Chapitre V. les transformations de l’art musical
4. LA NOTION DE RÉVOLUTION
Azevedo, Carlos Romero. Sentados da esquerda para direita: Afonso Pereira e Hamilton Pequeno.
Segundo Oliveira; Lima; Morais (2012, p. 61), apesar de todas as dificuldades em manter o funcionamento dessa entidade apenas com o pagamento dos associados, o grupo acreditava ser possível fomentar ações culturais visando o progresso educacional da sociedade paraibana. Além da escassa verba para a manutenção, a sociedade contava com outra dificuldade a ser vencida, a falta de estrutura física, já que a entidade não possuía sede própria, conseguindo sempre se reunir devido à boa vontade de simpatizantes que cediam espaços momentâneos para que fossem realizadas as reuniões.
Em 1943, é fundada a Sociedade de Cultura Musical da Paraíba, com a finalidade de incentivar criações de orquestras e realizar conferências alusivas a compositores eruditos. Dois acontecimentos importantes marcaram a presença desta Sociedade, que conseguiu criar a Orquestra Sinfônica da Paraíba em 4 de novembro de 1945 e realizar o 1º Congresso de Música do Nordeste em setembro de 1949. (RIBEIRO, 1983, p. 04 apud SILVA, 2006, p.120).
Dois anos depois, ou seja, em junho de 1945, a Sociedade de Cultura Musical adquiriu personalidade jurídica, e, em 27 de julho desse mesmo ano, passou a ser reconhecida como de utilidade pública (OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p. 38). Apesar de todas as dificuldades essa Sociedade sobreviveu, ao que parece, até o ano de 1965 quando teve sua última ata escrita.
Aqui vale registrar os últimos nomes que figuram na ata de 14 de maio de 1965, são eles: Afonso Pereira, Mário Moacyr Porto, Rino Visani, Raul Córdula, Neyde Azevedo dos Santos, Francisco Trocolli, Hermano Gouveia, Maria Yolanda de Seixas, Maria Gouveia, Dante Tomei, Edna Maria Pereira Souto, Maria Bernadette de Sá, Mércia Barbosa, Maria Odília Souto, Péricles Leal, Carlos Romero e Manuel Cavalcanti. (OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.173).
De uma extensa lista de contribuições à cultura paraibana, a Sociedade deixou como legado a realização de audições musicais75 e concertos. A
75 As audições públicas consistiam em palestras-audições na qual os membros da Sociedade
realizavam uma exposição sobre a vida e obra de grandes compositores seguida da audição de obras destes. A primeira audição foi realizada em 17 de novembro de 1943 por Augusto Simões e a última, em 19 de janeiro de 1946 por Hamilton Pequeno. Ao todo foram contabilizadas quarenta e duas audições. (OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.173).
publicação dos Boletins da Sociedade de Cultura Musical76, o programa de rádio Paisagem Sonora77, o Congresso de Música do Nordeste78, a criação da Orquestra Sinfônica da Paraíba79 e do Conservatório Paraibano de Música80.
Dentre as importantes ações desenvolvidas por essa Sociedade destacadas acima, foram, sem dúvida alguma, a fundação do primeiro Conservatório Paraibano de Música e a criação da Orquestra Sinfônica do Estado as que geraram reações mais veementes. Parte do empenho desse grupo, no sentido de elevar a cultura musical do estado equiparando-o com outros centros como Recife e Natal, que por sua vez, já possuíam orquestras e conservatórios, visava atender uma demanda não contemplada até então pelas escolas particulares existentes na capital, que, de modo geral, restringiam-se a ensinar o piano. As ações da Sociedade, porém, ao invés de gerarem o entusiasmo daqueles que participavam das atividades musicais do estado provocaram reações de oponentes.
O Boletim da SCM nº 4 de 13 de julho de 1947 trata dessa questão expondo a oposição encontrada às ideias trazidas pela referida Sociedade e seus idealizadores, além de denunciar uma espécie de “pianomania” reinante na capital na década de 194081:
Nossa campanha era feita sem qualquer referência pessoal, com absoluta isenção de ânimo – pelas colunas dos jornais da terra. Só nos movia a propaganda da nossa associação e dos seus altos fins. Aqui, acolá, ligeira crítica musical. Ligeiras referencias, delicadas e sem maldade, à pianomania reinante
76 O Boletim da Sociedade foi criado em 15 de maio de 1947 e era distribuído quinzenalmente
aos assinantes. “Não se sabe ao certo o número de volumes publicados, os registros apontam que foram vários, entretanto não se tem notícia do período em que foram interrompidas as tiragens” (OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.111).
77 O programa de rádio Paisagem Sonora surgiu a partir do anseio de se ter um programa
paraibano que contemplasse a audição de música clássica. Acontecia aos domingos das 10h00 as 11h30 da manhã na Rádio Tabajara, contando com a transmissão dos sócios Hamilton Pequeno e Carlos Romero que faziam parte da entidade.
78 Segundo Oliveira; Lima; Morais (2012, p.123) a Sociedade de Cultura Musical - SCM realizou
entre o período de 03 a 07 de novembro de 1949 o I Congresso de Música do Nordeste sobre o qual discorreremos mais adiante com mais detalhes.
79 A principal criação da SCM talvez esteja na idealização e na concretização da Orquestra
Sinfônica da Paraíba, que aconteceu “no dia 04 de novembro de 1945, na sede da Associação Paraibana de Imprensa [...] sua memorável noite de estreia se deu no Cine Plaza, no dia 29 de maio de 1946.” (OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.148-149).
80 Muitos aspectos sobre a história do Conservatório Musical Paraibano encontram-se no livro
recentemente publicado, por Oliveira; Lima; Morais, (2012).
81 Tal termo - pianomania - apresentado no Boletim da Sociedade assemelha-se ao usado por
nesta Capital, à qual consideramos e consideramos [sic] prejudicial à educação artística do nosso povo que da Música ficaria (na falta do ensino de outros instrumentos) somente conhecendo um dos seus modos, e às vezes bem precário, de expressão. Nenhum dos professores de piano desta Capital se acharam tocados ou se abespinharam com o nosso modo de ver. Porque concordavam com ele, como disso nos deram confirmação verbal. A Escola de Música Anthenor Navarro, entretanto, foco vivíssimo, poderoso e altamente comercial dessa pianomanía aguda, tomou-se de dores, de melindres, de agravos diante das nossas justas e serenas restrições, e, daí, começou uma grita, um barulho de fim de mundo pelos Arrais das altas rodas pianísticas desta Capital. Não ficou, porém, a coisa somente no barulho. O diretor e proprietário da famosa escola de Música que só ensina piano, foi mais prático, mais positivo, na justíssima reação contra a campanha que tantos prejuízos lhes poderia trazer. (BOLETIM 4 de 13 de julho de 1947 apud OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.106)
Nas imbricações das relações humanas, essas reações partiam de uma rivalidade existente entre os professores e os cursos particulares de música da capital, que buscavam a concorrida posição de melhor escola paraibana. Tal fato fica evidenciado ao consultarmos as notas publicadas nos jornais da capital e principalmente, nas falas da professora Therezinha Aquino, que ressaltou os humores alterados e a presença de uma ciumeira entre os professores e as respectivas escolas, principalmente quando um aluno se destacava ou resolvia mudar de escola ou de mestre.
[...] Uma certa rivalidade. Era, existia. Existia. Agora era, na época a gente... eu era mais, era criança ainda né? Nessa época mesmo que, eu não prestava muita atenção, não. Mas eu sei que existia uma certa rivalidade. Um pouco de ciúme de um professor pra outro. Quando se saia de uma escola e ia pra outra (Therezinha Avellar de Aquino, 2012).
O professor Gazzi de Sá (1901-1981) e a Escola de Música Anthenor Navarro destacavam-se neste cenário, seja pela capacidade de atuação deste intelectual, seja pelo comprometimento deste com a qualidade e com a organização da estrutura de ensino da Escola de Música Anthenor Navarro. Foram estes predicados, no nosso entendimento, que marcaram definitivamente a referida Escola de Música para a posteridade consolidando seu nome e sua permanência na cidade.
Por outro lado, o nascimento do Conservatório Paraibano de Música, um sonho idealizado de forma grandiosa e nunca visto antes na Paraíba, provocou veementes reações contrárias oriundas da Escola ‘mais importante’ da época. O plano audacioso de concretização de um Conservatório na Paraíba tinha como meta principal viabilizar a existência de um espaço escolar que contemplasse o ensino de diversos instrumentos musicais e áreas da música. Esse franco debate de ideias retratado em jornais e boletins da época não contribuiu muito para o avanço da música na Paraíba e deixou algumas sequelas nos participantes, nos sócios da SCM e no próprio professor Gazzi de Sá82. Entre os danos à cultura paraibana podemos citar a transferência definitiva do professor Gazzi de Sá para o Rio de Janeiro, em 1947.
Tanto Ribeiro (1995b) como Silva (2006) lançam outro posicionamento para a reação antagônica de Gazzi de Sá à criação de uma orquestra na Paraíba. Tal fato se deu, segundo os autores, pois o mesmo acreditava que na Paraíba não havia pessoas suficientemente habilitadas para a formação de uma orquestra, além disso, colocava em questão a falta de formação especializada dos idealizadores do projeto, já que eram na maioria jornalistas.
Esse perfil, de certa forma, coadunava-se com a de outros centros musicais, como por exemplo, o Rio Grande do Sul, que teve o Instituto de Belas Artes, assim como o Conservatório de Música, fundados em 1908, a partir de uma iniciativa particular de cidadãos de elevada posição social, mas que não tinham formação musical, tais como o médico Olinto de Oliveira, Dr. Ezequiel Ubatuba, os advogados Plínio Alvim e Joaquim Birnfeld entre outros.
Em abril de 1908 o presidente do estado do Rio Grande do Sul, Dr. Carlos Barbosa Gonçalves, envia correspondência endereçada a cidadãos de destacada posição social na cidade de Porto Alegre tendo como intuito promover a fundação de um Instituto Livre de Belas Artes[...]. (WINTER, 2008, p.198).
Mesmo sem formação especializada, esses grupos e sociedades foram responsáveis pela criação de diversas entidades musicais especialistas. Assim Os jovens da SCM acreditavam que era preciso desafiar os ditames políticos, conclamar a sociedade, alardear para fazer jus ao direito de acesso aos aparelhos culturais no Estado.
Razão pela qual não se limitavam a reclamar, mas buscar desafios [...] (OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.147-148).
Este pensamento impeliu os sócios da SCM à criação do Conservatório Paraibano de Música, pois, já que não havia mão de obra habilitada, o ensino de todos os instrumentos contemplados no Conservatório seria uma forma de criar os meios da qual precisava a Paraíba para que pudesse gerar músicos qualificados, os quais tanto reclamava o professor Gazzi de Sá em suas proclamações.
O Conservatório Paraibano de Música - CPM, portanto, iniciou suas atividades estabelecendo uma grade curricular que contemplava as novas especificidades requeridas para a formação de músicos habilitados a tocar em uma orquestra. Foram ministradas aulas de piano, violino, viola, contrabaixo, violoncelo, teoria musical, solfejo e instrumentos de sopro, como o clarinete. Dentre as notas sobre os cursos ministrados pelo Conservatório, destacamos a partir da coleta documental realizada por Silva (2006) a notícia publicada pelo jornal A União, de 07 de outubro de 1947.83 Vejamos:
A direção do Conservatório Paraibano de Música, fundado recentemente nesta capital pela Sociedade de Cultura Musical, avisa aos alunos matriculados que amanhã, terão início as aulas para os diversos cursos, a saber: piano, violino, violoncelo, canto, teoria e solfejo, história da música, etc. (A UNIÃO, 1947 apud SILVA, 2006, p.196)
Outra nota publicada no dia 11 de outubro de 194784, no mesmo jornal, indica as datas de início dos cursos e os professores que ministrariam as aulas, entre eles a professora Zulmira Botelho, além dos horários estabelecidos em três turnos, manhã, tarde e noite:
As matérias a serem ministradas são as seguintes: violino (prof. Paulino Galvão e Joaquim Pereira); piano (prof. Zulmira Botelho); teoria e solfejo (Francisco Picado e Raimundo Gadelha; história da Música (prof. João da Veiga Cabral); francês (prof. Afonso Pereira); alemão (prof. Geraldo Cantalice); português (prof. João Batista Leite); canto e violoncelo (prof. Paulino Galvão); clarinete (Moacir Santos). (A UNIÃO, 1947 apud SILVA, 2006, p. 198).
83 Trata-se do recorte de nº 44. Anexo do trabalho de Silva (2006). 84
Há que se destacar a grande dificuldade que a instituição enfrentou no sentido de efetivar o que havia sido idealizado inicialmente, uma vez que somente em 1959, o governo estadual contratou alguns professores como Rino Visani, Piero Severi, Emílio Sobel, Arlindo Teixeira e Gerardo Parente, o que provavelmente levou a instituição a incrementar as atividades de ensino se aproximando ao idealizado.
Segundo Oliveira; Lima; Morais (2012), os cursos oferecidos pelo CPM eram oferecidos em três níveis, quais sejam: fundamental, geral e superior. O curso fundamental nas áreas de piano, sopros e cordas tinha a duração de quatro anos. O curso fundamental de canto, por sua vez, tinha a duração de três anos. O curso geral de instrumentos e canto tinha a duração de dois anos, enquanto que o de harmonia e órgão, de cinco anos, a mesma duração para a formação nos cursos superiores em regência, instrumentação e composição.
Outros Cursos também eram oferecidos, com um vasto leque de disciplinas obrigatórias e complementares, a exemplo das cadeiras de: Violino, Viola, Música de Câmara, regida pelo prof. Guerrido Visani, brasileiro recém-naturalizado, formado em Curso Superior de Música, no Conservatório Nacional de Bolonha (Itália). Violoncelo, Contrabaixo e Solfejo prof. Piere Severi, formado no Conservatório de Bolonha (Itália). Piano prof. Lázzaro Wenger, formando em Buenos Aires. Teoria, Solfejo e Instrumento de Sôpro prof. Teófilo Faustino de França, de formação militar. Piano Complementar profª Terezinha Bonavides Barros, aluna do Curso Superior. Canto Coral, prof. Teófilo Faustino de França. Assistentes de Piano Marília de Sá Sarmento e Auxiliadora Jurema, alunas do Curso Superior. Assistente de Curso de Violino Yolanda Gouveia, aluna do Curso Superior. História da Música, o único professor em fase de contratação. (OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.158 - 159).
A contribuição do Estado da Paraíba à instituição, idealizada pelo grupo da SCM, foi quase inexistente. De início recebeu do governo do Estado o Casarão dos Azulejos, localizado na rua Conselheiro Henrique nº 159, para a sediar o Conservatório. Entretanto, a Sociedade, através de seu Boletim, denunciou, em 1947, o não recebimento da casa, mas ao mesmo tempo anunciou o início das aulas para breve.
Foi criado o CONSERVATÓRIO, no dia 16 de junho de 1946. Um ano já se vai, sem que o prédio de azulejo, da Praça Dom Adauto, já cedido, se desocupe. De qualquer forma as aulas serão iniciadas em junho próximo. Isto por ora. As matrículas serão abertas até o dia 20 de junho, as mensalidades serão ao alcance de todos. Aprenda música e seja feliz. Aprenda violino, piano, violoncelo, ou qualquer outro instrumento e será dono da melhor parte de sua vida. Ou então, mande seu irmão ou seu filho estudar.
A congregação de professores está assim constituída: Teoria e solfejo – Francisco Picado
Teoria e solfejo – Raimundo Gadelha Violino e celo – Joaquim Pereira Violino e canto – Paulo Galvão Piano – Zulmira Botelho
História da música – João de Veiga Cabral
(BOLETIM de 31 de maio de 1947, p.1 apud OLIVEIRA; LIMA; MORAIS, 2012, p.38-39).
Foto 25. Casarão dos Azulejos - Sede destinada ao Conservatório