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kampung jakartanais

2. Constitution de la population jakartanaise

O brincar foi a grande palavra desta pesquisa porque, na busca pelas expressões das culturas infantis, o tema saltava das crianças nos vários momentos

do dia. Mesmo em sala de aula, com o controle do adulto, as crianças encontravam linhas de fuga para brincar:

Na hora da chamada, a cada nome, as crianças respondiam por todos: “Presente!”. E riam muito do coro que faziam para responder a chamada. Entendi que era uma brincadeira combinada sutilmente num momento em que a professora estava concentrada em registrar quem foi e quem não foi para a aula. (Diário de campo, abril, 2013).

Na aula de educação física, as crianças davam risada da brincadeira de derrubar o amigo no E.V.A. e torciam uns pelos outros, apesar do rigor e do elevado tempo individual de espera. As crianças reproduzem a postura do adulto. B. repreendeu um colega imitando a professora: “Não pode trazer brinquedo porque hoje não é dia de brinquedo!” (com voz alterada com seu colega). (Diário de campo, setembro, 2013).

Para Vygotsky (1978), na interação com outras pessoas a criança está em condição de realizar atividades que provavelmente não realizaria sozinha. Nesse sentido, estar junto e interagir é uma oportunidade de aprender e desenvolver progressivamente a autonomia. Durante as observações, o ponto alto sobre esse aspecto observado aconteceu nos momentos de recreio, quando as crianças brincavam sem a interferência dos adultos. O momento do recreio é o mais nobre para as crianças porque é onde elas podem brincar. Algumas delas são castigadas sem poder brincar no recreio quando não se comportam, e isso é uma perda para elas.

O espaço do recreio é separado por uma grade para as crianças do pré e do primeiro ano para evitar que elas se misturem com os maiores, que estão na quadra e no campo. Nesse espaço limitado, acontecem as interações, as conversas, as brincadeiras e as brigas. Crianças do 5º ano são escaladas para cuidar das crianças pequenas no recreio. A cada semana, uma turma recebe o colete amarelo, que simboliza aqueles que cuidam para que as crianças não briguem e não corram demais, conforme relato de uma menina do quinto ano que atendia o recreio em um dos dias observados. “Se brigarem feio, levo para a diretora”.

O espaço é apertado para o número de crianças. Há uma calçada de cimento e um banco de cimento nas laterais e não há brinquedos. As crianças improvisam brincadeiras subindo nas grades laterais ou escalando os bancos de cimento. Elas correm nesse espaço e a brincadeira de mãe-pega predomina entre os meninos, conforme trecho do diário de campo:

No recreio percebe-se muita espontaneidade. As meninas começaram uma brincadeira de pular na lama da chuva, que logo foi aderida pelos meninos. A brincadeira recorrente é mãe pega. Eles também improvisaram uma bola com um boné, para brincar de cada grupo correr e o outro tentar pegar. (Diário de campo, agosto/2013).

No recreio é possível identificar lideranças, o que não é possível na sala de aula. Sempre são as mesmas crianças que ditam as regras das brincadeiras e elas são rodeadas por outras crianças, que esperam pela voz de comando.

As brincadeiras preferidas das crianças são as que exigem sair do lugar e correr até o amigo, em especial aquelas que oferecem algum tipo de desafio para se conquistar o território alheio. Correr, pega-pega, futebol, bola, esconde-esconde e cabra-cega têm 39% da preferência das crianças.

Tabela 14 – As brincadeiras preferidas

Quais suas brincadeiras preferidas? (Algumas crianças responderam mais de uma):

Quantidade de respostas Parquinho 2 Correr, pega-pega 3 Boneca 2 Motinha, carrinho 5

Pedra, papel, tesoura 1

Jogo da memória 1

Bola, futebol 3

Dois ou um 1

Videogame, Xbox, PlayStation 3

Fliperama 1 Cobra-cega, esconde-esconde 3 Boliche 1 Cavalinho 1 Soltar pipa 1 Ana Banana 2

A tabela mostra um fato interessante sobre brincadeiras preferidas. Apenas 10% das respostas referiram-se a brinquedos com tecnologia como videogame,

Xbox ou Playstation. As demais brincadeiras têm foco no correr, explorar, fugir, manusear brinquedos como pipa, boneca, cavalinho e boliche. Algumas crianças responderam mais de uma brincadeira e todas foram registradas na tabela.

Outro aspecto sobre as culturas infantis escutado na pesquisa refere-se aos programas de televisão mais assistidos pelas crianças:

Tabela 15 – Programas de TV preferidos

Programação Quantidade

Desenho Alfa e os Lobos 1 menino

Barbie 2 meninas

Sereia 2 meninas

Hora da aventura 1 menino

Novela 2 meninos

Ben 10 2 meninos

Pica-Pau 2 meninos

Hot-Wheels 1 menino

Novela Carrossel 4 (2 meninos e 2 meninas)

Discovery Kids 1 menina

Tartarugas ninja 1 menino

Júlio – desenho 1 menino

Hot-Wheels 1 menino

Desenho e filme da Barbie 1 menina

Discovery Kids 1 menino

Nas observações, não se constatou nenhuma relação dessas brincadeiras e programas de TV com a aprendizagem da criança, com exceção da aula de informática, onde as crianças brincam com jogos eletrônicos, porém com uma abordagem que classifica jogos de aventura para meninos e jogos mais calmos, como os de pintura e vestir roupas em bonecas, para meninas, conforme trecho a seguir:

A professora de Informática levou os alunos até sua sala e pediu para se sentarem no chão, enquanto explicava no computador o que iriam fazer. Disse que, por se tratar da semana das crianças, iria deixá-los brincar com jogos. Colocou para os meninos um site com jogos de aventura na selva e desafios e para as meninas, um site com jogos de irrigar plantas, bonecas

para vestir roupas e saladas de frutas para completar. O visual do site das meninas tinha predominantemente a cor rosa, com atividades que exigiam apenas domínio do mouse para colocar peças nos lugares certos. O site dos meninos era mais colorido, com desafios como navegar num rio com pedras e correnteza, sem cair do barco, fugir de animais e vencer obstáculos, que exigiam manuseio do mouse e de alguns controles no teclado. (Diário de campo, agosto, 2013).

Nesse relato, é possível observar que vem da professora a separação do que é jogo masculino ou feminino, e um interesse evidente das meninas pelos jogos que somente os meninos jogavam, porque ofereciam maior grau de desafio do que aqueles propostos às meninas. É importante refletir sobre a medida na qual a escola impute nas novas gerações algumas distinções de gêneros que contribuem para disseminar preconceitos, como nesse exemplo, em que meninas são mais calmas e meninos mais agitados.

Não se identificou a utilização de jogos na alfabetização das crianças nos dias observados. Em certa medida, há uma preocupação da Professora Aurora sobre não pressionar a criança na alfabetização, conforme o trecho do diário de campo, durante uma atividade de alfabetização no caderno:

Professora: “Pode errar?”. Crianças: “Pode!”.

Professora: “Por quê?”.

Crianças: “Por que a gente está brincando de aprender”. (Diário de campo, maio, 2013).

Na escola Boniteza, há tantos cadernos e livros, e o tempo que poderia ter para aprender por meio do brincar, se gasta para preencher suas páginas com atividades de repetição e memorização, desconsiderando a importância do brincar na construção de processos de desenvolvimento e de aprendizagem, desconsiderando a motivação que o brincar provoca na criança. A criança demonstra sua desmotivação de algumas formas, seja na apatia, na agitação, no pedido para ir ao banheiro, na conversa paralela, demonstrando não estar envolvida na atividade proposta pela professora.

Sobre amizade

As crianças sempre elegem uma pessoa para ser o seu melhor amigo, com critérios de proximidade da carteira na sala de aula ou de vizinhança em casa, ou alguém que eles admiram por alguma conquista ou por serem mais fortes que eles.

Vejamos alguns exemplos:

A.: “Meu primo é legal. Ganha de mim em tudo. Futebol, videogame, todos os jogos. Nunca a gente briga”.

J.: “Nicolas é meu amigo porque ele aposta corrida e nunca a gente briga”. D.: “Edgar é meu amigo, meu irmão. Ele cresce mais rápido e ele ainda tá com sete (anos)”. (Diário de campo, maio, 2013).

Nesses depoimentos sobre melhor amigo, há em comum uma admiração e algo em que o amigo é melhor do que eles. Ou ganha no jogo ou é mais rápido ou grande. Amizade significa produzir atividade compartilhada em conjunto, em uma área específica, e protegê-la contra as invasões alheias (CORSARO, 2011, p. 165), e as invasões alheias podem vir acompanhadas de brigas, conforme definição de quem não é amigo, a partir de suas experiências entre pares:

Professora de Ensino Religioso: “O que é amizade?”.

R. (menino): “Quando não é para bater no colega, não pode deixar de ser amigo e tem que cuidar da mão para não bater no amigo”.

Professora: “É muito importante não bater no amigo”. S. (menino): “Arthur bateu nas minhas costas”.

Professora: “Amigo é alguém para brincar, para passear, ser amigo”. S.: “Arthur não é”.

Professora: “Amigo é como se fosse nosso irmão”. T. (menina): “Eu tenho irmão”.

Em coro, os demais dizem: “Eu também! Eu também!”. Professora: “Nosso tema de hoje é “amizade”.

R. mostra o caderno para o colega sentado ao seu lado. É um desenho do Homem-Aranha. Conversa com o amigo do lado sobre amizade:

– Você é meu amigo, você não me bate.

Os dois tocam um na mão do outro, com os dedos fechados, dizendo: - Amigos! (Diário de campo, junho, 2013).

Interessante comparar a frase da professora relacionando amigo com irmão: “Amigo é como se fosse nosso irmão”. Para F., uma menina bem quieta de 5 anos, não são conceitos iguais:

F.: “Eu tenho irmão, ele tem oito anos e estuda aqui, ele conta piada pra mim”.

Pesquisadora: “Ele é seu amigo?”.

Flora: “Não, ele é meu irmão”. (Diário de campo, 2013).

Há justificativa para a escolha do melhor amigo:

A.: “Meu amigo é legal. Ganha de mim em tudo. Futebol, videogame, todos os jogos. Nunca a gente briga”.

J.: “Nicolas é meu amigo porque ele aposta corrida e nunca a gente briga”. D.: “Edgar é meu amigo, meu irmão. Ele cresce mais rápido e ele ainda tá com sete anos”. (Diário de campo, maio, 2013).

Em alguns momentos, é possível intervir no trabalho do colega, como na situação em que B. mostrou ao S. o desenho de um jacaré:

B. (seis anos): “Olha esse jacaré!”.

S. (cinco anos) respondeu: “Isso não é um jacaré, é um peixe-espinho!”. B. retrucou: “Peixe-espinho não existe!”.

O colega apagou o desenho e desenhou de novo seu jacaré. (Diário de campo, abril, 2013).

Aqui se observa que eles encontram formas de intervir na aprendizagem uns dos outros, mesmo no contexto que desfavorece que aconteça. Um exemplo sobre o companheirismo das crianças aconteceu em uma aula de educação física:

Estavam brincando em grupos com o jogo da memória, que consistia em cada um virar duas cartas, se fossem iguais eles ganhavam ponto e pegavam as cartas para si. A princípio seria um jogo de disputa individual. Mas, pouco tempo depois de começarem, um dos meninos começou a dizer “tá frio, tá frio, quente, quente” sinalizando a proximidade da mão da menina com a carta certa que ela deveria pegar. Frio seria se a carta estivesse longe, quente para perto. Essa brincadeira ganhou o grupo e a competição foi deixada de lado. Começaram a ajudar os outros colegas a acertar a carta. Depois voltaram a competir. (Diário de campo, novembro, 2013).

O companheirismo é muito presente no recreio. Quando um deles cai e se machuca ou chora por causa de uma briga, juntam-se rapidamente para apoiá-lo e chamar um adulto para ajudar. Há grupos de meninas e meninos brincando no recreio, conforme trechos do diário de campo:

No recreio muitas meninas caminham abraçadas, e as grandes pegam as pequenas no colo para passear. Não vi nenhuma menina agredindo a outra. (Diário de campo, março, 2013).

Os meninos brincam de pega-pega, correm mais rápido, falam mais alto e alguns tentam resolver os conflitos batendo nos outros. Apenas algumas meninas entram nas brincadeiras com os meninos. E essas repetem os comportamentos dos meninos. Diariamente as meninas levam A., que teve paralisia cerebral, para brincar de mãos dadas no recreio. Algumas meninas ficam sentadas na hora do recreio, conversando sobre suas bonecas. As bonecas parecem a boneca Barbie, com roupas e acessórios rosa, parecidos com os das meninas. (Diário de campo, abril, 2013).

Alguns meninos que não respeitam as regras dos jogos, na hora do recreio, recebem socos dos outros, recebendo gritos com voz forte para prestarem atenção, e logo voltam a seguir as regras. As crianças que bateram nos dias de observação pediram desculpas e abraçaram o colega em seguida. É um gesto que repetem, aparentemente, sem pensar sobre seus atos, mas que foi ensinado pelos adultos. (Diário de campo, maio, 2013).

As meninas geralmente andam abraçadas no recreio, ou as maiores pegam as menores no colo. Oito meninas entrevistadas disseram que o que as irrita são brigas, conforme esses exemplos:

T.: “Me irrita brigas e que briguem com minhas amigas”. F.: “Brigar com minhas amigas”.

J.: “Brigar e apanhar”. A.: “Brigas e gritar”.

N.: “Barulho de briga”. (Diário de campo, setembro, 2013).

A falta de paciência com aqueles que não sabem fazer o que as crianças sabem as irrita. A irritação vem sempre relacionada a uma pessoa que faz algo que a criança não gosta:

C. (menina de cinco anos): “Minha irmã me incomoda e me irrita. Ela faz cócegas em mim”.

D. (menino de seis anos): “O João, que não sabe mexer no computador, me irrita! Eu fico com raiva, ele é maluco”. (Diário de campo, setembro, 2013).

As meninas usam acessórios rosa, mochilas, estojos, laços no cabelo, casacos, botas, a maioria rosa. Elas se identificam assim. Preponderantemente há divisão nas brincadeiras – seja no recreio ou na sala, as meninas se separam dos meninos, como se quisessem proteger seu espaço.

As meninas brincam muito dessa brincadeira: “Ana Banana, faz xixi na cama, 24 horas flash” (abre a perna e pula. Cada vez que canta abre mais a perna. Ganha quem não cair no chão). Elas não permitem a participação dos meninos. (Diário de campo, setembro, 2013).

B. é rotulado como briguento e bagunceiro pela professora e pelos amigos. B. recebe queixas de muitas crianças. Ao perguntar a elas separadamente o que as irrita, B. é muitas vezes citado:

G.: “O B. me irrita, porque ele torceu meu braço”.

Ga.: ”O B. vai toda hora no banheiro, até na aula de informática e educação física. Ele vai dar uma passeadinha no banheiro” (a própria criança aponta a estranheza de alguém se ausentar de aulas tão interessantes, como informática e educação física, para ir ao banheiro).

J.: “Brigar, quando o B. briga”. (Diário de campo, abril, 2013).

Ao perguntar para B. o que ele gosta de fazer no recreio, respondeu:

Eu faço muitas coisas, eu brinco, faço coisas legais, um pouco terríveis, como quando alguém faz alguma coisa errada. Eu bato, mas depois eu peço desculpas, daí perdoa, e todo mundo vai longe de mim e eu brinco com outra pessoa. (Diário de campo, agosto, 2013).

B. demonstrou saber como agir para arrumar suas brigas na sequência: bater, pedir desculpas, arrumar outro amigo. É um jogo de “aproximação/evitação” (CORSARO, 2011) que repete todos os dias. Alguns também demonstram saber resolver conflitos entre si:

Dois meninos brigaram no recreio, porque um não respeitou a regra do pega-pega. Quando A. começou a chorar, G. abraçou-o e pediu desculpas, os dois se deram a mão e voltaram a brincar, sem interferência de adultos. (Diário de campo, junho, 2013).

Ao conversar sobre o circo, B. disse não gostar de palhaço porque ele faz brincadeiras bobas. J. também disse não gostar de palhaços. Lembrei-me que muitas crianças não gostam de palhaço, ao contrário do que pensamos, que sua aceitação é unânime entre as crianças. A professora percebeu essa discussão e disse: “Nem todos precisam gostar das mesmas coisas, mas precisamos respeitar as escolhas”.

É no recreio que brigam muito. Relacionam suas vitórias nas brigas com coragem e força, conforme relato:

J.: “Eu sou fortão, no pré me chamavam de batedor, porque eu batia em todo mundo. Aqui não bato, mas ajudo as meninas a trapacear no pega- pega. Elas fazem cócegas e os meninos perdem”. (Diário de campo, setembro, 2013).

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