Foram realizadas entrevistas narrativas (Apêndice A) aliadas à realização de oficinas com as profissionais para construção de cenas (Apêndice B). Após a entrevista, houve um momento coletivo com as cenas projetivas entre as colaboradoras. No entanto, não foi viável
que todas as profissionais entrevistadas participassem deste encontro coletivo, de modo que com estas as cenas projetivas foram realizadas individualmente, a partir da disponibilidade de cada participante. As colaboradoras receberam e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Apêndice C1) e o Termo para Gravação de Voz (Apêndice C2). As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas.
3.2.2.1 A Entrevista Narrativa
A entrevista narrativa apresenta-se como uma metodologia favorável à abordagem de questões de natureza qualitativa, tem caráter descritivo e atende ao intuito de interpretar e de compreender as histórias e as narrativas trazidas por colaboradores e colaboradoras do estudo, sendo utilizada na investigação de acontecimentos que gerem controvérsias, em que há várias perspectivas em análise, bem como em estudos que combinam histórias de vida e contextos sócio-históricos (Jovchelovitch & Bauer por Martins & Ferreira, 2016). Esse é um instrumento que conduz o entrevistado a recorrer à sua memória para que, assim, narre e rememore acontecimentos, experiência e histórias, de modo que haja se estabeleçam conexões, bem como uma lógica temporal específica (princípio-meio-fim), localizada no tempo e no espaço, a partir de uma linguagem própria que leve em conta as perspectivas e representações do colaborador (Martins & Ferreira, 2016).
A entrevista, de acordo com Jovchelovitch e Bauer (2002), consiste em uma forma de interação social em que os atores sociais constroem e procuram dar sentido a sua realidade a partir do uso de palavras, símbolos e signos. Além disso, na condição de técnica, a entrevista tem como vantagem favorecer a relação intersubjetiva entre entrevistador/a e entrevistado/a, isso se dá com base em trocas verbais e não verbais, as quais se estabelecem no contexto da interação, favorecendo uma melhor compreensão dos significados, dos valores e das opiniões
de entrevistados acerca de suas vivências pessoais e das situações vivenciadas (Fraser & Gondim, 2004).
Além disso, esse tipo de entrevista permite o aprofundamento nas questões trazidas pelos sujeitos em suas narrativas, permitindo acessar suas histórias de vida e seus contextos sócio-históricos, favorecendo a compreensão dos sentidos das crenças, dos valores, das ações e de outros aspectos dos informantes, produzindo conteúdo e narrativas a partir das experiências subjetivas dos colaboradores que podem ser transmitidas (Muylaert, Sarubbi Jr, Gallo, & Rolim Neto, 2014). Ademais, o processo de entrevista permite correções, esclarecimentos e adaptações, favorecendo seu uso com vistas a maior eficácia no alcance das informações almejadas (Nogueira da Silva, 2006).
Diferentemente de outros modelos de entrevista, não há esquema de pergunta e resposta, mas um conjunto de perguntas abertas e de tópicos de investigação que instigam os colaboradores entrevistados a narrarem suas histórias, a seu próprio modo, a partir de suas linguagens e de seus recursos (Martins & Ferreira, 2016). Sendo assim, a partir dos objetivos específicos, a fim de explorá-los, foram pensadas as balizas para a entrevista – as quais possuem caráter aberto, não-estruturado e de profundidade (Jovchelovitch & Bauer, 2002) –, a fim de acessar a narratividade própria das colaboradoras, buscando compreender os conteúdos transmitidos e as experiências subjetivas compartilhadas.
Desse modo, a entrevista inicia-se a partir de uma questão disparadora (Apêndice A.2.1), construída a partir do objetivo geral da pesquisa – “Como você percebe as questões relacionadas a religiosidade e espiritualidade no campo dos cuidados paliativos?” –, e seguiu com as questões exmanentes ou complementares (Apêndice A.2.2), que objetivam o aprofundamento da fala (Lira, Catrib, & Nations, 2003) e cujo intuito é também permitir que
sejam tiradas dúvidas ou que sejam tornadas mais clara algumas outras informações compartilhadas a partir da questão disparadora.
Para tanto, é importante que haja – e houve – prévia preparação da pesquisadora, devendo haver ampla compreensão do fenômeno que se busca olhar, além da construção de um ambiente de confiança para que as pessoas possam narrar suas histórias, bem como o uso de linguagem acessível para uma melhor comunicação (Martins & Ferreira, 2016).
3.2.2.2 Oficina com uso de cenas projetivas
Objetivando aprofundar as informações obtidas na entrevista, realizou-se uma oficina com as profissionais participantes da pesquisa, com intento de, a partir do uso de cenas, favorecer não só a compreensão dos conteúdos vinculados à entrevista, mas também beneficiar insights e novos repertórios acerca da temática de pesquisa (Nogueira da Silva, 2006). Trata- se, pois, de uma ferramenta que favorece o diálogo, a criatividade, a imaginação e a possibilidade de ressignificação para os grupos e para os indivíduos através da reflexão e do discurso.
No trânsito do campo da pesquisa, houve colaboradoras que não puderam participar da oficina coletiva em razão de sua disponibilidade. Em razão disso, foi dada a elas a alternativa de construírem as cenas em um momento individual, após a entrevista, agendado e acordado de acordo as possibilidades de cada participante.
As oficinas, de acordo com Spink, Menegon e Medrado (2014), promovem um exercício ético e político, já que, ao mesmo tempo em que se gera material para análise, cria-se um espaço, a partir da discussão em grupo, para que haja trocas simbólicas potentes, gerando conflitos construtivos, engajamento e possível transformação. Em outras palavras, os efeitos da oficina não se limitam ao registro de informações para a pesquisa, favorecendo a criação de espaços
dialógicos de trocas simbólicas e de co-construção de outras possibilidades e sentidos. Desse modo, reforça-se, então, a ideia de que não há separação de fato entre o que se convenciona chamar coleta de informações e a produção de informações, evidenciando a possibilidade de se tratar de um único processo.
Nesse sentido, as oficinas foram realizadas para aprofundar as narrativas, para confrontar percepções e valores e como uma alterativa para favorecer discursos menos racionais, aspectos conhecidamente relevantes para as abordagens de pesquisa qualitativa (Nogueira da Silva, 2006). Assim, paralelamente colaboram para a ressignificação e para a elaboração simbólica de vivências que possam ter carga emocional densa.
Tanto na oficina quanto nos momentos individuais, houve duas cenas, partindo-se de uma situação hipotética enunciada, a partir da qual se indicou que cada entrevistada criasse uma “cena” fictícia e a escrevesse (ver Apêndice B.1). No momento seguinte da oficina, cada participante expõe e comunica oralmente para o grupo sua “cena”, criada a partir das instruções dadas pela pesquisadora (ver Apêndice B.2), sendo assegurado um tempo para que pudessem ser feitos comentários por todas. Esse momento coletivo durou pouco mais de duas horas.
3.2.2.3 Diário de Campo
O analista qualitativo, no esforço de compreensão, contempla o dito e também o não dito e isso engloba “os gestos, o olhar, o balanço, o maneio do corpo, o vaivém das mãos, a cara de quem fala ou deixa de falar, porque tudo pode estar imbuído de sentido” (Demo, 2012, p. 33), tendo em vista que a comunicação humana é feita de sutilezas e expressa mais do que a própria fala. Desse modo, o recurso do diário de campo possibilitou registrar essas sutilezas, bem como outras percepções e afetações da pesquisadora que se deram no processo (Oliveira, 2014).
O diário consiste em uma importante tecnologia para registro e memória dos acontecimentos, conferindo maior riqueza à pesquisa, que vai tomando forma e adensando-se à medida em que é realizada (Araújo et al., 2013), favorecendo ainda a reflexividade de quem pesquisa. Trata-se, ainda, de um instrumento pessoal e intransferível, que pode trazer registros desde a primeira ida ao campo até sua fase final. Ademais, Minayo (2012) ressalta que quanto mais ricas forem as anotações do diário, maior será o auxílio por ele oferecido no processo descritivo da pesquisa, bem como na análise dos conteúdos produzidos no estudo.