Considerando o grupo cooperativo como a comunidade em estudo, composto pelos professores e supervisora, importa salientar que a prática que une os membros da mesma, é o trabalho desenvolvido diariamente pelos diferentes elementos do grupo – ciclo de actividade – que tem dois grandes objectivos: aprender (conceitos, técnicas, atitudes, etc.) e construir a identidade de cada um dos formandos enquanto pessoa e professor e, simultaneamente, a identidade do grupo.
A base da prática desenvolvida por esta comunidade, ou seja, o trabalho desenvolvido, tem como base os princípios da Movimento da Escola Moderna (MEM), a autoformação partilhada através da reflexão.
Lave e Wenger (1991) definem Comunidade de prática como” um conjunto de relações
entre pessoas, actividades e mundo, entendidos no tempo e em ligação com outras CP que culminam e se tocam (…) Implica a participação num sistema de actividades, acerca das quais os participantes partilham percepções relativamente ao que fazem e ao que isso representa nas suas vidas e para as suas comunidades”, desta forma fazer parte de um
grupo de profissionais onde a reflexão cooperada e fundamentada é o objectivo primeiro, ajuda os professores a conseguirem perceber e contextualizar as suas acções e concepções sobre o que é ser professor.
35 Considerando a comunidade como “aquilo que constitui o tecido social da aprendizagem” (Lave e Wenger, 1991), a integração neste movimento só se torna possível porque no professor vai crescendo um sentimento de pertença a esta comunidade; o professor vai construindo a sua identidade profissional a partir das múltiplas reflexões que vão ocorrendo; e vai encontrando um sentido para a sua profissão, desenvolvendo a sua prática dentro dos princípios do modelo do MEM.
Para que o professor consiga expor as suas dúvidas e erros, o MEM preconiza a necessidade e a importância da avaliação como forma de diagnosticar e compreender os Aspectos que não correm dentro do esperado. Dessa avaliação, importa que resultem contratos de trabalho e de ajuda, de modo a transformar o trabalho com os pares em aprendizagem real. Assim, a negociação e balanço constante entre os diferentes membros da comunidade permite que os seus membros vivenciem um sentimento de pertença, em que todos são importantes para o desenvolvimento de todos e para o desenvolvimento da própria comunidade. Por outro lado, este tipo de trabalho permite também que os elementos do grupo encontrem um significado, procurem um sentido, para o trabalho que realizam - serem cada vez mais capazes e competentes na sua profissão.
As vivências, experiências e relações que se vivem entre os membros deste grupo fazem com que se vá criando um repertório partilhado, sendo que quanto mais forte este se for tornando, menor vai sendo a necessidade de prolongar o discurso. Dentro do grupo, é notório como muitas vezes basta um olhar, um gesto ou uma palavra para que os membros se entendam e compreendam como os outros se sentem.
Sintetizando, o supervisor deve procurar que a seu grupo se transforme num grupo humano, caracterizado por partilhar uma linguagem, um estilo, hábitos e artefactos que todos entendem, isto é, em que os enunciados ditos sejam o mais próximo possível dos enunciados entendidos.
O alcançar de um cada vez maior grau de intersubjectividade deve ser uma preocupação diária do supervisor, não só porque lhe permite conhecer e ajudar melhor os seus formandos, mas também porque potencializa um ambiente de confiança, disponibilidade, segurança e descontracção onde as interacções entre pares e entre supervisor e professor são facilitadas.
É neste clima que os conceitos se começam a formar e organizar, é a partir da interacção e do diálogo com os outros (nível social) para mais tarde passar para o interior do indivíduo (nível individual). Mais uma vez a utilização da linguagem e a interacção com outros promovem a aprendizagem e desenvolvem o pensamento. No fundo é a linguagem a actuar sobre o pensamento e o pensamento a actuar sobre a linguagem.
36
Desta forma, parece-me fazer todo o sentido a promoção do diálogo, discussão e interacção entre pares, de forma a promover, ajudar e acelerar a aprendizagem e, claramente, desenvolver a identidade social do grupo, sendo que numa concepção construtivista do conhecimento, importa salientar a importância da motivação e do prazer para que as aprendizagens realizadas sejam aprendizagens significativas.
O processo de aprender a ser professor é, hoje em dia, encarado como um processo contínuo, aprendemos durante toda a vida, sendo que esse conhecimento está em constante modificação e diversificação, logo é um processo permanente e inacabado; é um processo social, pois todos nós vivemos em sociedade, baseada em interacções, em que a cooperação é um valor extremamente importante; e é um processo activo, pois deve partir do professor, ou seja, implica acção (prática), envolvimento (pertença), a procura de identidade e de significado.
Assim, quando nos centramos num grupo de cooperação do MEM, segundo as características identificadas por Lave e Wenger (1991), a voluntariedade, a interacção, a existência de um repertório partilhado, a união mantida através do apoio mútuo, a importância do contributo de cada um para que haja mudança e os diferentes níveis de participação, que nos levam a crer que este tipo de grupo é de facto uma CoP. Porém, o facto de haver hierarquia de papéis, de haver uma duração definida e de os membros não poderem ser meros observadores, poderá pôr em causa essa afirmação.
Contudo, parece-nos que o mais importante para este tipo de grupo é o trabalho que se desenvolve e o caminho que se percorre com o intuito de os seus membros se tornarem numa Comunidade de Prática, sendo de menos importância o facto de realmente o serem ou não .
Este trabalho e este caminho percorrido traz a esta comunidade e a cada um dos seus membros a coragem de correr riscos, aumenta a auto-estima, o auto-conceito, a eficácia e a autonomia de cada um, além de diminuir as sensações de fracasso, aumentar o poder de afirmação e a voz pessoal de cada um dos membros.
39
CAPÍTULO 4–METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO