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O portfólio foi uma forma de avaliar aprendizagens dos alunos na proposta curricular. Assim, a idéia era que cada um tivesse sua pasta pessoal para arquivar suas produções e que todos levassem essa pasta ao saírem da FEBEM.

Nas entrevistas com os/as adolescentes, eles/as comentaram suas relações com o portfólio.

3.3.6.1 Registro enquanto memória

Muitos jovens falaram da importância dos registros contidos no portfólio por ser uma memória que possibilitava o resgate de suas aprendizagens, como apontam os depoimentos.

“Pra guardar nossos conhecimentos [o portfólio], porque quando a gente vai

34 Na análise de sua pesquisa Charlot (2001) também constatou, por meio de depoimentos dos alunos que

“Reclamou-se (...) de xingamentos de professores contra alunos, qualificados de “burros”, “retardados”. (p.46).

embora a gente leva né? Aí então chega lá fora (...) eu não tô lembrando daquilo direito que eu aprendi, então eu vou voltar lá e vou ler de novo né? Sabe o que eu aprendi na UIP? Aprendi que nós temos nossos direitos e que quem tem que garantir nossos direitos é a nossa família e agora o resto eu não lembro... Aí eu vou lá a família, o governo e a sociedade” (adolescente UIP F, 10/03/04).

“Porque ali [no portfólio] a senhora encontra tudo que a gente tá aprendendo na unidade. Isso aí um dia ou outro a gente pode pegar e lembrar” (adolescente UIP M, 10/11/03).

Eu gostaria muito de ficar comigo os portifólios porque (...) eu posso tá indo pra outra unidade, chegar na outra unidade: “Pô não lembro daquele negócio”. Vou ver no meu portfólio (...)” (adolescente UIP M, 10/11/03). “Porque é uma forma de organização pessoal [o portfólio], dos nossos trabalhinhos (...) todo dia eu pego folheio um por um e lembro (...)”(adolescente, UIP M, 08/03/04).

Mais do que simples memória, o portfólio também possibilitou aos adolescentes oportunidades de expressão, de reflexão e por isso era uma memória que fazia sentido para eles/as.

“Tenho, tenho pasta sim, inclusive sair daqui pretendo levar ela comigo sim meu, porque aqui dentro em certos momentos a gente teve oportunidade de expressar o que a gente tava sentindo, o que a gente pensa. A gente teve tipo uma certa liberdade ali naquela folha e ali eu escrevi muita coisa pra mim que surgiu de dentro de mim e que eu achei bacana pra caramba. Eu quero levar pra guardar de recordação sim meu, isso aqui vai ser uma história e tanto pra mim” (adolescente, UIP M, 08/03/04).

Interessante que uma adolescente da Unidade F durante uma entrevista realizada em 03/06/04 falou sobre a forma com que a escola regular avalia seus alunos comparando-a com a avaliação realizada no projeto.

"(...) eu tenho medo de um dia eu sair daqui [UIP] e não querer voltar estudar (...) porque a escola lá é diferente (...) tem que se esforçar sozinha, fazer prova totalmente diferente, aqui [no projeto] a gente faz uma avaliação que é o que a gente pensa, o que a gente acha, não o que a gente tem que colocar no papel que a gente leu no livro uma semana pra depois fazer a prova entendeu? É o que a gente sente, é o que a gente pensa do que a gente achou (...) a avaliação é totalmente diferente, agora a avaliação lá [na escola regular] eles dão o papel, uma caneta e fala: é isso aqui, você leu a semana inteira, você estudou a semana inteira, mas no outro dia você (...) esquece, você esquece, porque não é de você (...)".

adolescente falar que os conteúdos obrigatórios para fazer a prova são esquecidos no dia seguinte, evidencia que essa forma de avaliar não possibilitou aprendizagem e, portanto, não fez sentido nenhum para ela.

3.3.6.2 Registro enquanto “passaporte de saída da FEBEM”

Como os psicólogos, professores e assistentes sociais que trabalhavam na FEBEM utilizavam os portfólios dos/as adolescentes para a elaboração do relatório que servia de subsídio para o juiz avaliar o comportamento dos/as adolescentes durante o período em que permaneciam nas UIPs, alguns alunos explicitavam uma certa preocupação com a pasta por esse motivo.

“Tem que cuidar porque esse negócio [portfólio] tem que ir para o relatório, esse daí é onde vai colocar todas suas fichas, todo seu trabalho (...)” (adolescente, UIP M, 08/03/04).

“(...) muita gente fala: “Ah, eu vou fazer isso aqui bem feito [portfólio] que vai pro meu relatório” (adolescente, UIP M, 08/03/04).

“Também quando ela [professora] vai fazer o nosso relatório, ela fala assim: “(...) eu vou fazer o seu relatório agora, então vocês, a sala, fiquem quietos, por causa que eu vou fazer o relatório”. Aí, cada um respeita, porque, tipo assim, uma vez ou duas vezes por mês sobe o relatório de cada um, como é que vai na escola, e tal, tal. Aí, nós ficamos em silêncio porque ela tá baseando no que ela viu (...) Porque ali, ela tá avaliando se nós temos possibilidade de sair ou não [da FEBEM]. Ela também tá dando uma ajuda pra nós, ela tá vendo os nossos (...) desenhos, nosso tipo de resposta de pergunta que ela faz, ela tá baseando se nós tem chance ou não tem” (adolescente UIP M, 10/11/03).

“Bom, certa parte aqui todo mundo tenta participar mais pelo relatório (...)” (adolescente UIP M, 10/11/03).

O portfólio não foi pensado na proposta curricular para servir de “passaporte de saída da FEBEM” ou para manter a disciplina na sala de aula. Porém, nota-se que para alunos e professores a pasta também funcionava como uma instância de controle35.

35 Segundo Foucault (1987) trata-se do exame que “(...) combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da

sanção que normaliza. É um controle normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados (...) Nele vêm-se reunir a cerimônia do poder e a forma da experiência, a demonstração da força e o estabelecimento da verdade (...) A superposição das relações de poder e das de saber assume no exame todo seu brilho visível” (p.154).