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Mise en ´evidence et caract´erisation quantitative de la conta-

4.3 Mise en ´evidence exp´erimentale de la contamination

4.3.2 Mise en ´evidence et caract´erisation quantitative de la conta-

É indiscutível que o ser-humano inventou o comportamento funerário. Esta invenção terá surgido ao mesmo tempo com a conceptualização abstrata da morte e da finitude da morte (Duarte, 2003, p. 264). Taylor (2002, p. 3) diz mesmo que foi a Humanidade, enquanto característica de uma espécie, que inventou a Morte.

Não podemos confundir o comportamento funerário como a concretização material de alguma religião, pelo menos nos primórdios, em que o ato funerário seria mais virado para a abstração e previsibilidade da morte (Duarte, 2003, p. 265). Posteriormente, por exemplo com a herança judaico-cristã, o medo da morte e o que existiria além desta, desencadearia mecanismos de conduta em vida perante a mesma. A interpretação do comportamento funerário é amiúde confundido com religião mas esse comportamento parece estar mais ligado a mecanismos da psique humana (Duarte, 2003, p. 265).

Apesar de existirem várias abordagens teóricas para as interpretações dos comportamentos funerários produzidos, todas convergem para a ideia de passagem, o ritual de transição vida-morte. A criação de túmulos, ou outro tipo de manifestações, não é mais que a herança social do defunto, a sua memória trazida ao mundo material.

Em Arqueologia, existe panóplia de subdivisões dentro da disciplina “mãe”. Uma das várias é a chamada comummente “Arqueologia da Morte”. A Arqueologia da Morte não é meramente o estudo dos ossos, caso contrário chamar-se-ia apenas Antropologia Biológica. Por outro lado, também não é o estudo apenas dos materiais,

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esquecendo-se o defunto. A Arqueologia da Morte, de certa maneira, imiscui-se na Arqueologia Cognitiva, visto partilhar visão holística no seu campo de estudo. A morte, além da finitude física, é igualmente simbólica. A maneira como o ser humano a trata responde muito ao pensamento que ele tem sobre a mesma. Assim, nos estudos mortuários entra também a Arqueologia Cognitiva, que aborda as problemáticas do conhecimento humano. Como uma vez foi dito: “ (...) se quiserem conhecer a mente,

não procurem apenas psicólogos e filósofos: certifiquem-se de também procurar um arqueólogo” (Mithen, 1998, p. 364). Assim, sinteticamente a Arqueologia da Morte pode ser descrita como o estudo de um material diferenciado, as práticas e gestos funerários, além dos restos ósseos, que nos permitem aceder a contextos simbólicos (Py-Daniel, 2014, p. 157).

A Arqueologia da Morte, ou Archaeology of Death, utilizando a língua pela qual foi criada, surgiu na década de 70 com o advento da Nova Arqueologia em Inglaterra e Estados Unidos. A Arqueologia mais tradicional, ou histórico-culturalista, considerava o mundo funerário praticamente intangível, duvidando que poderia existir relação directa entre as práticas funerárias e o mundo dos vivos (Ucko, 1969). Com a escola da Nova Arqueologia, ou Processualismo, o debate cerrou-se mais na Arqueologia da Morte, que tinha sido alvo de poucos debates por ter uma definição pouco clara. Esta nova corrente, ao contrário da sua antecessora, estava convencida que as estruturas das práticas funerárias implicavam sim, a realidade social e a complexidade a ela intrínseca (Lull, 1997-98, p. 66). O estudo de uma necrópole poderia permitir aproximação da organização dessa sociedade, visto que a variabilidade dos restos funerários relacionar- se-ia com uma série conscientemente selecionada de distinções que o indivíduo falecido teria durante a vida; a “pessoa social” – outro termo surgido nesta altura –, estaria determinada pelas características próprias de cada sistema social, daí a cognoscidade da organização social através dos seus cemitérios (Lull, 1997-98, p. 66). É precisamente deste contexto que podemos afirmar sair a expressão “morte, espelho da vida”.

Lewis Binford, um dos criadores da Nova Arqueologia, supõe que “ (...) a forma

e estrutura que caracterizam as práticas mortuárias de qualquer sociedade, estão condicionadas pela forma e complexidade das características organizacionais da sociedade em si”37 (Binford, 1971, p. 23). Isto significa uma rutura com as teorias do

passado. Vere Gordon Childe pensava que as culturas mais estáveis e progressistas,

37 Tradução livre do Autor.

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aumentando a sua riqueza amortizavam os bens no tratamento da morte, e quanto maior fosse o progresso da cultura material menor a energia dispensada com o mundo funerário (Lull, op. cit.). A teoria do processualismo parece encaixar melhor à primeira vista nas necrópoles da Região de Ourique, em que os monumentos funerários são os mais vistosos e aparentemente “ricos” em comparação aos pequenos habitats que se conhecem. Pode-se dizer inclusive, que o observado para Ourique é o inverso do que foi dito por Childe.

Posteriormente, uma categoria dentro da Arqueologia da Morte foi desenvolvida por Tainter, inicialmente proposta por Binford (1971, p. 23): gasto de energia. Quer isto dizer que o enterramento era precedido por um esforço na criação dos túmulos, e dado que a hierarquização determina a complexidade estrutural, Tainter estabeleceu uma interdependência entre energia investida e as obras funerárias criadas para cada indivíduo (Lull, 1997-98, p. 66).

Resumindo, as premissas teóricas do processualismo podem ser descritas sinteticamente da seguinte forma: consideração de que as deposições funerárias sintetizam materialmente o falecido como “pessoa social” e constituem um “fiél epitáfio” do que foram em vida (Lull, 1997-98, p. 67).

Por sua vez, com a chegada do Pós-Processualismo, adverte-se que os restos funerários não refletem diretamente as normas dos sistemas sociais, nem a variabilidade funerária os estatutos individuais.

Vicent Lull, no final da última centúria, propõe uma teoria “marxista para el

estudio de las práticas funerarias”. Nela postula várias ideias, como por exemplo: “Os

enterramentos são depósitos de trabalho socialmente necessários.”, ou, “os mortos

consomem produção social. As dissimetrias entre os enterramentos denotam dissimetrias no consumo social”38 (Lull, 1997-98, p. 70). Também advoga que não

existe uma “Arqueologia da Vida”, logo, porque existe uma da “Morte”? Sendo que a Arqueologia da Morte não estuda propriamente a “morte”, seja as causas naturais ou outras, mas sim os ritos, os símbolos, as práticas, as construções etc., muitos já propuseram nova nomenclatura, como por exemplo “Arqueologia das Práticas Mortuárias” (Ribeiro, 2007) ou “Arqueologia do Contexto Funerário” (Morris, 1996).

38 Tradução do Autor.

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Como dizia Lévi-Strauss (1955, p. 225) “Não existe, provavelmente, nenhuma

sociedade que não trate os seus mortos com consideração (...) ”, para o mundo funerário, é necessário empregar energia, ou seja, trabalho social.