• Aucun résultat trouvé

Les implications méthodologiques de la démarche du projet

As representações da ciência não eram consideradas, na sua acepção, apenas como sinônimo de tecnologia e desenvolvimento material. Uma grande parte dela voltava-se a desenvolver o entendimento do homem sobre si próprio e aqueles que o cercavam. Afinal, não apenas uma época repressiva, os anos 1950 continham os germes das lutas e movimentos das décadas seguintes166. As chamadas ciências sociais, como a antropologia, a sociologia e a filosofia sofriam transformações, principalmente motivadas pelas mudanças sociais da época que Hobsbawm chama de Revolução Social (1945-90)167. Entre as mudanças mais importantes estava a massificação do ensino, principalmente o superior, a redução drástica do campesinato e a maior participação da mulher nos processos sociais.

Há indícios dessas preocupações materializadas nas obras em questão, seja de modo positivo, problematizado ou como projeto frustrado.

O aspecto positivo está na única obra utópica do grupo selecionado. Em ―Invasores do espaço interior‖, é possível perceber um movimento que é o de acumular conhecimentos, no sentido de progresso que já aludimos, mas não somente material e sem as restrições que a neutralização da emancipação provocava.

166 Aronowitz, p.329 e ss.

122 Mas como Smith havia previsto, o cérebro humano se provou mais adaptável. Uma vez que ele se colocou no caminho do conhecimento, não houve parada e hoje dificilmente se encontra um mistério que o homem não tenha ameaçado esclarecer. (...) Estou disposto a concordar que ainda temos pioneirismo hoje, mas na maior parte das vezes no reino das ideias. (IEI, 153-4)

O uso da palavra ‗esclarecer‘ (illuminate) parece relevante ao passo que se aproxima do projeto iluminista, uma síntese da dialética estudada por Adorno e Horkheimer168. Ainda, esse excerto mostra que dentro das relações humanas, enquanto a tecnologia atinge um ápice, o conhecimento nas áreas do pensamento continua apresentando novos desdobramentos e potencialidades.

Um posicionamento similar é mostrado em Saia do meu céu!. Uma alternativa ao Iluminismo tal qual o conhecemos é apresentado pela alteridade dos ratheanos. Ali, ocorria o processo inverso. Devido às condições físicas, como a ausência de metais (principalmente os metais pesados), água e terras aráveis, nenhuma ciência física foi altamente aperfeiçoada. A ausência de barreiras naturais (como o caráter insular de Home) é apontada como outro fator que tornou a guerra – outro agente de desenvolvimento científico – praticamente desconhecida, ou seja, faltavam a motivação e os meios. Margent explica:

Assim, à medida que nossa civilização envelhecia, tendemos a nos concentrar nas humanidades – nas artes, na ética, na comunhão dos espíritos, nas ciências sociais. Sob influência desses estudos eliminamos nossas noções primitivas, desenvolvemos uma linguagem comum, reduzimos o governo ao mínimo essencial, eliminamos o crime, e de um modo geral nos desembaraçamos de uma quantidade de problemas, o que nos permitiu que nos dedicássemos a assuntos sérios. (SMC, 84)

O que problematiza esse exemplo é que, desenvolvida o quanto fosse, a sociedade ratheana não conseguiu meios de evitar o pânico e a ―orgia‖ de desenvolver máquinas de destruição em massa. Portanto, todas as melhorias não foram suficientes para trazer a paz e a felicidade como metas finais. Dessa forma, não obstante tenha sido apresentada uma alternativa ao modo de ser na realidade, ele é problematizado pela própria narrativa, ao homogeneizar as reações e igualar os dois povos pelo impulso bélico e destruidor.

Provavelmente, Blish não ignorava os eventos da década anterior nos quais parte dos cientistas buscava incentivar o desenvolvimento das ciências sociais. De acordo com Jessica Wang, em seu relato sobre a ciência nos primórdios da Guerra Fria, isso poderia ser visto na

123

postura de dois importantes legisladores da ciência: Senador Harley Kilgore e Vannevar Bush. Enquanto o primeiro incluiu em seu projeto de lei ―uma divisão para as ciências sociais na Fundação Nacional de Ciências [NSF, em inglês]‖, Bush ―sentia que as ciências sociais propriamente deveriam se circunscrever a uma agência própria, não numa fundação dedicada às ciências naturais‖169. A consequência disso foi vista já no começo dos anos 1950, tal agência própria nunca foi criada e a NSF concentrou a maior parte dos recursos. Sem incentivo, os estudos das ciências humanas tenderam a um segundo plano.

O exemplo no qual a alternativa moral é vislumbrada, mas não apresentada, é em Um

cântico para Leibowitz. Ela aparece nos questionamentos do abade Zerchi, na última parte. O

abade confronta-se com os elementos materiais de progresso e, acima de tudo, faz constantes reflexões morais acerca do papel do homem naquele mundo altamente tecnológico, mas pobre de uma ética propriamente humana:

Diminuir o sofrimento e aumentar a segurança são meios naturais e próprios da sociedade e de César. Mas tornaram-se os únicos fins e a única base da lei – e perverteram-se. Inevitavelmente, então, ao procurá-los, encontramos apenas o oposto: o máximo de sofrimento e o mínimo de segurança. (CL, 298)

Seguindo ao outro extremo dessa possibilidade de alternativa ao desenvolvimento material e esclarecedor do Iluminismo, como já afirmamos, os objetos em análise não trazem a figura de um líder que contenha em si as diretrizes da exploração e do mal. Porém, todos eles lidam com essas diretrizes em uma forma socialmente organizada. Ao contrário da moda da época em imputar a certas figuras (tipos ou estereótipos) um desejo patológico de controle e dominação, como, por exemplo, ao afirmarem que o indivíduo Adolf Hitler causou a Segunda Guerra (sem considerarem razões como o estado econômico da Alemanha nos anos 1930, ou a presença militar no governo), eles partem para uma representação menos superficial entre a ciência e a política, ambas como práticas sociais e coletivas e, portanto, uma como ferramenta da outra no processo de impedir a emancipação dos homens, ou seja, mostram a ciência como instrumento da política (que se encontra na mão de uma determinada classe social), para a manutenção do estado de coisas.

Já tratamos da busca de solução nas profundezas do indivíduo (e sua neutralização por ferramentas que controlam esse âmbito) quando falamos sobre a psicanálise. O inconsciente estava sendo colonizado. Os que buscavam esta alternativa terminavam no ―divã

124

do analista‖ a ponto dessa prática individual se tornar coletiva: uma sala cheia de pessoas ―reclamando sobre suas figuras-paternas e recitando os mais extraordinários sonhos pornográficos para o deleite óbvio dos outros presentes‖, de modo que elas serviam ao duplo propósito de ―uma terapia útil, tanto quanto excelente entretenimento‖. (IEI, 141)

Além disso, o narrador do conto nos explica que nos anos 1950 a única alternativa de ocupação do tempo livre conhecida era o entretenimento de massa. Televisão e rádio seriam as maneiras de se poder estar livre do trabalho, ―matar o tempo, horas e horas‖, consumindo o tempo cotidiano, ou usando o tempo livre do trabalho para o consumo de imagens, produtos etc. Ele tem uma perspectiva da televisão como um momento de ação do sistema através do estímulo maciço ao consumo, que provia apenas intervalos para que o consumo pudesse deixar de ser contemplado para poder ser efetuado (IEI, 142).

Notamos, com surpresa, que ele aborda o tema de forma crítica, seguindo os ensinamentos dos teóricos da Indústria Cultural170. De fato, os meios de comunicação associados à massificação, como jornais, rádio e televisão são mostrados majoritariamente como instrumentos de manipulação e controle, em Saia do meu céu! e na terceira parte de

Cântico para Leibowitz, além de altamente associados a consumo não apenas em ―Invasores‖,

mas também, em Mercadores do espaço.

Ainda em ―Invasores do espaço interior‖ e Mercadores do espaço os personagens- narradores contam episódios que envolvem as drogas, tidas como a última possibilidade de escapatória de uma realidade nociva. Seja ‗a Coisa‘ (the stuff), em Mercadores, ou qualquer um dos produtos da Super-corporação farmacêutica, no conto, tais substâncias permitiam um momento de escapatória real, através do esquecimento. Não há a representação no uso de drogas por um viés moral, como um instrumento de rebelião, de desafio ou de superioridade, como viriam a ser vistas mais tarde171. Sem assumir um discurso relacionado às drogas ilícitas que poderia trazer consigo um eco dos argumentos da Direita do consumo de drogas como uma ameaça à soberania nacional172, eles se referem aos produtos das próprias corporações

170 Adorno, T. e Horkheimer, M.. ―The Culture Industry: Enlightenment as Mass Deception‖. In: Dialectic of

Enlightenment. Trans. John Cumming. Londres/Nova York, Verso, 1993, pp.120-147.

171 Aqui nos referimos aos anos 60 e 70. Cf. Hobsbawm, op. cit., pp. 326-7.

172―A mensagem da última campanha americana contras as drogas é: ‗Quando você compra drogas, você dá

dinheiro aos terroristas!' 'Terrorismo' é assim elevado até se tornar o ponto oculto de equivalência entre todos os males sociais.‖ Zizek, S. ―Are we in a war? Do we have an enemy?‖ Disponível em: http://www.lrb.co.uk/v24/n10/zize01_.html. Acessado em 10-01-07.

125

das drogas, a indústria farmacêutica americana: álcool, tranquilizantes, cafeína, benzedrina e antidepressivos. De certa forma, até elas se submetem à racionalização do sistema já que funcionam em cadeia, o consumo de uma depende do consumo de outra. Assim, até a fuga do sistema está subordinada à influência dele:

O Super-Fabricante de tabaco-medicamentos-e-destilados, que havia tomado o mercado da fuga, aconselhava uma dieta balanceada – anfetamina ao acordar, um tranquilizante às 10 horas para amenizar o efeito da anfetamina, cafeína ao meio-dia para eliminar o efeito depressivo do tranquilizante, um sedativo às três da tarde para neutralizar o efeito da cafeína, três doses de qualquer bebida alcoólica pra superar os últimos efeitos de qualquer coisa, e finalmente, antes de ir pra cama, uma pílula pra dormir com duas doses espaçadas para que, com alguma sorte, você conseguisse dormir a noite toda. (IEI, 142)

Porém, o maior representante da tentativa de controle da coletividade parece ter sido descrito por Blish em Saia do meu céu!. Conforme o que já discutimos, em Home, o desenvolvimento da ciência e da racionalização havia atingido o auge. O progresso havia se estabelecido nos costumes políticos, numa tentativa de racionalizar e combater a superstição, como o já citado episódio das baixelas: ―esperava-se de cada novo Ministro que adicionasse um prato e retirasse outro, como um símbolo de progresso realizado durante o seu governo.‖ (SMC, 35)

Mesmo com esse desenvolvimento, as relações em Home se configuram por meio de uma estrutura social hierárquica e piramidal. Há de um lado, os dirigentes e de outro, o povo. Para que isso se mantenha, demanda-se certa estrutura de controle social. No romance, tal controle falha em Home, sendo necessário, por mais paradoxal que possa soar, importá-la de Rathe. Dizemos paradoxal porque se Rathe é uma sociedade sem hierarquias, porque necessitariam ou dariam a Aidregh uma forma de controle social? Sem mais explicações e reflexões sobre isso, somos apresentados a um novo tipo de ―ciência‖ nomeada por uma palavra que não existe no idioma Homeano – que é, na verdade, a língua inglesa – o voisk.

É através desse novum que os ratheanos pretendem vencer a guerra, mas não a utilizando eles próprios. Alguém de Home deve aprender seus rudimentos para utilizá-la com seu povo, já que o enredo atinge uma complicação dramática: Signath, líder da Oposição em Home, toma o governo daquele planeta, enquanto Aidregh visita Rathe, declara guerra interplanetária e dá três dias antes que as bombas sejam lançadas.

126

O leitor passa por um processo de cognição concomitante ao do protagonista desde que, para ambos, o voisk é um novum. Impossível de ser definido na língua dele, ele vai aprendendo pela negação, ou seja, percebendo o que ela não é. A primeira definição que ele tem desta substância é que se trata de uma energia ou de forças, que o ajudariam a dominar (sway) um auditório. Palavras que poderiam pertencer ao mesmo campo semântico: ―uma delas seria empatia; a outra é carisma. Nenhuma delas é a força à qual nos referimos‖. (SMC, 102)

Ao leitor poderia ocorrer, que voisk seria, portanto, uma forma da Retórica, mas essa hipótese é descartada por Aidregh e pelos Margents: ―Para esta audiência tal engrandecimento era obviamente mais que inútil – era na verdade um [e]mpecilho para o que quer que eles estivessem tentando fazê-lo compreender.‖ (SMC, 106)

O que se pode apreender de tal força é que ela serve para dominar ou influenciar um número grande de pessoas. Mas há algumas limitações de tal força: não se pode usá-la para convencer um sujeito de uma situação irreal e a platéia deve estar em contato visual com o falante. Apesar de soar deveras abstrata, existem máquinas que podem analisar e medi-la. Contudo,

as leis a que obedecem não seguem as regras quantitativas da física; elas são, ao contrário, inteiramente topológicas. Pode-se retirar de um aparelho toda a sua carga de força (...) e elas ainda assim continuaram a funcionar. Tem-se, no entanto, de suprir alguma forma simbólica de conexão, a fim de substituir as ligações que foram cortadas. (SMC, 112)

Até certo ponto, a arte/ciência pode ser ensinada e testada. Dali em diante, dependeria somente do protagonista superar as expectativas e atingir seus objetivos. Com o domínio da técnica, dependeria somente dele, do indivíduo, a quem as condições foram dadas para que o desenvolvimento acontecesse. Nem mesmo poderia ele depender das máquinas: ―Deve-se melhorar o homem – o que não pode ser feito mecanicamente [pela máquina]. Uma coisa dessas não pode, de forma alguma, ser ‗fabricada‘; o próprio homem terá que empreendê-la; mais ninguém.‖ (SMC, 116)

Não podemos deixar de enxergar as similaridades entre essa força e o fascismo, instrumento mor para controle político em geral, popularizado no século XX. Ambas possuem um cabedal de técnicas em que uma figura-chave consegue mobilizar certas estruturais

127

emocionais e mentais de seus observadores. Porém, no romance, a força voisk é mostrada sob uma ótica aparentemente positiva. É ela que poderá impedir que os homeanos ataquem e façam Rathe revidar. Encontramos uma lacuna da narrativa, uma contradição inerente à palavra voisk.

Ao passo que a energia é o instrumento de ―cooperação‖ (palavra-chave do discurso que Aidregh faz no final do romance, responsável manter a paz entre os planetas), ela possui uma etimologia curiosa. Como costuma acontecer nos romances de ficção científica, é comum o autor criar nomes para os elementos de novum. Porém, diferente das regras de composição de neologismo, como a derivação por justaposição, aglutinação ou hibridismo, esse termo soa estrangeiro, seja para nós, seja para um leitor anglófono. Lembra curiosamente o idioma russo, sendo que não há qualquer referência a isso no romance. Descoberto posteriormente à leitura que ela de fato pertence a esse idioma. Seu significado está associado ao caso genitivo plural de um substantivo: "voisko", "voysko", "vojsko" – a transliteração varia: ela significa "tropas" ou "exército". Por exemplo, a frase "raspolozheniye voisk" significa "deslocamento de tropas"173.

Assim, voisk é uma palavra que está elencada como uma ciência, com suas técnicas, apesar de não depender de máquina e, afinal, sendo definida como um modo de domínio de espectadores, remetendo ao sistema militar, implica a aceitação acrítica por seus membros (ou alvos?). Mas o aspecto mais contraditório de tal conceito-prática jaz no fato de ter sido desenvolvida, considerando-se sua acepção militar, num mundo onde todos amam incondicionalmente os outros e vivem em paz (Rathe). Parece que a ideologia a que Blish se filia defende uma impossibilidade de construir um mundo no qual a dominação ou a belicosidade seja inexistente.

Em resumo, ao avaliarmos mais um binômio de representações da ciência, pudemos notar que os aspectos éticos do iluminismo são levados em conta e discutidos, provando que era possível conhecer uma sociedade onde as ciências humanas tivessem maior incentivo e valor que as ciências naturais. Seja através de um desejo não materializado (em Cântico), seja como uma realidade, que o leitor só pode ter acesso em fragmentos (no caso de Rathe, em

Saia do meu céu!), os romances incentivam uma retomada do debate sobre a função social da

ciência.

128

Ao mesmo tempo, ela revela estratégias que se colocam ou não como ciência e visam ao controle de poucos sobre muitos. Não apenas nos já existentes métodos de fuga da realidade, pelo entretenimento de massa ou das drogas e medicamentos, mas também na misteriosa força voisk, que se constitui como um novum, mas lembra de perto uma das práticas também bem conhecidas (e combatidas) do fascismo.

Quantitativamente, todos os aspectos – positivos e negativos – parecem ser pouco explorados nas narrativas, só sendo mencionados brevemente, sem um aprofundamento. A exceção talvez esteja no tratamento dado ao voisk por Blish, que tem posição central na narrativa e influencia seu desfecho.

4) Uma busca desprendida da verdade objetiva e a fabricação rotineira de

Outline

Documents relatifs