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La discrimination antisyndicale

A. Applicabilité du droit de l’OIT

Nessa pesquisa, foram utilizados como principais instrumentos para a produção e coleta de dados: a observação participante, o desenho articulado com a oralidade, brincadeiras das crianças conjugadas com suas falas, os registros das falas das crianças em momentos formais e informais registrados em caderno de campo e alguns poucos momentos gravados em áudios por meio de celular (os áudios só foram utilizados para recuperar falas originais nas cenas).

Na investigação com/sobre crianças, faz-se necessário articular vários instrumentos de escuta aliados a diferentes suportes, de modo a oportunizar a expressão de suas demandas, interpretações e significados de suas experiências por meio de diferentes linguagens.

O meu olhar para as crianças nas suas infâncias é o de encontrar uma outra forma de falar própria e apropriada sobre o que elas vivenciam/pensam no que traduzimos como relações de gênero. Essa necessidade surge nessa pesquisa, pois observei a partir do estado da arte que as crianças são interpretadas por extensão do pensamento de outro (adulto cuidador ou de autores/as que falam do assunto).

A minha performance como docente e como pesquisadora nunca esteve estabelecida de pronto. Ela sempre dependia/depende do processo de singularidade em que as crianças estavam imersas, no momento em que estávamos vivenciando.

E, se a forma verbal hermêneuien significa interpretar, e interpretar precisa de explicação para traduzir, eu me vejo nesse lugar de intérprete das crianças, pois me vejo traduzindo o que elas vivem/manifestam. A Hermenêutica, compreendida por Heidegger,

[...] deixa de ser uma ciência do espírito, ao nível de uma Epistemologia da Interpretação, para uma Hermenêutica que privilegia não o discurso enunciativo ou apofântico, e sim a manifestação do próprio ser (GALEFFI, 1994, p. 156).

Nessa perspectiva, cito uma cena que observei e que me deixa consciente desse processo. Numa manhã, estávamos olhando pela grade de proteção, através da qual é possível enxergar o estacionamento do CMEI e, ao mesmo tempo, a rua Saponilk, no bairro da Boca do Rio. Anderson, uma criança do grupo 3, ao ver uma pessoa ao longe da grade, veio correndo até mim e perguntou-me se a pessoa era homem ou mulher. Disse-lhe que, se ele tinha dúvida sobre se a pessoa era homem ou mulher, o melhor a fazer era perguntar para a pessoa. Ele disse que achava que era mulher. E eu, então, problematizei se ele sabia o que era mulher e por que estava me perguntando. Ele então disse que a pessoa tinha cabelo grande, mas a perna era parecendo de homem. Eu mais uma vez problematizei: como é a perna de homem? E ele respondeu que era igual a ela (referindo-se à travesti). Aí eu perguntei o que ele achava, já que a pessoa tinha cabelo de mulher e perna de homem. E ele me respondeu:

acho que é homem e mulher. E eu o indaguei, porque então ele estava me perguntando. Ele disse que o pai dele tinha dito que era veado. E eu perguntei se a pessoa parecia com Bambi82, que é um animal personagem de um livro de história. Anderson, de imediato, respondeu-me que não era esse veado, não, mas que era o veado igual da Boca do Rio, que dança83. Retornei para ele perguntando se a pessoa era igual ao veado da Boca do Rio. E ele disse que o veado da Boca do Rio era homem e mulher.

Mesmo percebendo que o menino tinha dúvida do sexo mediante a performance de gênero do indivíduo, fiquei ali tentando apreender o que ele estava me dizendo sobre a sua experiência com a travestilidade. Seria mais fácil dizer para ele sobre o ser travesti. Com certeza, ele, que era uma criança de olhar apurado nas imagens cotidianas, aprenderia facilmente. Ainda mesmo o pai tendo dito que travesti era viado (veado), Anderson compreendeu que veado é quando parece com homem e mulher ao mesmo tempo. Assim, não caberia eu interferir na experiência que o levou a compreender dessa forma.

82 Bambi é um veado que é personagem principal de história infantil clássica da Disney.

83 A pessoa a qual o aluno refere-se é a dançarina que é uma celebridade na região do bairro da Boca do Rio,

Pituaçu e Imbuí, cujo nome é Sebastian Dance, mas já foi conhecida como Sebastian Brasil. Como personalidade pública, faz shows nas praias para ganhar a vida.

O próprio saber da criança sobre travestilidade foi descrito aqui. E ainda dentro do que ele me disse sobre observar características que considera para homens e para mulheres, a pesquisadora Larissa Pelúcio (2009) descreve em seu trabalho Abjeção e Desejo, uma etnografia travesti sobre o modelo preventivo de AIDS. Pelúcio (2009), referindo-se ao que é travesti, nos informa:

Ainda que no universo travesti não haja consenso sobre qual é o gênero da palavra, uso o artigo feminino para me referir às travestis não só por uma posição política (uma vez que o tratamento no gênero feminino é uma das reivindicações dos movimentos sociais), mas também para estar mais de acordo com a forma como elas se tratam. Entre elas, os artigos, pronomes e substantivos para se autor-referirem, ou para tratarem aquelas que lhes são próximas, estarão sempre no feminino (PELÚCIO, 2009, p. 26).

Mas Pelúcio (2009) diz preferir o conceito de travestilidade:

A travestilidade aponta para a multiplicidade dessas vivências ligadas à construção e desconstrução dos corpos. Ainda que, muitas vezes, tenha aparecido [...] uma rigidez na gramática de gênero, [...] a fluidez na elaboração de categorias êmicas autoclassificatórias. Estas servem para falar da corporalidade, mas também da moralidade, e estão estreitamente ligadas ao trânsito dos corpos pelos territórios, o que se vincula, por sua vez, às transformações desses mesmos corpos [...] marcados pelo embaralhamento de gêneros e, sobretudo, pela construção do feminino em corpos masculinos.

A experiência de observar performances que não são as nossas, e muitas vezes vidas que são marcadas por exclusão e resistência iguais ou diferentes das nossas, propõe para mim e também para as crianças, novos saberes que, por mais que alguém tente nos transmitir um conceito, o nosso entendimento (o meu e o das crianças) é diferente daquilo que o senso comum tenta nos mostrar.

Esse fato, assim como outros tantos, sempre me propiciaram o exercício permanente de reflexão da minha prática e reflexão da realidade social das crianças, dos processos cognitivos nos quais as crianças estavam apresentando.

Na minha prática docente e na minha ação de pesquisadora sempre observei que as crianças têm muito a nos ensinar, principalmente pela espontaneidade que falam a respeito e/ou sobre as mais diversificadas temáticas. Do mesmo modo, também percebi/percebo a necessidade dos saberes teóricos entrelaçarem-se com os saberes práticos adquiridos no fazer pedagógico.

4.4 Alguns cuidados, desafios e limites da hermeneuta de crianças para seguir uma ética