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La servitude de conservation à l'extérieur du Québec

BIBLIOGRAPHIE CITÉE

A não permissão da impunidade em relação aos excessos de poder e abuso da violência geradora da anulação do Outro em seus limites materiais se transfigura nas ousadas e desobedientes transgressões praticadas pelas mães – sujeitas políticas e julgadoras ante o Tribunal simbólico ali realizado. Não pedem permissão para expressar seu descontentamento, seu nojo (no sentido psicanalítico) – sua melancolia, sua depressão, sua perda irreparável.

Dizia Roger Bastide, sobre as elaborações mentais-sociais das manifestações de violência

:

O que é considerado como consequência de sentimentos coletivos violentos, porque contrário a nossos hábitos de espírito ocidentais, não o são em geral; o que do exterior é encarado como loucura e ardor selvagem comporta, ao contrário, visto de perto, uma grande parte de atos deliberados representados” (BASTIDE, 1928, p.299 apud QUEIROZ, 1983 P.54)

Nestes fragmentos textuais inicias – que abrem os diálogos em testemunho acusatório –, encontram-se nove mulheres munidas cada uma com um objeto pessoal que lhes remete a alguma memória emocional forte relacionada à sua querela: objetos de entes assassinados, vínculos afetivos em falta, violências traumáticas, elos perdidos. Denunciam a violação e a dor que a subjaz; as demandas que apresentam recebem a tônica de um tribunal simbólico – são querelantes num processo que as constituem enquanto vítimas ajuizantes (isto é, com capacidades de postulação de juízo em relação às causas de seus infortúnios, a denegação de seus direitos). E, sendo também juízas simbolicamente de suas queixas, ao estabelecerem e reivindicarem uma plataforma comum de justiça, os efeitos concretos de socialização das experiências individuais de violência estão imbuídos de sentidos políticos ao se trabalhar na exposição dos conflitos e antagonismos vivenciados na carne.

Apresentando certos elementos concernentes à estrutura de montagem da peça, como fotos33

abaixo expostas (a partir desta primeira

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asserção sobre a inscrição da obra artística no marco de uma política de memória histórica específica, esperamos que as imagens possam falar um pouco também sobre tudo aquilo que nela está envolvido para além do texto (e pensá-las enquanto texto ajuda à percepção pretendida). Na medida do possível, tentar-se-á conjugar as falas com as imagens cronologicamente a elas relacionadas. Também trataremos de transcrever algumas poucas falas das mulheres participantes do espetáculo teatral que abrem os diálogos – ou melhor, denúncias - a título de ilustração. Esperamos, com isso, trazer à tona algumas dimensões políticas da peça com os quais pudemos lidar. O que pode ser obtido das enormes cargas emocionais aqui neste papel cumprem o mesmo limite de comunicabilidade da angústia. A negação desta angústia catapulta, com ela, algo que se transfoma embora permanecendo (na forma da memória). Porém, a culpabilização sócio-individual pela perda se expurga:

33Disponível em: http://www.portalescena.com/escena/at%C3%ADgona- tribunal-de-mujeres/. Fotos de Oscar Felipe Chávez, que possui sua página virtual no seguinte endereço :

https://plus.google.com/photos/+OscarFelipeCh%C3%A1vezGutierrez/album s/6003292597069458033?banner=pwa&sort=1

Figura2 – Cena de abertura da peça: “Buenas noches, señores y señoras. Estoy en este tribunal de mujeres, vengo a protestar, a denunciar, a reclamar. Este Tribunal de Mujeres busca que en este país pueda llegar al día del Nunca Jamás!”

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em

https://plus.google.com/photos/+OscarFelipeCh%C3%A1vezGutierrez/albums/6 003292597069458033?banner=pwa&sort=1

Os principais casos relatados na peça remetem à experiência pessoal e direta das atrizes nomeadamente com o caso dos “falsos positivos”, representados pelas familiares dos desaparecidos vítimas das execuções extrajudiciais por parte de membros do exército nacional (na peça, paradigmaticamente representado pela tragédia das mães de Soacha, região suburbana do Distrito Federal). A isto lhe dedicaremos uma atenção sociológica mais especial e a sua relação com o simbolismo da peça, pois atendendo às limitações das pretensões possibilitadas nesta etapa de trabalho, tampouco queremos abrir mão de sua relevância trágica.

Figura 3 - Manifestação de rua com denúncia dos crimes de Estado chamados de “falsos positivos”

Fonte: Acervo digital do Batallón Pedro Nel Ospina (2014). Disponível na página http://geoactivismo.org/wp-content/plugins/leaflet-maps-marker- pro/leaflet-fullscreen.php?marker=88

Os “mal chamados falsos positivos” se definem pelos crimes de Estado que começaram a ocorrer sistematicamente pelo fato de que as forças armadas eram recompensadas ao capturarem (leia-se: “assassinarem”) guerrilheiros. Militares começaram a sequestrar habitantes dos bairros mais periféricos, e de preferência jovens do sexo masculino, dando promessas de emprego, e ao final levavam essas pessoas a lugares onde eram assassinadas e camufladas para serem

identificadas como guerrilheiros; assim conseguiam reclamar recompensas pelas mortes em combate.

À parte da demora para encontrar os restos mortais das vítimas – o que pode durar longos anos – a dúvida que os familiares geralmente têm é se estes ossos realmente são de seus filhos, enterrados geralmente em valas comuns. As descobertas destas fossas clandestinas têm sido uma constante nos últimos anos, o que demonstra ser uma prática já bastante anterior aos primeiros casos que escandalizaram a mídia. Ao que parece, faltou chegar à capital central do país o fenômeno para se tomar consciência de tamanha perversidade – problemas dos centralismos políticos de nossas sociedades autarquizadas em suas capitais.

Tal prática caiu na moda dos paramilitares, que faziam o mesmo com os camponeses pobres. Esse escândalo fez com que a atenção da imprensa e de organismos internacionais de direitos humanos se despertasse. O ano em que houve o auge destes casos foi em 2007, com 566 falsos positivos; ao todo se contabilizam ao redor de 2.679 execuções sumárias a serem investigadas (das quais 135 eram menores de idade), 1.487 casos relacionados a execuções extrajudiciais desde 2003. Muito se demorou para que o Ministério de Defesa excluísse como padrão de avaliação de desempenho dos soldados do exército o body count (essa forma de contagem dos corpos de combatentes opositores mortos em enfrentamentos), privilegiando as desmobilizações de elementos armados e detenções para dar-lhes benefícios. Mais de 791 pessoas se encontram vinculadas às investigações, porém dificuldades estão sendo enfrentadas devido à falta de pessoal, de recursos e pela resistência de se oferecerem informações a respeito. Dos quase 1.500 processos, apenas 66 chegaram a uma sentença condenatória. Em apenas 5,7% dos casos se chegou a alguma decisão judicial34:

Segundo a organização católica Cinep, as Forças Armadas assassinaram extrajudicialmente 3.330 pessoas em 2003; 818 em 2004; e 1037 em 2005. Os “caídos em combate” aumentaram consideravelmente, sendo mostrados como parte da efetividade dos militares contra a insurgência. No entanto, as organizações de direitos humanos, e até a Promotoria da Nação, têm conseguido demonstrar que “guerrilheiros mortos” eram cidadãos assassinados em estado de indefesa. Portanto, e

34Dados consultados na Revista Semana, órgão de publicação periódica com sede em Bogotá; Lentos Positivos, p. 48, n. 1500, de 31 de janeiro de 2011.

somente desde o início da presidência de Uribe Vélez em 2002 até junho de 2004, 10.586 pessoas perderam a vida por causa da violência sócio- política. Melhor dizendo, morreram “como consequência do conflito armado interno, em mãos de agentes do Estado ou por motivações políticas e sociais”, segundo o jornal El Tiempo de 22 de julho de 2004. Desse total, 6.148 foram civis assassinados ou desaparecidos em fatos alheios a um combate: em casa, na rua ou no lugar do trabalho.(OSPINA, 2010, p. 321)

Figura 4 - Ato solene de entrega oficial à família de Mauricio Pérez Paternina de seus restos ósseos finalmente encontrados; vítimas da política de extermínio e terror do Estado colombiano no departamento de Sucre

Fonte: Jornal El Universal. Disponível em

http://www.eluniversal.com.co/regional/sucre/nombres-de-victimas-de-falsos- positivos-deben-ser-limpiados-154494. Matéria de Ángel Miguel Pérez Martínez (17/03/2014)

Tanta matança fez com que se descobrissem o escandaloso cemitério clandestino de La Macarena, no departamento de Meta, maior fossa comum já encontrada na América onde mais de dois mil corpos foram localizados enterrados, entre lideranças comunitárias, opositores políticos, camponeses, embora a desculpa oficial do exército sempre seja que eram guerrilheiros.

Figura 5 – Madre de Soacha exibindo pertences de seu filho desaparecido: “Exigimos justicia por nuestros hijos asesinados en el operativo de los mal- llamados ‘Falsos Positivos’”

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em

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Figura 6 – Mãe de Soacha repetindo um hábito de seu filho assassinado: a leitura da bíblia.

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em

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Figura 7 – Fala de uma mãe de Soacha: “Mi hijo Jaime fue asesinado en el mandato de Uribe, siendo cómplice Juán Manuel Santos. Se los juro que eso no se queda así!”

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em

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Na peça também estão retratadas as perseguições políticas traduzidas nas montagens judiciais forjadas para criminalizar e judicializar a luta social estudantil e a impossibilitar o trabalho (e a vida) de defensoras dos direitos humanos; igualmente estão aí presentes “em carne e osso” a memória viva e a persistente atuação da militância de sobreviventes do massacre conhecido como “genocídio político da União Patriótica”, questões que procuraremos abordar de forma incidental, pois é a partir destas falas que se relacionam entre si, tematizando a violência social, cultural, política e (para)militar (enquanto violência armada), que se cria uma narrativa polifônica que articula todos estes lugares sociais e horizontes políticos de limitação e padecimento, transformando em criação e expressão artística política de memória:

Figura 8 – Filha de assassinado político mostrando quadro de seu pai vítima do genocídio político da União Patriótica: “A mi familia la asesinaron hace 22 años y este crimen está en total impunidad. Por eso estoy aquí, en este Tribunal de Mujeres”.

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em:

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Esta personagem real traz o objeto memorial que monumentaliza o que pretende não perder: o Outro; sua Lembrança. Aqui cumpre observar que persona (representação) e realidade se confundem na pura presença evocadora do ausente transfiguradamente presente.

O reflexo mais importante disto é a consciência do concreto abstraída em sua generalidade, ao se comunicar com as outras vítimas igualmente condoídas em suas feridas, culpas e medos. Fantasmas daqueles que sofreram violentamente uma dupla violência: aquela física e a outra simbólica (ou hermenêutica, como dizem alguns).

O impacto visual desta “congregação de loucas” determinadas à transformar a histeria coletiva a elas atribuídas a uma transformação radical daquilo que mais sofreram elas também – violência hermenêutica – nos traz muito claramente este sentido inesperado, praticamente místico, que a elas são atribuídos. Pode chegar a ser violento, à primeira vista, o que elas querem comunicar. Mas para quem tiver esta sensibilidade estética, da linguagem da representação que é presença, o sentido mais depurado – dialético – está na própria transformação de consciência, para aquela ainda pouco explorada. O medo que porventura causam surge deste universo publicamente pouco conhecido, pouco debatido, pouquíssimo explorado. O universo do sentimento do feminino – feito tabu, feito fetiche, feito místico, feito alienação.

Os rostos das figuras (figura 9) que já não estão presentes, no imaginário social da política – ainda que efetivamente eles apenas estejam ali por um não-reconhecimento político – torna a exposição daquilo que foi dissimulado do terreno da política para o terreno do seu ocultamento extraordinariamente original. Isto é, explora a origem daquilo que estão ensaiando a busca (e permanecendo nela por outros meios). Estampados em forma de cordel e em placas alçadas pelas mãos das mulheres, os mortos retornam ao cenário de onde nunca deviam ter saído – o palco da vida política. Isto fica claro nas figuras que seguem, que trazem como tensão no seu cerne outra escandalosa faceta da política de terror e de extermínio do Estado colombiano.

Figura 9 – Cordel com cartazes de lideranças perseguidas e exterminadas por sua oposição política ao sistema: “Soy militante de la Unión Patriótica. Y volvimos para vencer.”

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em

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Figura 10 – Placas com imagens das vítimas do genocídio político da União Patriótica

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em

https://plus.google.com/photos/+OscarFelipeCh%C3%A1vezGutierrez/albums/6 003292597069458033?banner=pwa&sort=1

Sentindo a exacerbação das contradições na pele, empregam suas persecuções acusatórias esmeradas num juízo coletivo parcializado pela relação de exterioridade e negação de alteridade. As oito personagens que compõem a obra se dividem em sete delas que exploram a realidade de seus dramas e uma personagem que as comunica (torna-as comum entre as mesmas): entre elas, configura-se tipicamente este nivelamento e esta comunhão de um drama social a personagem de Sófocles, expoente da tragédia clássica grega - Antígona. Digamos, portanto, que se trata menos de um termo equivalencial que de um fator de aproximação; de identificação, sintetizados na seguinte fala: “Mi nombre es Antígona. Ya

hace más de 2 mil años estoy buscando como enterrar a mi hermano Polinicis (…)”.

A legitimidade da desobediência civil, privilegiando as falas e expressões poéticas-políticas das mulheres feitas Antígonas se reflete na similaridade com a referência à obra-prima de um dos grande tragediógrafos gregos, Sófocles35

. Não deixa dúvidas sobre o argumento de memória histórica (estamos falando de uma peça datada de cerca de 441 a 440 a.C.) cujo mote se desenvolve na tragédia sobre o combate de Antígona à opressão estatal materializada no édito político do rei Creonte de interdição do cumprimento por sua parte dos rituais sagrados de enterro de seu irmão Polinices36.

Segundo Kathrin Rosenfield, o eventual conflito ritual que a peça “Antígona”, de Sófocles, insinua (tanto do ponto de vista do rito jurídico da obediência à autoridade estatal quanto do rito religioso, representado pelo dever moral e sagrado de cumprir com integridade o luto em respeito a um ente familiar), estaria ligado tanto ao cumprimento da “lei eterna dos deuses de baixo, isto é, da Terra e do Hades” (ROSENFIELD, 2002, p.16) quanto enceta em si um desdobramento no plano genealógico e político. Dadas as tematizações que vão se configurando e repercutindo nos variados matizes dos personagens que compõem o enredo presente na dramaturgia, a peça se torna um tecido de retalhos bravamente reagrupados. A desintegração causada pela consciência da violência, do injusto, do erro, traz em si esta nova forma de, paradoxalmente, recomposição.

35Os outros dois grandes mestres da tragédia clássica grega seriam Ésquilo e Eurípedes. Para Dussel, (s/d, p. 23) “la tragedia de Edipo expresa mejor que la Ética a Nicómano el êthos griego”. Nascido em 495 a,C., Sófocles aparentemente morreu em 406 a.C. (ROSENFIELD, 2002, p. 7).

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Na obra “Sófocles e Antígona”, Kathrin H. Rosenfield tenta atrelar à trama certos fatores genealógicos que refletem questões de parentesco e de arquétipos bastante profícuos para se pensar psicanaliticamente os papéis sociais e as relações intersubjetivas intrafamiliares. Politicamente isto se torna relevante na medida em que repercute em estruturas sociais que historicamente se mantém adstritas a mecanismos de controle e de poder. Como sabidamente se tem que o Pai da Psicanálise tomou por referência muitos dos textos clássicos da mitologia helênica, tendo o mais reconhecido complexo por ele estudado se popularizado justamente pela figura de Édipo. Esta personagem da cultura grega que compõe o drama de Sófocles, em sua fase madura, em que Antígona protagoniza a terceira parte da Trilogia Tebana) para explicar problemas da ordem psicossocial

E é disso que se trata ao falar em restituição simbólica: no fim, estamos falando de uma restituição identitária, de memória e de vínculo perdido numa sociedade avessa aos valores mais elementares de respeito e coesão social. Num sistema como o nosso, nesta dada organização societária, parece realmente não haver espaço para mudanças, para o novo, para o Outro. Ainda mais quando este Outro é profundamente subestimado e vulnerado em sua plenitude – ao não ser considerado, ao não ser re-conhecido. O reconhecimento é, pois, uma dimensão ética também daquilo que percebemos como nosso, parte nossa. Filosofia da alteridade/outredade pura!

Figura 11 – As Antígonas e alguns de seus objetos de memória

Fonte: Acervo digital de Felipe Chávez G. (2014). Disponível em

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Mas é justamente aí, neste Outro, nesta Outra que nos reencontramos a nós mesmos e permitimos em nós, e nos outros, criar uma diferença – um arraste à dualidade – podendo escolhermos a sua superação dialógica e dialética (ou analética). O problema está em vencer as barreiras encouraçadas da consciência que nos prega sempre armadilhas em dar-nos a saber de forma parcial um objeto dado. Ao se ter o conhecimento de algo, pensa-se naturalmente na finitude deste saber. No limite. Porém, naturalizando este limite, e não percebendo a sua dificultosa composição (isto é, sua formação facilmente distorsível por ideologismos dominantes), tendemos a pensar que, na prática, já estamos adequados entre estas consciências e suas práticas correspondentes. E o que é mais grave é que não basta obter-se a consciência discursiva do erro, do injusto, mas sua reavaliação prática.

É arduamente doloroso se dar conta que as vítimas mais concretas, mais visíveis – que no caso, são as mortes violentas daqueles que já não estão – se torna culpa aos seus familiares pela injustiça ali cometida no antes, no durante e no depois. A continuidade dessa absurdidade está na mancha da dignidade dos seus parentes, que, na dissimulação perversa do Estado, atribui-lhes um estatuto público de criminosos – sendo que sabemos muito bem quem praticou o crime.

É inconcebível, é incompreensível, é surreal aceitar inicialmente que uma vítima tenha sido produzida no sistema social – afinal, não somos um organismo vivo estando em sociedade? Bem, e quando deixamos de ser? Morte natural, morte comum, morte por homicídio, morte por decreto, morte por “escolha”. Tanto no suicídio - o que talvez mais nos choque pela sua incompreensão metafísica, daí falar-se tão pouco disso e de sua dimensão cada vez mais aumentada nos últimos tempos (sinais de uma sociedade cada vez mais responsável, o que não quer dizer consciente de sua qualidade sociocida) – quanto na morte mais comum. Por mais trivial que possa parecer, a morte gera uma dor na maior parte das vezes incontornável a um primeiro momento. Sendo incontornável, necessário torna-se o luto para diluí-la, contorná-la. O processo de substituição de vínculo que aí envolve é variado e aquí não é necessariamente o lugar para aprofundar-se nisso, porém o que mais nos deveria chamar a atenção é na memória como substituição primária daquilo que percebemos como sendo exatamente a dimensão da perda em nossas vidas sentidas. Esta dimensão é tão mais distorcida quanto mais tortuoso, fetichizado, dissimulado for a trajetória de constituição da identidade da vítima de morte em questão.

Uma vez que o Estado nomeia esta vítima, esta identidade perdida em busca de definição, o inequivocamente Outro, de intransparente

comunicação, como um algoz de sua própria sorte – ao ser denominado enquanto parte de “grupo à margem da lei”, de guerrilheiro, de criminoso – o denominado é exatamente isto (por mais que possa parecer que seja o contrário: o seu erro do Mesmo como culpabilização do Outro). Na verdade, muio da dor, da culpa e da incompreensão é, ao invés de atribuição de uma identidade que não lhe corresponde de fato, é também (e isto é gravíssimo) a justificação do injustificável. Por mais que fosse guerrilheiro sim, por mais que fosse criminoso sim, isto os torna mais “matáveis”?

Esta é uma discussão bastante forte de toda a corrente teórica que