Christine.Chappuis *
I. L’harmonisation internationale, muse par excellence
Este estudo é oriundo de um projeto maior, que foi autorizado pela Secretaria Municipal de Saúde (SEMUS) (ANEXO C), pela Secretaria Estadual de Saúde (SES) através do Oficio nº 379/2015 (ANEXO D) e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão com número de parecer 1.227.248 (ANEXO – E). A pesquisa foi desenvolvida conforme preconiza a Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde para Pesquisa em Seres Humanos, utilizando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE - B) com os responsáveis das crianças.
5 RESULTADOS
Foi realizado a busca dos registros ativos de casos de hanseníase em crianças na Unidade de Saúde do Turu, Centro de Saúde do Vicente Fialho (AMAR), Centro de Saúde Dr. Genésio Rêgo e Hospital Aquiles Lisboa, e foram encontrados 164 casos, sendo que 34 casos não se encontravam em registro ativo, 40 casos foram transferidos para outros municípios do MA e 21 casos não se encontravam na faixa etária aceitável para participação do estudo. Logo, a população foi constituída por 40 casos de crianças portadoras de hanseníase.
Das 40 crianças portadoras de hanseníase que participaram do estudo, 22 (55,0%) crianças eram do sexo masculino, com idade entre 12 a 14 anos (45,0%), de cor parda (48,78%), com escolaridade entre a 1ª e 4ª série incompleta do ensino fundamental (62,50%) do distrito residencial da Cohab (47,50%), com renda familiar inferior a 01 salário mínimo (15,0%) (Tabela 1).
Tabela 1 – Crianças de 5 a 14 anos afetadas pela hanseníase, segundo dados socioeconômicos em São Luís - MA, 2016.
DADOS SOCIOECONÔMICOS n % Faixa Etária 05 a 07 anos 08 a 11 anos 12 a 14 anos 6 16 18 15,00 40,00 45,00 Sexo Feminino 18 45,00 Masculino 22 55,00 Raça Branca Negra Parda 15 5 20 36,59 12,20 48,78 Indígena 1 2,44 Escolaridade 1ª a 4ª Série Incompleta 25 62,50 4ª Série Completa 1 2,50 5ª a 8ª Série Incompleta 14 35,00 Renda familiar < 01 salário mínimo 1 salário mínimo 6 5 15,00 12,50 > 01 salário mínimo 29 72,50 Distrito de Residência Centro 2 5,00 Cohab 19 47,50 Itaqui 7 17,50 Tirical 12 30,00 TOTAL 40 100,00
Na tabela 2, em relação as características clinicas da hanseníase, 15 (37,50%) crianças apresentaram a forma clínica dimorfa, de classificação operacional multibacilar (55,0%). Quanto ao grau de incapacidade no diagnóstico, 22 crianças (55,0%) apresentavam grau 0.
Tabela 2 – Crianças de 5 a 14 anos afetadas pela hanseníase, segundo características clínicas em São Luís - MA, 2016.
CARACTERÍSTICAS CLÍNICA n % Forma Clínica Dimorfa Indeterminada Tuberculóide 15 07 14 37,50 17,50 35,00 Virchowiana 04 10,00 Classificação Operacional Multibacilar 22 55,00 Paucibacilar 18 45,00
Grau de Incapacidade no diagnóstico Grau 0 Grau 1 Grau 2 22 10 08 55,00 25,00 20,00 TOTAL 40 100,00
Fonte: Elaborado pelo autor.
A figura 1, apresenta o resultado quanto ao comprometimento da qualidade de vida das crianças participantes do estudo. Ao analisar a qualidade de vida das crianças, observou-se que houve maior frequência no comprometimento moderado (40%), seguidas de sem comprometimento (25%), comprometimento leve (18%) e grave (17%).
Figura 1 – Qualidade de vida das crianças de 5 a 14 anos portadoras de hanseníase, segundo a classificação pelo CDLQI (Children’s Dermatology Life Quality Index) em de São Luís - MA, 2016.
Ao analisar a qualidade de vida das crianças por domínio, observou-se que houve uma maior frequência no grau de comprometimento leve (60%) nos sintomas e sentimentos, no sono e tratamento. E no item lazer, não apresentou nenhum grau de comprometimento da qualidade de vida (Tabela 3).
7 (17%) 7 (18%) 16 (40%) 10 (25%) N = 40 (100%) GRAVE LEVE MODERADO SEM COMPROMETIMENTO
Tabela 3 – Crianças de 5 a 14 anos afetadas pela hanseníase, segundo o escore do CDLQI por domínio em São Luís - MA, 2016 QUALIDADE DE VIDA
DOMINIOS GRAU DE COMPROMETIMENTO
Sem comprometimento Leve Moderado Grave TOTAL
n % n % n % n % n % Sintomas e Sentimentos 16 40% 24 60% 0 0 0 0 40 100% - Sensibilidade na pele 9 22,5% 10 25% 0 0 0 0 19 47,5% - Constrangimento ou tristeza 7 17,5% 14 35% 0 0 0 0 21 52,5% Lazer 21 52,5% 20 50% 0 0 0 0 40 100% - Vestimentas especiais 6 15% 0 0 0 0 0 0 6 15% - Brincadeiras 10 25% 18 45% 0 0 0 0 28 70% - Prática de esportes 5 12,5% 2 5% 0 0 0 0 7 17,5% Escola 10 25% 27 67,5% 3 7,5% 0 0 40 100% Relação com pessoas 7 17,5% 20 50% 10 25% 3 7,5% 40 100% - Amizades 4 10% 18 45% 7 17,5% 0 0 29 72,5% - Constrangimento por pessoas 3 7,5% 2 5% 3 7,5% 3 7,5% 11 27,5% Sono 10 25% 29 72,5% 1 2,5% 0 0 40 100% Tratamento 7 17,5% 22 55% 10 25% 1 2,5% 40 100% Fonte: elaborada pelo autor
6 DISCUSSÃO
Os resultados do estudo revelou uma maior frequência da doença em crianças com a faixa etária de 12 a 14 anos de cor parda. A hanseníase na infância não possui uma taxa de prevalência diferenciada em relação ao sexo, porém o autor Sousa, et.al (2011) afirma que a incidência da doença no sexo masculino é maior. Cecílio (2012) corrobora com esses dados, tendo em vista que seu estudo realizado na região Nordeste, no período de 2001 a 2011, a frequência maior dos indivíduos acometidos era do sexo masculino.
Em relação a predominância da cor parda, esta pode estar diretamente ligada ao processo de colonização do Brasil e da mistura de raças. A miscigenação de raças no Brasil pode ter gerado um perfil genético que contribui para a incidência da hanseníase (SILVA, et.al, 2011).
As crianças do estudo possuíam escolaridade entre a 1ª e a 4ª série do ensino fundamental. Estas possuem uma maior probabilidade de adquirir a doença por estarem em idade escolar. Norman (2004) em seu estudo com 36.376 crianças em idade escolar na Índia no ano de 2001 e 2002, diagnosticou 22 casos da doença em menores de 15 anos de idade. Em concordância com os dados do estudo, Talhari, Torrecila e Talhari (1987) examinaram no estado do Amazonas nos anos de 1979 a 1982, 100.939 crianças, e diagnosticaram 107 casos de hanseníase em crianças em idade escolar.
Silva, Toledo e Gelatti (2014) em seu estudo no Estado de Goiás, apresentou dados em relação a casos novos de hanseníase do ano de 2009 a 2013, sendo maior a ocorrência em crianças de 5 a 9 anos de idade e de 10 a 14 anos, todos em idade escolar.
A renda familiar era inferior a 01 salário mínimo e residiam no distrito da Cohab, considerado de classe média baixa. Pessoas que possuem um baixo poder aquisitivo, tendem a usufruir de condições de moradia precária e uma alimentação inadequada, contribuindo assim para a endemicidade da doença na infância. Silvares (2004) em seu estudo observou que metade das famílias das crianças portadoras de hanseníase, possuíam renda inferior a quatro salários mínimos. Já Santos et.al (2008) observou o predomínio de uma renda inferior a 01 salário mínimo por família, corroborando com os dados estudo.
No estudo em relação as características clínicas, houve a prevalência da hanseníase multibacilar nas crianças, embora esta forma clínica seja menos prevalente em crianças. O autor Nguyen (2000) afirma que é perfeitamente possível encontrar as formas multibacilares em crianças com uma frequência maior em áreas endêmicas, provavelmente porque os sintomas da doença podem ser confundidos com as doenças de pele comuns na infância e a detecção precoce da doença ser ineficiente.
Lima, Prata e Moreira (2008) em um estudo sobre o perfil epidemiológico da hanseníase em Brasília - DF, encontraram uma predominância da forma clínica dimorfa da hanseníase, em concordância com o nosso estudo, demonstrando a necessidade de prevenção e de ampliação de ações de controle da doença.
Ao analisar o grau de incapacidade no momento do diagnóstico, observou- se predomínio no grau 0, porém este fato não exclui outras limitações que podem ser ocasionadas pela doença. Em concordância com os dados obtidos no estudo, o autor Batista et.al (2011) afirma em um estudo realizado no RJ, que no momento do diagnóstico, se o paciente possuir grau de incapacidade zero, não exclui outras limitações, tendo em vista que a doença proporciona inúmeras incapacidades físicas.
Já em seu estudo, Moreira et.al (2013) observaram que a frequência de incapacidades com graus 1 e 2 na faixa etária de 15 anos foi de 2 (0,7%) casos, e houve maior prevalência de incapacidades físicas nas pessoas com forma clínica multibacilar.
Realizar a análise da qualidade de vida em crianças e adolescentes é complicado, tendo em vista que na literatura, poucos são os estudos relacionados a esta temática. Porém, observa-se um crescente interesse pela área cientifica para trabalhar qualidade de vida de crianças e adolescentes.
Em relação ao comprometimento da qualidade de vida das crianças do estudo, de acordo com o grau de comprometimento proposto pelo CDLQI, houve maior predominância na categoria de comprometimento moderado, seguido pela categoria sem comprometimento. E na análise sobre domínios, observou-se predominância nas questões relacionadas aos sentimentos, sono e escola.
Neder et.al (2015) em seu estudo sobre qualidade de vida relacionada à saúde em pacientes pediátricos com hanseníase, encontrou dados semelhantes a este estudo, com a maioria dos pacientes com idade entre 5 a 16 anos e escores sobre a qualidade de vida considerados baixos, tendo em vista que o maior
comprometimento é no que tange aos domínios sentimental e escolar, em concordância com o nosso estudo.
Uma pesquisa realizada na Suiça por Gânemo et.al (2007) com o objetivo de avaliar a qualidade de vida das crianças e familiares utilizando o questionário CDLQI, demonstraram concordância com os dados obtidos neste estudo, tendo em vista que os domínios mais afetados foram o sono, humor, tratamento e sentimento de culpa dos pais em relação ao enfrentamento da doença com uma supervalorização da gravidade da mesma.
Dias (2010) em seu estudo sobre a avaliação comportamental de crianças com doenças crônicas de pele a partir de relatos de suas mães, retrata que o nervosismo, a tristeza e os problemas na escola são os responsáveis pela piora do quadro das dermatoses na criança, inclusive da hanseníase.
Em um estudo sobre dermatite atópica, Neto et.al (2005) percebeu significativamente a diferença de comportamento entre crianças com e sem a doença em atividades de lazer, tendo em vista que atividades realizadas como nadar, jogar bola e brincar ao ar livre podem exacerbar os sintomas de doenças de pele. Portanto, as mães devem tomar medidas de proteção com a criança como o uso do protetor solar e menor exposição ao sol, além de motivar as crianças a fazerem atividades diferentes destas como aprender algum instrumento musical, assim essas interações provavelmente ajudariam as crianças a serem aceitas em grupos para tornar o seu desenvolvimento pessoal e conciliação com a doença mais fácil.
Sabe-se que nos dias atuais, há uma preocupação maior com relação a estética, e por isso deve-se ficar atento a crianças que emitem sentimentos de inadequação, estigmatização e interação social prejudicada. Essas crianças tendem a se afastar das pessoas ou vice-versa por acreditarem que a doença possa ser contagiosa ou resultado de injúrias (LUDWING et.al, 2009).
Matos e Machado (2007) também corroboram para esta afirmativa ao relatar que o impacto da qualidade de vida dos pacientes com hanseníase é agravado pela associação da doença com o estigma social que as sociedades até os dias atuais mantem em relação a doença, tratando-a como mutilante e incurável, resultando em discriminação e uma possível reclusão do convívio social.
Para uma recuperação plena da saúde dos portadores de hanseníase, principalmente as crianças, faz – se necessário uma terapêutica multidisciplinar que
visualize as questões físicas, psicológicas e sociais desse paciente, além de decisões que busquem a diminuição do impacto da doença na qualidade de vida dos mesmos.
7 CONCLUSÃO
Das 40 crianças portadoras de hanseníase que participaram do estudo, 55,0% delas eram do sexo masculino, com idade de 12 a 14 anos (45,0%), de cor pardas (48,78%) e escolaridade entre a 1ª e 4ª série incompleta do ensino fundamental e possuíam renda familiar inferior a 1 salário mínimo.
Em relação às características clínicas da hanseníase, as formas clínicas mais frequentes foram a dimorfa e tuberculóide, com classificação operacional em maior evidência a multibacilar. Quanto ao grau de incapacidade no diagnóstico, 55,0% das crianças apresentavam grau 0.
Ao analisar a qualidade de vida das crianças, observou-se que houve maior predominância na categoria de comprometimento moderado, seguido pela categoria sem comprometimento da qualidade de vida. Por domínio, observou-se que houve uma maior frequência no grau de comprometimento leve (60%) nos sintomas e sentimentos, no sono e tratamento.
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