Os impactos ambientais relacionados à moda estão presentes em todo o ciclo de vida da roupa, desde a obtenção da matéria prima ao descarte pelo con- sumidor. Mesmo tecidos de algodão, que são fabricados com fibra natural, ge- ram grandes impactos ambientais, como Rodrigues (2006, apud. berlim, 2009, p. 23) exemplifica:
Ao se comprar uma camiseta de algodão, tipo t-shirt, por exemplo, o individuo está consumindo 1,7kg de combustível fóssil, geran- do 450g de resíduos sólidos originários da fabricação da camise- ta, emitindo 4kg de CO2 na atmosfera, e este gasto multiplica-se quando se leva em consideração a energia necessária para se lavar e passar esta camiseta durante sua vida.
performance ambiental, o que se deve principalmente ao elevado consumo de pesticida e água durante o cultivo. Kalliala e nousiainen (1999) alertam que a cultura do algodão requer montantes de água para irrigação, que variam de 7 a 29 toneladas por kg de fibras de algodão cru. berlim (2009) cita a Organização Mundial da Saúde ao mostrar os seguintes dados:
- 160g de agrotóxicos são utilizados para produzir algodão sufi- ciente para confeccionar uma camiseta que pesa 250g;
- 25% dos inseticidas produzidos no mundo são utilizados na plantação do algodão convencional;
- um hectare de lavoura de algodão utiliza oito vezes mais agrotó- xicos do que um hectare de lavoura de alimentos;
- O gasto com agrotóxicos na plantação de algodão despende, anualmente, uS$ 2,6 bilhões;
- 25 milhões de pessoas por ano se envenenam pelo uso excessivo, ou incorreto, de agrotóxicos na agricultura;
- O brasil é o terceiro maior consumidor de agrotóxicos no mun- do.
A maioria dos agrotóxicos utilizados nessa cultura são os organofosfora- dos e carbamatos, que têm alto nível de toxicidade. Os efeitos causados nos trabalhadores são de ordem neurológica, como confusão mental, prejuízos da capacidade de abstração verbal, atenção, memória e depressão (berlim, 2009). há possibilidade de tais efeitos estarem associados ao aumento do índice de sui- cídios nas regiões onde são utilizados. A Swedish Standards Institution (apud. Kalliala e nousiainen, 1999) alerta que trabalhadores rurais expostos aos pro- dutos organofosforados podem sofrer de fadiga, irritação dos olhos e garganta, náuseas e diarreia, além de serem encontrados em altas concentrações no leite materno das mulheres que vivem perto das áreas cultivadas com uso intensivo de pesticidas e agrotóxicos.
Por ser a indústria têxtil uma atividade economicamente forte, o consumo de água para o seu funcionamento é em grande escala, um dos fatores que fazem com este consumo esteja em níveis aci- ma de padrões desejáveis, aliados ainda à inexistência de tecnolo- gias de ponta que possam fazer com que este consumo tenha uma queda representativa durante o processo.
A água é utilizada no beneficiamento têxtil em todas as etapas, líquida ou vaporizada; de forma direta, nos processos de lavagem, tingimento e amacia- mento, e de modo indireto para aquecer ou resfriar, além de outros usos rela- cionados, como solvente dos produtos químicos transportados necessários à produção.
O beneficiamento têxtil consome grandes quantidades de produtos quími- cos em seus processos (Alcântara e Daltin, 1996; Araújo e Castro, 1987). São utilizados ácidos como agentes acidificantes e neutralizantes, que regulam o ph durante os processos de tingimento. O ácido acético é o mais utilizado na indús- tria têxtil. Outro produto químico utilizado é o hidróxido de sódio, comumente conhecido como soda cáustica. este álcali é utilizado na mercerização, purga, alvejamento e também no tingimento para regularizar o ph. Outro álcali uti- lizado na beneficiamento têxtil é o carbonato de sódio, que também auxilia na fixação de corantes. O beneficiamento têxtil ainda utiliza sais, agentes oxidantes e redutores, umectantes, amaciantes, fixadores e grande variedade de corantes.
Tantos produtos químicos e a grande quantidade de água utilizada na in- dústria têxtil causam impacto ambiental significativo. O potencial contaminan- te da indústria têxtil, no total, é considerado médio, porém são as etapas do beneficiamento têxtil, principalmente tingimento e acabamento que se mostram mais impactantes do ponto de vista ambiental (berlim, 2009; Santos, 1997).
A água poluída da indústria têxtil, se despejada diretamente nos rios, pode levar os peixes à morte por asfixia. A água com metais pesados, como cobre, zinco, chumbo, e mercúrio chegam produzem efeitos nocivos cumulativos em seres vivos. Ferreira et al. (2009, p. 13) ainda apontam
problemas com o abastecimento público (contaminação microbio- lógica, variações nas qualidades dos mananciais, produtos quími- cos e inorgânicos causando alterações como: dureza na cor e no sabor; e o encarecimento do tratamento); comprometimento do abastecimento industrial (limitação para as indústrias e operação e manutenção das caldeiras); problemas na indústria da pesca, na navegação, na agropecuária e na recreação.
A tabela seguinte mostra pontos de geração de poluentes na indústria têxtil. A marcação realça as etapas do beneficiamento têxtil.
Pontos de geração de poluentes nas indústrias têxteis.
Tabela 4.3:
Fonte: Ferreira et al. (2009).
Mesmo depois de produzido, o algodão ainda gera impactos ambientais durante sua vida útil, notadamente nos processos de lavagem e secagem artifi- cial. O algodão, devido a sua alta hidrofilidade, consome três vezes mais água e quase o dobro de energia (72%) para lavagem do que o poliéster (Kalliala e nousiainen, 1999). Ainda, o consumo de energia durante a secagem artificial também é 29% superior ao do tecido 50% algodão e 50% poliéster.
no entanto, os mesmos autores ressaltam que ainda que a manutenção dos têxteis de algodão consuma muita energia elétrica e água, o impacto ambiental
Produtos de moda têm o ciclo de vida completo, porém muito breve. Atualmente as coleções de moda presentes no mercado têm duração máxima de três meses (Rech, 2006). berlim (2009, p. 26) reforça que “os produtos de moda talvez sejam aqueles que têm menor e mais frágil vida útil, pois são geridos den- tro da lógica da moda, um sistema que dignifica o presente e a efemeridade”. um produto de moda tem utilidade enquanto “está na moda”, e é descartado bem antes do fim da vida potencial do produto (Martins e Santos, 2008).
esse dado reflete o atual comportamento do consumidor, constantemente incentivado a adquirir novos produtos. Rech (2006, p. 227) mostra que “a base do sistema de moda reside na idéia da renovação permanente dos produtos de moda, na obsolescência programada, e na proposição de que o consumidor quer sempre algo inevitavelmente inovador”.