa.

No artigo referendado “Refletindo os Conceitos de Folclore, Cultura Popular e Tradição”, Henrique Rocha explica que a cultura popular pode se apoiar em recursos tecnológicos materiais, discos, filmes, livros, enquanto o folclore sente a precariedade desses recursos. Os portadores do folclore possuem um patrimônio imaterial que é transmitido por meio das narrativas orais, da prática de ritos e pelo próprio hábito adquirido. Já os produtores de cultura popular estão preocupados em destinar recursos ou suportes do folclore que derivem à manutenção da tradição redimensionada.

Portanto, investigar a cultura popular permite também problematizarmos o grau de afastamento do fato folclórico das sociedades tradicionais e o modo como se dá a reelaboração de conteúdo. O folclore lança mão de valores, padrões de comportamento,

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WILLIAMS, Raymond apud MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos Meios às Mediações. Comunicação, Cultura, Hegemonia. 2ed. Rio de janeiro: Editora UFRJ, 2003

objetos e costumes, expressões materiais e imateriais que são subsídios para a elaboração de pontos de vista sobre as relações sociais. A cultura popular vinculada ao folclore elabora padrões éticos e estéticos específicos que apresenta certas similaridades e permite inseri-la como gênero específico de produção cultural, seja ela, teatro, poesia, música ou dança. Além disso, é partilhado por um conjunto formado por produtores e público que comungam desta temática e se aproveitam dos pontos de vista próprios ao lugar social objetivo do folclore, para fazer frente a determinadas posturas artísticas e intelectuais.

Contudo, escapa ao controle dos atores sociais o que vai se tornar folclore, tradição ou cultura popular. Isto é, não existe um esquema intencional do qual derivem hábitos e recursos simbólicos que se destinarão à manutenção da tradição. A seleção é praticada por todos. Porém, não deixa de ser seleção quando a cultura popular elege a preferência por determinadas manifestações culturais, pela poesia, por danças, pelo linguajar. Tudo acontece como se houvesse um esquema de realimentação, em que folclore, tradição e cultura popular vão se atualizando. Rocha detecta que: “passa a existir hoje é um comportamento dos grupos ligados à prática da cultura popular e do folclore, tanto no meio rural quanto urbano, visando à organização e ao planejamento de sua produção cultural44”.

A perspectiva da cultura popular, assim como a do folclore, sobrevivem nas regiões periféricas, onde ocorre uma simbiose entre o popular tradicional e as políticas regionais. Isto acontece porque o estudo da cultura popular está associado não apenas aos movimentos de arte, mas também aos avanços da consciência regional, oposta à centralização do Estado, que sabiamente soube utilizar o prestígio popular do folclore para dar um sentido de continuidade à nação. Ortiz elucida que “O estudo da cultura popular é uma forma de consciência regional quando ela se opõe ao estado centralizador. Não é casual que os folcloristas predominantemente se concentram em regiões periféricas como o Nordeste”45.

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Op. Cit. p. 13

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O autor elege Gilberto Freyre como paradigma de intelectual preocupado com a temática regional e ao mesmo tempo, preocupado em emular seu capital cultural.

De acordo com Ayala & Ayala46, Mário de Andrade foi o primeiro autor brasileiro a romper com a questão da tradição como comprovação do folclore e foi além, definindo o fato folclórico pelo processo de criação e das técnicas utilizadas. Ele foi pioneiro também na inclusão da produção urbana na cultura popular. Mário de Andrade volta-se para uma pesquisa sobre dança, música, literatura, medicina e religiosidades populares, porém com interesses que estavam ligados a um projeto artístico mais abrangente47. Como diretor do departamento municipal de cultura promoveu um curso de Antropologia destinado à preparação de pesquisadores de campo e ministrado por Lévi-Strauss. O modernista estava preocupado com o caráter da pesquisa e da coleta de dados realizada até então, e

(...) coloca em discussão o caráter tradicional como requisito para a pesquisa folclórica em um país como o Brasil, onde a quase total inexistência de documentação e a rapidez das transformações tornam impossível comprovar a secularidade das manifestações culturais populares 48.

Mas é com o movimento cultural da década de 60, mais precisamente com os intelectuais do CPC (Centro Popular de Cultura), que se rompe com “a identidade forjada entre folclore e cultura popular. Enquanto o folclore é interpretado como sendo as manifestações culturais de cunho tradicional, a noção de cultura popular é definida em termos de transformação”. 49 A partir de então, a cultura popular deixa de se preocupar com os recursos da tradição e torna-se um projeto político de reforma e redenção para o povo. De tal modo que vai-se assumindo enquanto base de uma política cultural. A partir deste debate surge a questão dos intelectuais e a organização da cultura, que será desenvolvida em item posterior.

46

AYALA e AYALA, 1987.

47

Sobre a relação Modernismo x Regionalismo, aprofundar-se na tese de Neroaldo Pontes de Azevedo.(Regionalismo e Modernismo, os anos 20 em Pernambuco).

48

AYALA e AYALA, Op. Cit., p.27

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O movimento intelectual do CPC nos obriga a lembrar uma diferenciação necessária do sentido do “popular” numa discussão materialista e a “cultura popular” no geral. O termo “popular” remete, no primeiro caso, às condições sociais e econômicas de subordinação. Enquanto a cultura popular permite abarcar uma gama de grupos que “convergem em um projeto solidário50”. Há quem acredite51 que o substantivo povo, foi atenuado pelo adjetivo popular, seguido da palavra cultura. Assim o termo “cultura popular” seria apenas pacificador dos efeitos revolucionários que designam a palavra povo.

No âmbito da Sociologia, alguns autores52 se permitiram incorporar a elaboração simbólica do povo a partir de seu lugar relativo nas relações de produção. Todavia, Roger Chartier53 pondera que o uso da palavra cultura no intuito de descrever crenças e comportamentos próprios das classes operárias foi de ocorrência relativamente tardia. Já a incorporação dos múltiplos usos do popular ampliou a noção de povo para além da classe operária e fez reconhecer outras formas culturais, tais como as culturas tradicionais.

Conforme indicação de Canclini54 a cultura popular não corresponde com precisão a um referencial empírico, a sujeitos ou situações nitidamente identificáveis com a realidade. É mais um campo de trabalho que um objeto de estudo cientificamente delimitado com características bem definidas. Neste campo está incutido um conjunto de práticas culturais e bens simbólicos. De acordo com sua formulação de “culturas híbridas”, devemos considerar grande parte de movimentos urbanos na construção das culturas populares e não podemos atribuir às culturas tradicionais e camponesas a representação majoritária da cultura popular.

Caberia ainda acrescentarmos que a categoria “cultura popular” dá margens para as interpretações folcloristas que vêm do popular tradicional; acopla o popular dos meios

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CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas. Estratégias para entrar e sair da modernidade. 3 ed. São Paulo: EDUSP, 2000 (Ensaios Latino-americanos 1), p. 272.

51

GENEVIÈVE, Bollème.O Povo por Escrito. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

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Podemos citar Edward Thompson e sua obra emblemática A Formação da Classe Operária Inglesa, publicada em três volumes.

53 CHARTIER, Roger. Cultura Popular: revisitando um conceito historiográfico. In: Estudos Históricos. Rio

de Janeiro, vol. 8, n . 16. 1995, p.p. 179-192.

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massivos, que procuram apreendê-lo pelo intuito da popularidade, e condiciona também o popular dos discursos políticos, que se apropria da modalidade Povo como estratégia de aprovação.

Roger Chartier55 nos alerta para o dado de a cultura popular, talvez por estar sujeita a apropriações, ser uma categoria designada de fora e nunca pelos seus próprios autores. A exemplo, podemos observar como determinadas obras da música, da arte e da literatura brasileiras são interpretadas como popular fora do território nacional. Ou como costumamos designar de popular qualquer expressão cultural marginalizada.

O termo cultura popular é culturalmente objeto de um jogo de hierarquizações, sujeito à consagração ou à desqualificação. De um lado, ele nos oferece indícios de como as diferenças culturais podem servir para legitimar as desigualdades sociais, ou seja, como as crenças, as práticas, os conhecimentos de uma dada sociedade passam a ser discriminados a partir de sua definição. De outro, observamos que esta fórmula é empregada com sucesso, por exemplo, para nomear exposições de arte, galerias museológicas, peças de teatro, programas de televisão.

Considerando o meio onde está inserida sua produção, devemos admitir ainda os produtores e consumidores da cultura popular como participantes de outras esferas do circuito cultural, como o folclore, a cultura de massa e a cultura erudita. Portanto, é por meio da noção de mediação simbólica que pretendemos realizar a união de significados tão dispersos e transitórios que se conjugam na categoria de cultura popular, assim como entender porque ela favorece tantos deslizamentos.

O sentido de cultura popular, estabelecido para este trabalho, está no princípio de que dentro deste grande leque que é a cultura popular, encontramos uma determinada vertente que corresponde a uma releitura do folclore sertanejo ligado à tradição oral do repente, do cordel e da poesia declamatória, mais precisamente encontrada nos textos poéticos de Lourdes Ramalho, Astier Basílio, Jessier Quirino e Bráulio Tavares. Para estes

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artistas a tradição está afetivamente relacionada aos pequenos elos de parentesco, costumes, falas, hábitos e símbolos de tradições locais. Mas ao mesmo tempo a tradição é mediatizada como crítica à sociedade atual e suas perspectivas de futuro.

A compreensão mediadora da cultura popular como compósito de bens simbólicos, reorganiza a inter-relação entre folclore e os modernos meios de comunicação. Neste caso, compreendemos que a chamada cultura de massa favorece as bases para uma atuação mais abrangente da cultura popular.