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Causam mortis praestare et causam mortis praebere

C. Damnum datum: rapport de causalité

3. Causam mortis praestare et causam mortis praebere

A fotografa nascida no Rio de Janeiro em 1979, é formada em Belas Artes pela UFRJ e em estilismo pelo Senai, com pós-graduação em jornalismo na UNED- Universidade Nacional de Educação à Distância. Cursou ainda Fotografia Artística e Conceitual na pela EFTI- Escola de Formação Trabalhadores em Informática na Espanha (2012). Desenvolveu em 2012 o projeto intitulado de Humanae a partir do Figura 54: Paulo Nazareth. “Pão e Circo”, 2012, impressão fotográfica sobre papel algodão, 93×70 cm

sistema de cores Pantone37, no qual cria um inventário cromático com o tom da pele de

diversas pessoas a partir da fotografia. Segundo Angélica, o projeto Humanae começa como um projeto pessoal pelas relações familiares. Nesse cenário, a artista observou as múltiplas variações de tons de pele. A Pantone desenvolve sistemas com guias de cores com a utilização da Biblioteca de Cores na indústria gráfica, no design, na moda entre outros setores38.

O projeto Humanae gera questionamentos contemporâneos sobre a diversidade étnico-racial. O projeto está em processo de desenvolvimento e objetiva registrar e catalogar, todos os possíveis tons de pele das pessoas. O projeto Humanae já percorreu inúmeros países, em 2017 esteve no Museu da Ciência e Tecnologia de Leonardo da Vinci em Milão e em vários países. (Ver figura 55).

Destacamos também a obra Vecinas (Vizinhas), trata-se de um projeto colaborativo com o Conselho Superior de Maliano na Espanha, que aborda histórias de diferentes mulheres nascidas no país Mali, que migraram para a Espanha. Neste

37 Pantone Inc. é uma empresa sediada em Carlstadt, estado de Nova Jérsei, Estados Unidos. É mundialmente conhecida por seu sistema de cores, largamente utilizado na indústria gráfica.

38 Disponível em: http://www.angelicadass.com/about/ acessado em 13/07/2017

Figura 55: Fotografia por Angélica Dass. Projeto Humanae. 2012-atual. Fonte: http://www.angelicadass.com/humanae-work-in-progress

projeto, ela apresenta as narrativas, repensa os estereótipos e levanta as questões pertinentes a migração subsaariana. Produz também o vídeo-performance Desenredo, ao pentear seus cabelos no banho, discute sua identidade, a construção, a aceitação, os cabelos, os conflitos, as descobertas ao reconhecer-se. (Ver Figura 56).

2.4.8 Renata Felinto (1978)

Renata Aparecida Felinto dos Santos nasceu em São Paulo em 1978. Artista visual e professora, é Doutora em Artes Visuais Universidade Estadual de São Paulo Unesp (2016). Organizou o livro Culturas africanas e afro-brasileiras em sala de aula: saberes para os professores, fazeres para os alunos em 2012.

A artista produz desenhos e pinturas (autorretratos) destacamos as séries, "Mães Primordiais" que fazem menção entidades, deusas afro-brasileiras, seres mágicos e fantásticos. Na série “Afro Retratos” almejou a auto-representação, em que visibiliza a si própria, representa-se em várias versões de ícones populares com caráter estético peculiar, em traços expressivos e nuances quentes, a artista pinta, recria personalidades femininas de diversas culturas, contudo demarca fortemente a afro-representação e protagonismo da mulher negra. (Ver figura 57).

Figura 56: Desenredo. Vídeo. 2012. Obra por Angélica Dass.

Sobre os trabalhos da artista e o seu discurso visual:

Nos vários eixos quem vertebram a poética da jovem artista, parece ser o desenho aquele que melhor realça as qualidades do seu discurso plástico. Esse desenho de caráter marcadamente contemporâneo (...). O cultivo de uma linha limpa de uma composição delicada com um discurso político que articula e problematiza, nessa obra, as condições da mulher e da negra, com elegância acidez ironia. Por outro lado, em suas fotos, há espaço para pensar a pintura e a memória das coisas e das gentes filtradas por essa mesma sensibilidade. (ARAÚJO, 2010, p. 119).

A artista produz pinturas, desenhos e a performances. Destacamos performance White Face, Blond Hair que compõe a série Também quero ser sexy (2012-2013). (Ver figura 58). Questiona os padrões do corpo negro através da arte performance. Do exposto:

Renata Felinto se autorrepresenta como uma loura com ostensiva capacidade de consumo do luxo oferecido na Rua Oscar Freire em São Paulo. Espaço de forte segregação social, a rua escolhida pela artista para apresentar a performance permite pensar na relação entre corpo negro e espaço público. (...), Renata Felinto cria uma plataforma de representação de si mesma como outra, estabelecendo uma alteridade com as louras. Usando a estratégia do travestismo corporal ela articula noções como classe e raça, trocando suas referências corporais. No lugar nos dreadlocks que a caracterizam, usa uma peruca de cabelos compridos e louros, a pele branqueada por maquiagem pesada, caricata e ostensiva. Ao caminhar pela Oscar Freire desconcertando passantes, balconistas e seguranças, observa vitrines, analisa produtos, toma café, sempre sorridente e extravagante. (BISPO & LOPES, 2015, p. 112).

Tanto nos autorretratos quanto na performance a artista expressa uma manifestação artisticamente política, que discute o lugar da mulher negra na tessitura social e questiona a predominância de imagens de mulheres brancas na arte. Problematiza ainda sobre corpo para além do suporte é político e crítico.

Renata apresentou sua tese de Doutorado pela Unesp em 2016 com título: A Construção da Identidade Afrodescendente por meio das Artes Visuais Contemporâneas: estudos de produções e de poéticas. Enquanto pesquisadora na área das Artes visuais afro-brasileira, Renata trata das temáticas da Arte afrodescendente, artistas negros, representatividade, feminismo negro e identidade.

Figura 58- Renata Felinto. Performance White Face, Blond Hair (2013) da série Também quero ser sexy (2012). Fonte:http://renatafelinto-coisasdaarte.blogspot.com.br /

2.4.9 Eduardo Inke (1982)

Eduardo Inke, nasceu em São Luís, Maranhão em 1982, é também designer gráfico. O artista visual inicia sua carreira em 2003 com o grafite. (Ver figura 59).

Compôs o Coletivo Cuco, no qual desenvolveu projetos em ilustrações, mídias, street art, colagens e fotografia. Em 2014, representou dentre outros artistas o Maranhão, no livro A Arte Urbana do Nordeste do Brasil, que documenta e registra mais 140 artistas que produzem em múltiplos estilos, perspectivas e visualidades da street art nordestina. Participou de grandes eventos pelo Brasil e também expôs na Alemanha, México no Meeting of Styles 2014 e no Atelier Graffiti pour les enfants na França em 2016. Em 2017 expôs sua obra no Festival Upfest Posca de graffiti, arte e street art, composto por grandes nomes da street art mundial. O evento é considerado um dos importantes festivais da Europa realizado em Londres. Sobre suas experiências artísticas diz:

Eu gosto de ver meu trabalho vibrar, mas eu gosto da possibilidade de ser sutil, sempre enfrentando opostos em si mesmos em busca de algum equilíbrio. Comecei a pintar na rua porque quando o caos me passa na forma de pessoas, carros e barulho, estou em paz dialogando silenciosamente com a parede. (INKE, 2017).39

39 Disponível em: https://www.upfest.co.uk/artist/inke acessado em 06/01/2018. Figura 59- Eduardo Inke. 2016.

O artista dialoga com e sobre o espaço urbano da cidade. Com inspirações na cultura afro-maranhenses, apresenta elementos do tambor de crioula, das estampas dos tecidos de chitão das saias das coureiras. O artista afirma que as suas influências traduzem-se em trabalhos que combinam as matizes e contornos do patrimônio cultural e artístico do Maranhão. Nas ruas o seu grafitti no estilo freehand, estampa muros espalhados pelas cidades nas quais o artista deixa sua arte. (Ver figura 59).

2.4.10 Criola- Tainá Lima

Grafiteira e designer de moda, a jovem artista nasceu em Belo Horizonte Minas Gerais. É formada em Design de Moda pela Escola de Belas Artes Universidade Federal de Minas Geras e iniciou sua carreira em 2012. O seu grafitti traz os conceitos e elementos imagéticos da mulher negra, da negritude, identidade, reconhecimento étnico-racial e a representatividade. Entre as folhas, silhuetas negras, elementos geométricos, matizes fortes e vibrantes deixa suas marcas nas ruas, prédios e muros, seus suportes artísticos se reconfiguram em grandes murais. (Ver figura 61).

Fig. 60: Eduardo Inke. Obra: Santo. Grafite e colagem. 2017. São Luís-MA. Fonte:http://www.lioribeiro.com.br/2017/09/obras-do-designer-graficoartista.html

A artista expressa-se em uma arte urbana afirmativa, numa visão engajada e ativista coma valorização da identidade negra. Em entrevista à revista Namu40 a artista

diz:

Eu enxergo o grafite como um grito da cidade. Em meio ao caos urbano ele vem para contrapor a cor cinza, transmutando a rotina intensa dos transeuntes em cores. (...). Na medida em que a representatividade dos negros aumenta em todas as áreas e segmentos, os estereótipos se enfraquecem. (NAMU, 2015).

Destacamos entre seus trabalhos a série “Ori: a raiz negra que sustenta é a mesma que floresce”, em que busca na representação e na representatividade da mulher negra ao ressaltar elementos da feminilidade e da resistência que desvela perspectivas identitárias e sociopolíticas.

Aqui finalizamos a seleção composto por vinte artistas dentre estes modernos e contemporâneos. Como já falamos os modernos deram passos importantes para produção contemporânea, e estes constituem novas visualidades e ocupam novos espaços. O cenário artístico negro contemporâneo tem consigo um novo folego de conceitos, ideias, códigos e significados.

Artistas afrodescendentes contemporâneos que apresentam uma discussão política engajada de afirmação identitária, não somente pelo viés da religião como os

40 Matéria disponível em: http://www.namu.com.br/materias/grafite-valoriza-mulher-brasileira acessado em 20/09/2017.

Figura 61: Artista –Criola. Obra Ori II- A raiz negra que sustenta é a mesma que floresce | Belo Horizonte. MG. 2014. Fonte:http://mequetrefismos.com/lista-negra/negra-arte-5-mulheres-

modernos fizeram, mas com olhar social e politizado apurado em relação ao racismo, ao sexismo, estereótipos, autoria do artista e do empoderamento representacional do negro na arte. Afirma que:

A representação do negro nas Artes Plásticas do Brasil, sofre importantes transformações ao longo dos séculos. São muitas formas de pintar, desenhar, esculpir e fotografar o negro para os professores de Educação Artística apresentarem aos seus alunos, com especial atenção aos conceitos e contextos contidos nessas representações. Se nas primeiras imagens o negro era representado alegoricamente visto por olhos estrangeiros, agora são os próprios negros que dão o tom dessa representação, assumindo seus próprios discursos, sendo, simultaneamente, criadores e criação de suas histórias pessoais e de seus antepassados. (SANTOS, 2013, p. 105).

Essa breve seleção biográfica e artística nos possibilita um arcabouço de referências, na qual podemos tomar como base para criarmos propostas metodológicas evidenciando a produção dos artistas afrodescendentes na escola.

Portanto, na próxima seção discutimos a Lei Nº 10.639/2003 e explicamos sobre seus documentos norteadores partindo de discussões de cunho histórico e sociopolítico com destaques as conquistas em relação a inclusão da cultura e história afro-brasileira e africana no currículo escolar. Em que demarcamos as atribuições do professor e da escola ao colocarmos em pauta o ensino das Artes Visuais Afrodescendentes e a aplicabilidade da Lei Nº 10.639/2003.