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Concevoir des situations d’apprentissage collectif

Chapitre 4. L A QUESTION DE LA MOTIVATION

5.3. L’apprentissage collectif et ses problématiques de conceptionconception

5.3.4. Concevoir des situations d’apprentissage collectif

· Menos tempo para outras coisas importantes na vida,

· Difi culdade de conciliação entre vida familiar e vida profi ssional, · Problemas e complicações associados à educação de uma criança, · Não quer ter a responsabilidade de ter um fi lho/mais fi lhos, · Problemas de saúde.

2. (In)Estabilidade económica

· Difi culdade para conseguir emprego, · Custos fi nanceiros associados. 3. Gravidez, conciliação e idade:

· A gravidez e o parto são difíceis para as mulheres,

· Difi culdade de conciliação entre vida familiar e vida profi ssional, · Não ter idade para ter fi lhos,

· Não quer ter a responsabilidade de ter um fi lho/mais fi lhos. 4. Negociação entre o casal e idade:

· O(A) cônjuge/companheiro(a) não quer, · Não ter idade para ter fi lhos.

A primeira dimensão refl ete uma associação entre o hedonismo e o estilo de vida mais ativo, do ponto de vista social, por parte do estrato mais jovem em idade reprodutiva. A segunda dimensão distingue os jovens em função da sua situação económica e profi ssional. A terceira dimensão opõe a opinião sobre a gravidez e a difi culdade de conciliação entre a vida familiar e a vida profi ssional em relação à idade e à responsabilidade de ter um fi lho/mais fi lhos. Finalmente, a quarta dimensão opõe a vontade do cônjuge à idade.

Com base nestas 4 primeiras dimensões identifi caram -se 5 perfi s de indi- víduos (Figura 5.22 a Figura 5.24313131). Posteriormente, procedeu -se à classifi cação dos residentes, com idades entre os 18 e os 29 anos, tendo -se identifi cado 5 grupos homogéneos de pessoas que corresponderam aos perfi s identifi cados e cujas principais características são (Figura D.1 e Tabela D.9 do Anexo D):

• Grupo 1 – residentes (cerca de 36 %) que só consideram importante, para a sua decisão de não terem fi lhos ou não quererem ter mais fi lhos, a instabilidade fi nanceira. Os indivíduos com escolaridade ao nível do 1.º ciclo e os homens tendem a ajustar -se mais a este perfi l. Observa -se que 40 % dos indivíduos deste grupo estão a viver com os pais, o que pode indicar que estão a atravessar um período de difi culdades económicas e profi ssionais.

31. Para facilitar a leitura

destas figuras representaram- -se apenas as categorias das variáveis que mais contribuíram para a definição das dimensões consideradas. Apresentam -se os pares de dimensões que melhor permitem identificar os perfis.

• Grupo 2 – compreende cerca de 19 % dos residentes que se distinguem dos restantes por considerarem os motivos associados ao hedonismo como justifi cação para não quererem ter ou não quererem ter mais fi lhos. Este grupo é composto essencialmente por indivíduos sem fi lhos, em que 70 % vivem com os pais. Parece assim tratar -se de indivíduos que pretendem desfrutar a vida sem vivenciarem a parentalidade (pelo menos, até ao momento).

• Grupo 3 – abrange aproximadamente 14 % dos residentes. Este grupo é constituído maioritariamente por mulheres que, para além do receio associado à gravidez e ao parto, também têm difi culdade em conciliar a vida profi ssional e familiar, não sendo a idade, nem o assumir das res- ponsabilidades associadas a ter -se um fi lho ou mais fi lhos importantes para a sua decisão.

• Grupo 4 (cerca de 18 %) – distingue -se dos restantes pelo facto de referir que a falta de vontade do(a) cônjuge/companheiro(a) é motivo importante para a sua decisão, aliada ao facto de não quererem assumir a responsa- bilidade de terem um fi lho ou mais fi lhos.

• Grupo 5 – residentes (cerca de 23 %) que apenas não consideram impor- tante para a sua decisão a negociação entre o casal. Este é o grupo que apresenta a maior percentagem de mulheres e com mais elevados níveis de escolaridade.

Figura 5.22 Representação da primeira e segunda dimensão da análise multivariada da importância dos motivos atribuída pelos residentes com idade entre os 18 e os 29 anos e que não querem ter ou ter mais fi lhos (35 % da variância é explicada por estas duas componentes). (In)Est abilidade económicos -1,5 -1,0 0,0 -0,5 0,5 1,0

Hedonismo e estilos de vida

-1,5 -1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0 Nã Nã Não Sim Nã Nãoo Sim ooo Sim Não Sim Sim Sim Não Sim Não Sim Não Sim

Custos financeiros associados Dificuldade para conseguir emprego Menos tempo para outras coisas importantes na vida

Problemas e complicações associados à educação de uma criança Problemas de saúde Dificuldade de conciliação entre a vida familiar e vida profissional Não quer ter a responsabilidade de ter um filho/mais filhos É motivo importante para não querer ter/ter mais filhos 1.º perfil

2.º perfil

Figura 5.23 Representação da segunda e terceira dimensão da análise multivariada da importância dos motivos atribuída pelos residentes com idade entre os 18 e os 29 anos e que não querem ter ou ter mais fi lhos (26 % da variância é explicada por estas duas componentes).

É motivo importante para não querer ter/ter mais filhos Custos financeiros associados Dificuldade para conseguir emprego A gravidez e o parto são difíceis para as mulheres Não ter idade para ter filhos

Dificuldade de conciliação entre a vida familiar e vida profissional

Não quer ter a responsabilidade de ter um filho/mais filhos

Gra

videz, conciliação e idad

e -1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0 (In)Estabilidade económica -1,5 -1,0 -0,5 0 0,5 1,0 Nã Nã Nãooo Sim NãNãooo Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim 1.º perfil 2.º perfil 4.º perfil 3.º perfil

Figura 5.24 Representação da primeira e quarta dimensão da análise multivariada da importância dos motivos atribuída pelos residentes com idade entre os 18 e os 29 anos e que não querem ter ou ter mais fi lhos (32 % da variância é explicada por estas duas componentes).

É motivo importante para não querer ter/ter mais filhos Menos tempo para outras coisas importantes na vida

Problemas e complicações associados à educação de uma criança Problemas de saúde Não ter idade para ter filhos

Dificuldade de conciliação entre a vida familiar e vida profissional

O(A) cônjuge/companheiro(a) não querer um filho/mais filhos

Não quer ter a responsabilidade de ter um filho/mais filhos

Negociação entre o casal e idade

-2,0 -1,5 -1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0

Hedonismo e estilos de vida

-1,5 -1,0 -0,5 0 0,5 1,0 Não Sim Nã Nãoo Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Não Sim Não Sim Não Sim 1.º perfil 4.º perfil 5.º perfil

5.5.2. Indivíduos com idades entre os 30 e os 39 anos

Estima -se que metade dos residentes com idade entre os 30 e os 39 anos con- sidera que o seu ciclo reprodutivo está concluído, e, destes, cerca de um em cada dez não terá fi lhos.

Entre quem não tem fi lhos, verifi ca -se que a percentagem de homens que mencionou como motivo importante a difi culdade para conseguir emprego é muito superior em relação às mulheres (Figura 5.25). Pelo contrário, as mulhe- res referem, mais que os homens, o facto de terem menos tempo para outras coisas importantes na vida, a difi culdade de conciliação entre a vida familiar e a vida profi ssional e também os problemas e complicações associados à educação de uma criança.

Tanto para os homens, como para as mulheres, as difi culdades de con- ciliação são mais mencionadas por quem tem fi lhos, ao passo que os motivos ligados ao hedonismo são mais referidos pelos que não têm fi lhos.

Figura 5.25 Motivos considerados importantes para não ter/não ter mais fi lhos, pelos residentes com idade entre os 30 a 39 anos.

Homens sem filhos Homens com filhos Mulheres sem filhos Mulheres com filhos Homens sem filhos

Homens com filhos Mulheres sem filhos Mulheres com filhos

É motivo importante para não querer ter ou não querer ter mais filhos

Já tem os que quer

Não quer ter a responsabilidade de ter um filho/mais filhos O(A) cônjuge/companheiro(a) não quer

Dificuldade de conciliação entre a vida familiar e vida profissional Não ter idade para ter filhos

Problemas de saúde Falta de espaço na habitação

Problemas e complicações associados à educação de uma criança Menos tempo para outras coisas importantes na vida A gravidez e o parto são difíceis para as mulheres Dificuldade para conseguir emprego

Custos financeiros associados

% 100 80 60 40 20 0 20 40 60 80 100 89,174,0 51,0 80,2 27,26,5 18,1 25,3 28,619,3 21,36,6 17,6 29,9 10,710,3 35,323,2 32,523,2 23,3 36,3 64,3 89,7 66,4 54,5 53,7 25,0 20,4 18,4 38,8 29,5 32,7 17,6 11,9 19,6 24,9 15,0 20,6 44,2 35,3 21,2 20,4 23,0 33,2 70,2

Numa análise multivariada sobre a importância dos motivos para não se pretender aumentar a sua fecundidade realizada, foram excluídos os motivos “a gravidez e o parto são difíceis para as mulheres” e “o(a) cônjuge/companheiro(a)

não quer”, por apresentarem um fraco poder discriminativo e, nessa medida, não contribuírem para a defi nição de cada uma das dimensões seguidamente identifi cadas. Foi possível resumir a informação relacional entre as variáveis em quatro fatores, ou dimensões, que explicam 54 % da variância (Tabela D.10 do Anexo D). As três dimensões obtidas, tendo em conta as variáveis que mais contribuem para a sua defi nição, podem ser nomeadas como:

1. Hedonismo e estilos de vida:

· Problemas e complicações associados à educação de uma criança, · Não quer ter a responsabilidade de ter um fi lho/mais fi lhos, · Menos tempo para outras coisas importantes na vida, · Falta de espaço na habitação,

· Difi culdade de conciliação entre a vida familiar e a vida profi ssional. 2. (In)Estabilidade económica e conciliação:

· Difi culdade para conseguir emprego, · Custos fi nanceiros associados,

· Menos tempo para outras coisas importantes na vida,

· Difi culdade de conciliação entre a vida familiar e a vida profi ssional. 3. Custos fi nanceiros, saúde e idade:

· Problemas de saúde,

· Custos fi nanceiros associados, · Não ter idade para ter fi lhos.

Comparando este grupo etário com o dos 18 aos 29 anos, pode observar- -se a semelhança entre as dimensões identifi cadas, variando a ordenação dos motivos com a classe etária.

Figura 5.26 Representação da primeira e segunda dimensão da análise multivariada dos motivos atribuídos pelos residentes com idade entre os 30 e os 39 anos e que não querem ter ou ter mais fi lhos (36 % da variância é explicada por estas duas componentes).

É motivo importante para não querer ter/ter mais filhos Custos financeiros associados Dificuldade para conseguir emprego Falta de espaço na habitação Menos tempo para outras coisas importantes na vida

Problemas e complicações associados à educação de uma criança Problemas de saúde Não ter idade para ter filhos Dificuldade de conciliação entre a vida familiar e vida profissional Não quer ter a responsabilidade de ter um filho/mais filhos

(In)Est

abilidade económica e conciliação

-1,5 -1,0 0,0 -0,5 0,5 1,0

Hedonismo e estilos de vida

-1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 Não Sim Nã Nã Não Sim Nã Nã Não Sim Nãooo Sim Sim Sim Nã Nã Não Sim Sim Sim Nã Nã Nãooo 3.º perfil 2.º perfil 1.º perfi 1.º perfil Sim Não SimSimSim

Não Sim Sim Sim Não Sim Sim Sim

Figura 5.27 Representação da primeira e terceira dimensão da análise multivariada dos motivos atribuídos pelos residentes com idade entre os 30 e os 39 anos e que não querem ter ou ter mais fi lhos (36 % da variância é explicada por estas duas componentes).

É motivo importante para não querer ter/ter mais filhos Custos financeiros associados Dificuldade para conseguir emprego Falta de espaço na habitação Menos tempo para outras coisas importantes na vida

Problemas e complicações associados à educação de uma criança Problemas de saúde Não ter idade para ter filhos Dificuldade de conciliação entre a vida familiar e vida profissional Não quer ter a responsabilidade de ter um filho/mais filhos Custos finaneiros, sa úde e idad e -0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0

Hedonismo e estilos de vida

-1,0 -0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 Não Sim Não Não Não Não Sim Não Sim Não Sim Não

Não SimSimSim

Não Não Não

Sim Não SimSimSim Não Sim Não 1.º perfil 3.º perfil 2.º perfil Si Si Sim

No grupo de residentes com idades entre os 30 e os 39 anos, a primeira dimensão também revela uma relação entre a vida profi ssional e social ativa que é difícil de conciliar com a vida familiar. A dimensão 2 associa a instabi- lidade económica às difi culdades de conciliação entre a vida familiar, a vida social e a vida profi ssional. A terceira dimensão opõe os custos fi nanceiros

à saúde e à idade, o que indica a existência de 2 grupos que se distinguem por: 1) a saúde e a idade não são um problema e na sua decisão conta apenas a questão fi nanceira (eventualmente este grupo poderá ser constituído por indivíduos com idades mais próximas dos 30 anos, i. e., pouco acima dos 30); 2) indivíduos com estabilidade económica, mas possivelmente com proble- mas de saúde associados (nomeadamente, problemas de infertilidade), por consequência, à idade.

Com base nas 3 primeiras dimensões identifi caram -se 3 perfi s de pes- soas. Posteriormente, procedeu -se à classifi cação dos residentes, com idades entre os 30 e os 39 anos, tendo sido identifi cados 3 grupos homogéneos que corresponderam aos perfi s identifi cados e cujas principais características são (Figura 5.26 e Figura 5.27, e Figura D.2 e Tabela D.11 do Anexo D):

• Grupo 1 (cerca de 52 %) – Estes indivíduos distinguem -se dos restantes por atribuírem menos importância aos custos fi nanceiros e à difi culdade de conseguirem emprego. Para além disso, de um modo geral, todos os motivos são considerados não importantes para a sua decisão. Estamos, portanto, perante um grupo de indivíduos que não quer ter fi lhos, porque essa é a sua vontade.

• Grupo 2 (cerca de 33 %) – Residentes para os quais os motivos associados ao hedonismo e às difi culdades de conciliação são os principais obstáculos ao aumento da sua fecundidade.

• Grupo 3 (cerca de 15 %) – Os problemas de saúde e não terem idade para ter fi lhos são os motivos que os distinguem.

5.6. Discussão de resultados

Dada a entrada mais tardia dos homens na vida reprodutiva, confi rmam- -se as expectativas iniciais de que são eles os mais prováveis a não terem de facto entrado na parentalidade. Face ao contínuo adiamento da fecundi- dade para idades mais tardias, quer entre os homens, quer entre as mulheres (Kohler et al., 2006; Lesthaeghe, 2010; Sobotka, 2008), confi rma -se ainda que o aumento da idade tende a reduzir as possibilidades de não se ter experien- ciado a parentalidade.

Contudo, se, por um lado, os mais jovens ainda podem protelar o nasci- mento dos fi lhos para idades mais tardias (Merz e Liefbroer, 2010), o avançar da idade tende a reduzir as intenções de fecundidade, fazendo com que aqueles que atinjam idades mais avançadas sem vivenciarem a parentalidade sejam mais suscetíveis de nunca a experienciar (Morgan, 1991). Como destacam Merz e Liefbroer (2010), Morgan (1991), Weston e Qu (2001), a infecundidade (chil- Liefbroer (2010), Morgan (1991), Weston e Qu (2001), a infecundidade ( Liefbroer (2010), Morgan (1991), Weston e Qu (2001), a infecundidade ( dlessness permanente) pode ser o desfecho fi nal de consecutivos adiamentos e

de uma maior relutância em se terem fi lhos (Rowland, 1998) nas idades mais avançadas, quando os “limites sociais” parecem anteceder os limites biológicos (Billari et al., 2011).

É claro que, para alguns, a parentalidade pode nunca ter sido um projeto a realizar -se, uma vez que tal condição vem deixando de ser uma particula- ridade inerente às biografi as individuais (Merz e Liefbroer, 2010; Sobotka, 2008), tornando -se antes uma opção cada vez menos estereotipada e cada mais aceite e frequente (Basten, 2009; Koropeckyj -Cox e Pendel, 2007; Sobotka, 2008, 2009; Tanturri e Mencarini, 2008; Van de Kaa, 2002), constituindo, por isso, um importante indício das mudanças nas normas e valores sociais que vêm acompanhando o declínio da fecundidade ao longo do último meio século (Ajzen e Klobas, 2013; Lesthaeghe, 2010). Todavia, se por um lado a maioria dos indivíduos que não desejaram ter fi lhos ao longo do seu período reprodutivo deverá ser childlessness permanente por opção, o contrário não é verdadeiro, ou seja, nem todos os que deverão permanecer childlessness sempre colocaram o projeto parental de parte.

Ainda no que respeita à idade, não se tendo encontrado evidências de que os mais jovens, ou os mais velhos sejam mais suscetíveis de nunca terem desejado ter fi lhos, pode -se dizer que o facto de não se desejar ter fi lhos afeta de forma semelhante os indivíduos residentes em Portugal, nas suas mais diversas idades, e que, apesar do aumento da importância dos valores relativos à autorrealização (Torres, 2001; Guerreiro e Abrantes, 2007; Hakim, 2008; Lesthaeghe, 2010), não se verifi ca entre os mais jovens uma maior tendência para abrir mão do projeto parental.

Entre os mais jovens, os indivíduos oriundos de agregados onde a mãe tenha um nível de ensino um pouco mais elevado são mais propensos a ainda não terem fi lhos do que aqueles descendentes de mães com níveis de ensino inferiores. No caso dos indivíduos entre os 30 e os 39 anos, estas maiores pos- sibilidades pertencem àqueles cujos pais experienciaram ruturas conjugais. Pode -se admitir que os contextos de socialização continuam ainda a exercer uma signifi cativa infl uência nas decisões reprodutivas, como propõem Ajzen (1991), Ajzen e Klobas (2013), Testa (2010), Testa e Grilli (2006), Udry (1983), entre outros. Não deixa de ser interessante notar -se ainda que um estudo de Domínguez -Folgueras e Castro -Martín (2008) para as mulheres residentes em Portugal e Espanha revelou que aquelas que experienciaram a separação dos pais são mais propensas a coabitarem do que a casarem -se legalmente, o que novamente evidencia que os contextos de socialização podem afetar tanto os percursos conjugais, quanto os percursos reprodutivos.

Adicionalmente, a dimensão familiar ideal, uma parte integrante do contexto social e normativo, continua a infl uenciar as decisões reprodutivas

(Goldstein et al., 2003; Hin et al., 2011; Testa e Grilli, 2006; Testa, 2012), uma vez que são aqueles com mais baixos ideais os que maiores possibilidades apresentam de não desejarem ter fi lhos, bem como de não transitarem para a parentalidade. Indubitavelmente, como defende Bongaarts (1998), a dimensão ideal familiar é um dos principais determinantes do comportamento repro- dutivo, sendo ainda um dos determinantes mais críticos sobre a evolução da fecundidade futura. Como os ideais de fecundidade tendem a refl etir as nor- mas sociais vigentes (Koropeckyj -Cox e Pendel, 2007; Merz e Liefbroer, 2010; Testa, 2010), um possível declínio na dimensão familiar ideal pode indiciar uma mais difícil recuperação da fecundidade nos anos vindouros, bem como a sua estabilização em limiares bem inferiores ao necessário para garantir a renovação das gerações, ou mesmo um mais acentuado declínio populacional (Sobotka, 2009).

As questões relativas aos valores parentais e socais sobressaem, assim, como de grande relevância na análise da fecundidade, como aliás defendem Ariès (1980), Lesthaeghe (2010) e Van de Kaa (2002). Ao mesmo tempo a que se assiste a uma maior tolerância por diferentes estilos de vida, incluindo aqueles que não contemplam a presença de fi lhos (Ajzen e Klobas, 2013; Sobotka, 2008, 2009; Tanturri e Mencarini, 2008), a parentalidade, embora amplamente desejada (Frejka, 2008; Morgan e Rackin, 2010; Sobotka, 2008), já não é para muitos uma condição básica para se alcançar a autorrealização (Merz e Liefbroer, 2010; Sobotka, 2008). Desta forma, não surpreende que indivíduos que nunca desejaram ter fi lhos, bem como aqueles que deverão nunca os vir a ter sejam aqueles que discordam de que a realização pessoal passe pelos projetos parentais.

Contudo, ao invés de se apontar para uma possível perda do valor social da criança (Cunha, 2005), importa evidenciar que são aqueles para quem é preferível ter menos fi lhos, desde que estes tenham melhores oportunidades futuras, os mais prováveis a não terem entrado na parentalidade, o que pode indicar que restrições fi nanceiras (ou de tempo) que possam comprometer as oportunidades futuras dos fi lhos constituem um fator restritivo da capacidade para se entrar na parentalidade, o que confi rmaria a suposição da compen- sação “quantidade vs. qualidade”, como proposto por Becker (1960) e Becker e Lewis (1974), em que se associa o declínio da fecundidade a um crescente investimento em cada criança. É aliás neste sentido que apontou Bandeira (2012) ao analisar o declínio da fecundidade portuguesa ao longo das últimas décadas: em benefício do futuro dos fi lhos tornou -se imperativo controlar e limitar o número de fi lhos.

Os desafi os da conciliação entre vida familiar e trabalho remunerado tam- bém podem infl uenciar a transição para a parentalidade. Embora estes desafi os

tendam a afetar mais as mulheres (Mcdonald, 2006; Morgan e Rackin 2010; Torres, 2001; Van Peer, 2002; Wall e Guerreiro, 2005), os resultados apontam que os homens também são afetados. Pessoas que consideram que a melhor forma de “conciliação” é não trabalhar, home -centered, conforme terminologia home -centeredhome -centered de Hakim (2003, 2008), são mais propensas a terem entrado na parentalidade do que aquelas que tendem a valorizar a participação no mercado de trabalho, o que suporta o argumento de que a concorrência entre trabalho e fecundidade pode nem sempre ser favorável a esta última (Demeny, 2003; Lesthaeghe, 2010).

Quando se avalia a forma como homens ou mulheres participam no mercado de trabalho, nomeadamente, nas idades entre os 30 e os 39 anos, a relação entre fecundidade e mercado de trabalho revela -se diferenciada, indicando que nem sempre é unidirecional (Lanzieri, 2013). A relação entre participação no mercado de trabalho e fecundidade pode diferir não só con- soante as diferentes idades (Adsera, 2006a), mas também entre os sexos. Neste caso, os homens revelam -se mais afetados pela ausência de um emprego a tempo inteiro, já que aqueles que não trabalham ou trabalham menos de 36 horas por semana são mais propensos a não transitarem para a parentalidade do que aqueles com uma jornada de trabalho mais intensa (36 horas ou mais). De referir ainda que os homens com uma jornada de trabalho menos extensa são mais suscetíveis de não terem desejado ter fi lhos, relativamente àqueles que trabalham mais horas por semana.

Já entre as mulheres não há diferenças estatisticamente signifi cativas, no que respeita às possibilidades de permanecerem childlessness ou de não terem desejado fi lhos, consoante a sua jornada de trabalho seja mais ou menos extensa, o que corrobora o argumento de Cunha (2005) sobre a inexistência de evidências que confi rmem que as mulheres mais ativas sejam mais propensas a recusarem os seus papéis maternais do que as menos ativas.

Similarmente, a par das transformações nas formas de se vivenciar a intimidade (Almeida et al., 2002; Giddens, 1993) e do aumento expressivo dos