3. Le contexte de planification algérienne
3.1. Instruments de gestion algériens
Parto então para uma hipótese, pensar as possíveis representações culturais que mo- vimentem realidades estéticas e conceptuais, sobre um ponto de vista da libertação de- las próprias.
Isto implicará uma desconstrução do próprio discurso onde se insere, de um reposicio- namento dos seus atores, numa construção contextualizada onde se produz uma di- mensão própria do artístico. Pensar em reproduções artísticas segundo uma prática inexistente na missão atual da Escola, implica também entrar em conflito com ela pró- pria. Implica, sobretudo, questionar a realidade onde se insere, onde somos inseridos, reproduzidos, modelados.
Ora, a arte contemporânea insere-se numa dimensão estética que existe não por ser no presente, no agora, mas pela capacidade de se deslocar para um outro tempo, num espaço próprio. Não será à toa que nos programas das disciplinas dos cursos artísticos, a arte contemporânea é pouco relevante, não é fácil posicioná-la nos parâmetros crono- lógicos e descritivos, como os movimentos passados.
E mais do que a impossibilidade de relatar e criticar um fenómeno do presente, a arte contemporânea não se adapta como experimentação aos parâmetros e espaços do sis- tema escolar. Almejar ensinar arte, as artes, do seu surgimento ao tempo presente, num contexto social e histórico ocidental, serve apenas para a reprodução de uma noção limitada dos campos artísticos. Mais, implica uma perceção de que ao estudá-las, os alunos serão artistas. Ora, o ensino nas artes deverá ir ao encontro de outros resulta- dos, o de formar alunos e alunas dentro do artístico, dentro da tensão contemporânea das artes, da produção de culturas, na inserção de cada indivíduo no seu contexto soci- al, escolar e cultural:
“O pensamento estético, que produz arte e cultura, é essencial para a libertação dos oprimidos, amplia e aprofunda sua capacidade de conhecer. Só com cidadãos que, por todos os meios simbólicos (palavras) e sensíveis (som e imagem), se tornam conscien- tes da realidade em que vivem e das formas possíveis de transformá-la. (BOAL, 2009:16).
Esta noção sobre a produção de arte e cultura pela transformação dos seus participan- tes será central no ensino do artístico, tendo uma componente transversal às demais áreas científicas. O pensamento estético como cerne de produção cultural extravasa, novamente, a dimensão do próprio discurso. Assim, atribuir como função de libertação a produção estética pelos artistas, mais, pelos alunos, seria um retornar do proposto. Será necessário distribuir elementos vitais do pensamento estético à capacidade de abranger um universo maior, numa inclusão do outro:
"O nosso sistema sensorial torna-se um meio através do qual procuramos o nosso pró- prio desenvolvimento. Mas o sistema sensorial não trabalha sozinho; são necessárias ao seu desenvolvimento as ferramentas da cultura: a linguagem, as artes, a ciência, os va- lores, e assim sucessivamente. Com a cultura como recurso aprendemos a criar-nos a nós mesmos " (EISNER, 2002:2, tradução da autora)36
Agindo pela afirmação de uma cultura e valores transversais, que contextualizam o es- paço de ação, será por demais relevante pensar uma dialética dos campos de ação do pensamento estético que é apropriada pelos indivíduos. E assim, nesta apropriação, é possível a sua transformação. Não será no entanto na massificação de valores e repro- duções, na indefinição dos limites do discurso, mas sim num agir sobre o conflito onde são implicados. Importa retirar do campo do artístico elementos como a imaginação, como transposição de uma realidade puramente racional, alheada do corpo e dos senti- dos, num domínio prático e conceptual de libertação:
"A imaginação, essa forma de pensamento que gera imagens do possível, também tem uma função cognitiva criticamente importante a realizar além da criação de mundos pos- síveis. A imaginação também nos permite experimentar as coisas – de novo no olho da mente –, sem as consequências que podem surgir se tivéssemos de agir sobre elas em- piricamente.” (idem:5, tradução da autora)37
36 No original: “Our sensory system becomes a means through which we pursue our own devel-
opment. But the sensory system does not work alone; it requires for its development the tools of culture: language, the arts, science, values, and the like. With the aid of culture we learn how to create ourselves.” (EISNER, 2002:2)
37No original: “Imagination, that form of thinking that engenders images of the possible, also has a
critically important cognitive function to perform aside from the creation of possible worlds. Imagina- tion also enables us to try things out—again in the mind’s eye—without the consequences we might encounter if we had to act upon them empirically.” (EISNER, 2002: 5)
A imaginação é também um conceito fechado e usado segundo as funções sociais que ocupa. Se externa às áreas artísticas, a imaginação estará sobre o olho de um estado capitalista, individualizado e competitivo, surgindo nas ideias inovadores, produtoras de lucro e tecnologia, progresso. Esta dimensão pode ser posta em causa se a imaginação espelhar o que das artes existe como pensamento estético, sobre uma dimensão do social mais alargada. Retirando da capacidade de inovação uma renovação do próprio termo, alheando a perpetuação de consenso existente, há uma margem de cognição confinada apenas ao domínio artístico, que necessita de se posicionar para além dele. As artes têm contributos distintos e complexos, no desenvolvimento de contextos e pro- dução de pensamento conceptual e estético, na possibilidade de expressão e comuni- cação, na forma como se podem processar diferentes modos da experiência. Terão uma natureza própria, incapaz de se diluir e massificar, de se tornar alvo de uma função so- cial, pela capacidade de renovação da própria experiência:
“Uma obra de arte, não importa quão antiga e clássica, só o é de fato – e não apenas potencialmente – quando vive em uma experiência individualizada. Como pedaço de pergaminho, mármore ou tela, ela permanece idêntica a si mesma (dependendo dos es- tragos do tempo) durante séculos. Mas, como obra de arte, ela é recriada a cada vez que é esteticamente experimentada.” (DEWEY, 2010: 219)
Assim, será no campo do artístico que a experimentação da hipótese de libertação inci- dirá, sobre e com o pensamento estético, mas, como nas obras de arte, a sua apropria- ção para fora de si é o que define a sua capacidade de significação.
É também por isso que o erro já existe como estética, como produção própria, num mundo de convenções que o tentam anular. As artes assumem na sua contemporanei- dade a dimensão do conflito, como algo interno da complexidade dos mundos onde se insere. Pensar um domínio do ensino-aprendizagem que use, pratique e desconstrua os limites do próprio pensamento estético, as valências do pensamento e práticas artísti- cas, será fulcral não só nas áreas e cursos científicos artísticos, como nos outros exis- tentes, num assumir de capacitação individual e coletiva de produção de representações culturais inclusivas, libertadoras, produtoras de realidades.