Todas as manhãs do mundo (1991) é um livro que relata as relações entre Marin Marais e seu mestre, o violista Sainte Colombe. O Senhor de Sainte Colombe ficara viúvo da mulher que tanto amara, a mãe de suas duas filhas. A viuvez e o luto do grande músico são vividos com muita austeridade, uma vez que Sainte Colombe se isola do mundo e passa a maior parte do tempo em uma cabana construída no fundo do jardim de sua casa, à beira do rio Bièvre. Ali, durante seus longos e melancólicos exercícios musicais em sua viola de gamba, o fantasma de sua esposa o visita de tempos em tempos, principalmente quando ele executa a famosa peça “O túmulo dos lamentos” (Le tombeau des regrets), composto para ela. Marin Marais, por sua vez, havia sido expulso do coral da igreja de Saint-Germain l’Auxerrois porque sua voz havia mudado, tornando-se grave. Marais desejava que Sainte Colombe o tomasse como discípulo, mas, apesar de todo o talento, ele não foi aceito pelo mestre: Marais havia tocado para o rei, o que, aos olhos de Sainte Colombe, era uma falta imperdoável.111
111 Pascal Quignard tem o século XVII francês como uma de suas épocas de predileção. Jean de Sainte Colombe,
compositor francês (1611-1678), foi amigo dos jansenistas, o que explica, em parte, a sobriedade e a austeridade de sua vida. O jansenismo foi um movimento religioso e político que se desenvolveu em alguns países da Europa, entre meados do século XVII e meados do século XVIII. Esse movimento se contrapunha a certas evoluções da Igreja católica e combatia o absolutismo monárquico. Para que se tenha uma ideia da complexidade do chamado “grande século”, seria preciso mencionar que, no campo literário, esse foi também
Inconformado com o desprezo do mestre, Marais passa a frequentar a casa de Sainte Colombe às escondidas, ajudado por uma de suas filhas, de quem se torna amante. O jovem músico se esconde sob a cabana do mestre a fim de ouvir os seus exercícios musicais e desvelar o segredo de suas famosas árias.
Marais tornou-se um importante músico da corte do rei Luis XIV; no entanto, o enigma da arte de Sainte Colombe nunca deixou de persegui-lo. Assim, anos mais tarde, já consagrado como músico, Marais volta à casa de Sainte Colombe pedindo-lhe novamente que o aceite como aluno, convencendo o mestre a lhe dar a primeira lição de música após ter-lhe dito que começava a perceber que os sons podem servir a algo bem diferente de dançar ou de agradar aos ouvidos do rei.
Certo dia, a caminho da casa do pintor Baugin, o Senhor de Sainte Colombe segurou Marin Marais pelo braço e colocou o dedo sobre os próprios lábios, em sinal de silêncio: “Caminhavam ruidosamente, com a parte superior do corpo inclinada sobre o caminho, lutando contra o vento que lhes açoitava os olhos abertos. – ‘Estais a ouvir, Senhor, gritou ele – assim se destaca a melodia do baixo’” (QUIGNARD, 1991, p. 45). Na casa do pintor, o Senhor de Sainte Colombe chamou novamente a atenção de Marais para o barulho do pincel deslizando sobre a tela:
Escutai o som do pincel do senhor de Baugin. Fecharam os olhos e ouviram-no pintar. Depois, o Senhor de Sainte Colombe disse: – ‘Haveis aprendido a técnica do arco’. E porque o Senhor de Baugin se virara e os interrogava acerca do que entre si estavam murmurando, disse o Senhor de Sainte Colombe: –‘Estava eu a falar do arco e comparava-o ao vosso pincel’ (QUIGNARD, 1991, p. 48).
Depois da visita ao pintor, quando caminhavam de volta para a casa, Sainte Colombe deteve novamente o seu discípulo, segurando-o pelo braço. Diante deles, um menino urinava, e o jato de urina abria um buraco na neve. “O ruído da urina quente furando a neve misturava- se ao ruído dos cristais da neve que iam fundindo. Sainte Colombe tinha outra vez o dedo nos lábios: –‘Haveis aprendido a tocar desligado dos ornamentos’ – disse” (QUIGNARD, 1991, p. 50).
o século de Molière (1622-1673), Racine (1639-1699), Corneille (1606-1684), La Bruyère (1645-1696), e outros. No campo das artes plásticas, podemos citar Georges de La Tour (1593-1652), Nicolas Poussin (1594-1665), etc. No campo das ideias, é possível evocar os nomes de Blaise Pascal (1623-1662) e René Descartes (1596-1650). Pascal Quignard se interessa pelo XVII francês na medida em que várias tendências se contrapunham no campo das artes e da filosofia. Mais do que isso, os limites entre filosofia e literatura encontravam-se, nesse século, praticamente apagados. Vale lembrar que Pascal Quignard dedicou alguns de seus escritos a Sainte Colombe, a Jean de La Bruyère, a Georges de La Tour e a outros.
O barulho quase imperceptível do pincel deslizando sobre a tela, o assobio do vento açoitando o rosto, o ruído da urina quente abrindo um buraco na neve são algumas das figuras do “sordidíssimo” que parecem nesse romance. Essas “minúcias” podem, segundo nosso ponto de vista, ser incluídas na lógica do “sordidíssimo”, uma vez que se trata aqui de detalhes que poderiam ser insignificantes, que por pouco passariam completamente despercebidos, mas que, ao contrário, são isolados e têm seus estatutos imediatamente invertidos. O Senhor de Sainte Colombe atribui a esses ruídos simples, associados muitas vezes aos sons da natureza, o segredo de técnicas musicais sofisticadas. É dessa forma que tais detalhes passam a ter um valor agalmático, já que, através deles, é possível apreender a natureza e a verdadeira função da música; pelo intermédio desses detalhes, é possível se aproximar da perfeição.
De forma semelhante, os objetos que o Senhor de Sainte Colombe dispõe sobre a mesa de sua cabana são os que lhe permitem entrar em contato com sua mulher morta. Em outras palavras, a garrafa de vinho forrada de palha, o copo de vinho de pé alto, o prato de estanho com alguns biscoitos enrolados são, num primeiro momento, meros utensílios. A dimensão sordidíssima desses objetos reside no fato de eles tornarem, de certa forma, o perdido acessível. O “sordidíssimo” em Todas as manhãs do mundo tem, assim, esta particularidade: eles estão intimamente associados à música, que, por sua vez, é suscetível de presentificar o perdido. As aparições da Senhora de Sainte Colombe ao som do “Túmulo dos lamentos” bem o comprovam.