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Un déficit plus global ?

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3.3 Troubles du spectre de l’autisme (TSA)

3.3.3 Un déficit plus global ?

Essas elaborações, a partir das figuras matemáticas, Nicolau desenvolve ao longo do capítulo XIII, XIV e XV do Livro I. 93 Apesar de certa dedicação que Nicolau de Cusa dá ao uso das formas matemático-geométricas, concordo com Constanza K. Guendelman, que o destaque “dentro da Matemática” é sua contribuição para o conceito coincidentia oppositorum sob o prisma do infinito. Portanto, não entrarei em detalhes a respeito do uso de seus símbolos geométricos, etc., bastam algumas poucas considerações (GUENDELMAN, 2009, p. 39).

As figuras matemático-geométricas para Nicolau de Cusa eram símbolos representacionais do infinito.

Matemática, cuja importância como nova linguagem e instrumento conceptual se vai impondo progressivamente. E no cruzamento destas duas tendências, às quais se poderia juntar a renovação do interesse por um uso perfeccionista das línguas clássicas, que Nicolau de Cusa mostra a sua fecundidade e, ao mesmo tempo, a liberdade e independência com que vive criativamente as marcas do seu tempo. (ANDRÉ, 1995, p. 1995)

Nele a matemática simbolicamente ganha uma proporção ainda maior se comparado com a escolástica em geral, principalmente por sua peculiaridade com os símbolos matemático-geométricos. Para Nicolau a matemática é a que melhor representa sua forma especulativa: “não nos entreabre outro caminho de acesso às coisas divinas senão mediante símbolos, poderemos usar mais vantajosamente sinais matemáticos, devido à sua inalterável certeza” (CUSA, 2002, p. 64)

“O número [matemática] Cusano é o resultado por excelência do movimento próprio da mente racional” (D’AMICO, 2007, p. 16), ou seja, raciocinar é pensar matematicamente, pois nossa mente sempre avalia, identifica, separa, enumera, compara proporcionalmente, etc. “Está aí o elemento novo: que se exija dos símbolos, através dos quais temos acesso ao divino, não apenas a plenitude e a força sensível, mas sobretudo a precisão e a certeza intelectuais” (CASSIRER, 2001, p. 90).

A exemplo de outros pensadores, a matemática é tida por Nicolau de Cusa como uma ciência importante para o conhecimento, ele cita o próprio “platônico Aurélio Agostinho, quando investigou a respeito da quantidade da alma e da imortalidade (...) recorrendo à matemática (CUSA, 2002, p. 64). Diz Constanza Kaliks Guendelman: “Nicolau era um bom

93 Cf. ANDRÉ, João M. Da Mística Renascentista à Racionalidade Científica Pós-moderna, 1995. Neste artigo é

conhecedor dos conteúdos matemáticos; foi amigo de Toscanelli, um dos físicos e matemáticos italianos mais proeminentes de sua época, e dele recebeu importantes ensinamentos” (GUENDELMAN, 2009, p. 39).

Nicolau recorda pensadores que utilizaram a matemática, como “Pitágoras, Boécio, Santo Agostinho” (Cf. CUSA, 2002. p. 56- 63).94 O próprio Aristóteles “recorreu às formas matemáticas” (Nicolau citando uma passagem do De anima de Aristóteles), para justificar que a matemática já era tida como um tipo de conhecimento de acesso ao divino, “(...) trilhando esse caminho dos antigos e com eles concordando, dizemos: já que não se nos entreabre outro caminho de acesso às coisas divinas se não mediante símbolos” matemáticos” (Cf. CUSA, 2001, p. 63-64).

Com isso, a matemática torna-se sua aliada em todas as suas obras na forma simbólica de apresentação dos conceitos que ele utiliza. Em De Docta Ignorantia, no Livro I, do capítulo XI ao XV, Nicolau dá um enfoque nas figuras geométricas como a reta, o triângulo, o circulo, a esfera, sempre em alusão ao Infinito (Uno).

“Portanto, se na potência da linha finita estão todas essas figuras [geométricas] e a linha infinita é em ato tudo que a linha finita é em potência, segue-se que a linha infinita é triângulo, círculo e esfera” (CUSA, 2002, p. 68). Nicolau faz uso dessas representações geométricas para dizer que mesmo na aparente contradição entre as diferentes figuras, se todas estiveram em um ponto infinito (no Uno), todas encontrarão seu ponto de convergência, ainda que sejam geometricamente diferentes.

E com o auxílio matemática, Nicolau procura demonstrar as aparentes contradições em todos os níveis racionais e sensíveis nada mais são do que parte do processo do conhecimento do finito que sempre aspira pelo Uno, pelo Máximo Absoluto. E uma vez compreendido pela douta ignorância, o conhecimento toma novos rumos, bem como o uso dos conceitos, assim como a matemática – simbolicamente, a exemplo dos pitagóricos: “As figuras matemáticas ocupam um posto mais elevado que os nomes de Deus como símbolos” (LYRA, 2010, p. 76). A metafísica que Nicolau apresenta possui certa originalidade em comparação com a Escolástica exatamente no uso lógico matemático. Nicolau diz: “o número não está apenas na quantidade, que é causa da proporção, mas em todas as coisas que, de algum modo, podem concordar ou diferir, quer substancial, quer acidental” (CUSA, 2002, p. 43). “A matemática torna-se para ele o símbolo autêntico, o único símbolo verdadeiro e ‘preciso’ do pensamento especulativo e da visão especulativa que reúne os opostos, nihil certi habemus in nostra

94 Pela influência neoplatônica, Nicolau de Cusa tinha grande apreço pelo pensamento de Pitágoras, a ponto de

scientia nisi nostram mathematicam (não temos nada de certo na nossa ciência, a não ser a

nossa matemática)” (CASSIRER, 2001, p. 25).

Pelas definições peculiares sobre finito e infinito e a apropriação aos símbolos matemáticos, Nicolau de Cusa também foi tido como um grande interlocutor do pensamento matemático de sua época ao trabalhar, por exemplo, o conceito de “quadratura do círculo”.

O mundo do múltiplo por ser comparativo e determinado, é também conceito de proporcionalidade. Sendo assim, a ciência matemática é a responsável por toda e qualquer medição de toda proporcionalidade no mundo. Tudo que se pretende ser conhecido nesse mundo não escapa à matemática, porque esse mundo múltiplo é matematizado, onde se conhece por comparação (semelhança).

Como o múltiplo é o Máximo Absoluto na condição de contracto (concretizado), a matemática torna-se representação do Máximo por lidar com o mundo do múltiplo. Por isso o Máximo, enquanto contracto, é simbolizado pela matemática, pois só ela é capaz dessa representação mais próxima do Máximo. O mundo finito torna-se a representação concreta do mundo infinito. “Assim como o abstrato está no concreto, assim consideramos primeiro o máximo absoluto no máximo contraído, pois ele está, consequentemente, em todas as coisas particulares” (CUSA, 2002, p. 124). O Máximo encontra-se no mundo finito, no universo concretizado. Se a matemática é a ciência mais exata para esse mundo, segundo Nicolau, consequentemente deve buscar as melhores analogias do Máximo Absoluto. Como diz o próprio Nicolau: “poderemos usar mais vantajosamente sinais matemáticos, devido à sua inalterável certeza (CUSA, 2002, p. 64).

Porém os símbolos não são meras representações, estão próximo do divino e ao mesmo tempo são crivo do nosso próprio intelecto. “(...) Há a aceitação de que o homem pode conhecer de modo preciso aquilo que brota exclusivamente do seu pensamento, como é o caso dos entes matemáticos” (ANDRÉ, 1995, p.76). Assim devemos esgotar ao máximo o uso dessa ciência exata para conhecer não só o mundo, mas inclusive a nós mesmos, nossas limitações.

Dessa forma a matemático-geométrica se torna uma ciência especulativa na obra de Nicolau de Cusa, e representação simbólica máxima do Infinito, além do seu uso no mundo finito. A matemática, enquanto representação simbólica é a que pode chegar mais próximo de um conceito com valor universal ou absoluto. “(...) Exige dos signos que constituam um sistema em si, um conjunto ordenado e de validade universal. (...) E essa exigência não pode ser satisfeita por outra via, senão através da matemática” (CASSIRER, 2001, p. 93). Ela,

matemática, está para os números como o Máximo Absoluto está para o múltiplo. Torna-se representante do Máximo Absoluto, do Uno, diante da multiplicidade finita.

(...) Se a série de números pode ser visto como um símbolo do ser sensível e a unidade como um símbolo do ser intelectual puro, se trata de investigar e apreender o Uno, não em isolamento abstrato, mas sim na sua implantação, isto é, dentro do mundo da pluralidade mesmo (CASSIRER, 1993a, p. 83).

Nessa visão especulativa, que encarava a necessidade do uso simbólico da linguagem, e não no sentido lógico objetivo que cria na total correspondência entre linguagem e a realidade, a especulação simbólica utilizada por Nicolau de Cusa sabe que é limitada diante do infinito (Máximo Absoluto). Por isso que Nicolau afirma ser a matemática uma “investigação simbólica”, já que “os objetos matemáticos são finitos” (CUSA, 2002, p. 65).

João Maria André diz que Nicolau trabalha a linguagem em três perspectivas: “1° - a Trindade é pensada a partir da linguagem; 2° - a criação é concebida a partir do modelo discursivo-linguístico; 3° - o conhecimento é também visto a partir do modelo linguístico” (ANDRÉ, 1993, p. 371).

Esses símbolos matemáticos, em Nicolau de Cusa, se apresentam como a reta, o triângulo, o círculo, a esfera, o polígono, etc., todas levadas ao infinito, especulativamente, para estabelecer a relação entre finito e infinito, entre o múltiplo e o Uno a partir da simbologia matemática. Nicolau cita, por exemplo, o uso dessas figuras geométricas por Anselmo que “comparou a verdade máxima com a reta infinita” (CUSA, 2002, p. 66).

A ideia primordial ao utilizar todos os símbolos matemático-geométricos, é provar que todas as suas figuras se levadas ao infinito, ou seja, qualquer figura se elevadas suas formas geométricas (linhas) ao infinito, em determinado momento convergirá em uma união que converge Uno. Pois ele é o infinito, e se a figura é colocada sob o infinito, logo não haverá mais diferenças geométricas. Dessa forma não importa se compararmos um quadrado com um círculo, ou uma esfera com um triângulo, todos elevados ao infinito convergem no Uno Infinito. Esse exercício abstrativo das figuras geométricas é uma fundamental representação que Nicolau faz em relação à multiplicidade que coincide (coincidentia oppositorum) no Infinito. Ocorre que tudo que está em potencialidade é finito, portanto diferentes entre si, mas quando está em ato (no Uno = Infinito) tudo coincide. A isso Nicolau dá um exemplo entre linha finita e Infinita: “É manifesto como a linha infinita é infinitamente em ato tudo o que em potência são as linhas finitas” (CUSA, 2002, p. 72). Tanto a linha, o triângulo, o círculo, a esfera, não importando qual seja suas diferenças, elas se encontram em unidade no Infinito, já que no Infinito não há mais complexidade, mas apenas a simplicidade.

Seja, pois, a nossa especulação, a qual versou sobre o fato de a curvatura infinita ser infinita retitude, aplicada, em sentido figurado, o máximo, no que respeita à essência simplíssima e infinitíssima dele, pois ela é a essência mais simples de todas as essências. (CUSA, 2002, p. 74)

Portanto visa o uso especulativo via matemática, não apenas ressaltar as diferenças, mas, ao mesmo tempo, a simplicidade que na condição infinita. Vejamos adiante como essa especulação continua sendo apresentada por outras formas conceituais representativas.

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