IX - La pensée psychiatrique
ÉNERGIE ET QUANTIFICATION
No processo de desenvolvimento deste estudo, decidiu-se adotar pseudônimos em substituição do nome de cada uma das colaboradoras. Como o campo dos CP na cidade de Natal-RN é bastante restrito, é comum que os profissionais conheçam uns aos outros, sendo preferível, pelas colaboradoras, a não identificação. Assim optou-se por chamá-las por nomes de Pedras e de Cristais.
Desde tempos imemoriais, em diferentes culturas e crenças, as pedras e os cristais naturais despertam o interesse humano, seja por sua estética – formatos, cores, brilho – seja por seus mistérios, sendo valorizadas e até mesmo cultuadas em variadas tradições: tidas como elementos terapêuticos, de proteção energética, de elevação espiritual ou faculdades que permitiriam despertar capacidades superiores, além de possuírem propriedades mágicas e de cura; logo, é também comum que pedras e cristais sejam vinculados a concepções específicas a respeito de processos de saúde-doença.
Em razão do universo simbólico que circunda essas formações minerais e o campo de afetações produzidos neste processo de pesquisar, de ouvir, e que está presente nas narrações das colaboradoras, foram escolhidas pedras para representá-las, mas sem a pretensão de oferecer profundo conhecimento teórico sobre esse campo de saber. A isso junta-se o fato de que suas distintas qualidades e aspectos tornam-nas únicas e belas em sua diversidade, vide exemplo a seguir.
Quartzo Rosa e o cuidado amoroso
Figura 1. Quartzo Rosa
Essa é uma pedra usualmente relacionada ao amor e à paz, vinculada ao coração, tanto em aspectos simbólicos quanto em concretos. Diz-se que sua energia propicia a vivência dos diferentes tipos de amor, relacionando-se à empatia, reconciliação, perdão, diminuição do estresse e de tensões do coração, podendo aliviar a raiva, a inveja, o ressentimento, bem como auxiliando a harmonização dos relacionamentos, acalmando emoções e sentimentos e despertando o amor pela vida.
A ideia de usar nomes de pedras para representar as colaboradoras veio justamente do contato com Quartzo Rosa e com as sensações que o encontro com ela me despertaram. Ao encontrá-la, logo pensei: se essa experiência fosse uma pedra, seria um Quartzo Rosa.
Era como se estivesse um coração pulsando naquela sala, vibrante e visceral, que podia ser sentido e visto a cada história contada, a cada lembrança rememorada diante da
simples e complexa questão disparadora proposta, que não demorou para se tornar um compartir de experiências belas, emocionantes, difíceis, por vezes inquietantes, mas sobretudo amorosas. Talvez não houvesse melhor ponto por onde começar, Quartzo Rosa com sua preocupação e cuidado, acolheu profundamente a pesquisa, talvez mesmo sem intenção ofereceu-lhe um lugar seguro por onde começar, um lugar onde a gestação amorosa desse estudo pôde se dar, fazendo-me, depois de tanto tempo lembrar da paixão que esse tema de pesquisa produz em mim, ecoando assim sob sua voz, com cuidado, encantamento, afeto, conhecimento e ética, lembrando-me que a amorosidade não precisa estar cindida do rigor das boas práticas e junto com ela fez meu coração também pulsar e desejar mais de que nunca escutar as outras coisas mais que cada uma das colaboradoras poderiam me dizer e comigo compartilhar. Eu fique grata e saí mais viva e com o coração mais forte de que entrei (fragmento de Diário de Campo da pesquisadora).
Quartzo Rosa formou-se há mais de quinze anos, atua em cuidados paliativos no hospital e, esporadicamente, na clínica, outro campo de sua atuação, junto ao atendimento domiciliar que fez durante um período. Há aproximadamente 9 anos, atua em cuidados paliativos, mas nos últimos 4 anos essa prática se tornou mais clara e evidente, o que se deu a partir da constituição de uma equipe específica para a paliação no seu local de trabalho. Quartzo Rosa adota a perspectiva da Gestalt-Terapia e tem formação em cuidados paliativos. Trata-se de alguém muito vinculada às questões religiosas, principalmente às temáticas da espiritualidade, trazendo a sua própria e os conhecimentos sobre a religião como facilitadores de seu trânsito pelo tema, junto do saber psi, o que lhe confere conforto e gratidão.
Figura 2. Pedra Ônix
O contato com Ônix remeteu a muitas das inseguranças, do acolher à espiritualidade, do reconhecimento da importância e do cuidado para não produzir práticas distorcidas, trazendo marcada a ideia de que há coisas importantes que precisam ser protegidas para uma boa atuação. Ônix trouxe o tempo todo o esforço, e mesmo importância, em integrar a espiritualidade às práticas da psicologia e do cuidado, no entanto, com demasiada preocupação em sair do que é campo da psicologia, em não reproduzir práticas distorcidas, ou entrar num campo teológico e/ou doutrinário. Sinalizando sempre que oportuno que gostaria muito de ver como responderia as questões feitas na entrevista mais adiante, quando estivesse a mais tempo no serviço e na prática, palpitando que suas falas poderiam ser bem diferentes. Ônix me convidou, mesmo que não expressamente, para ver as dificuldades e desafios que podem surgir no processo de integrar a espiritualidade no cuidado, sobretudo quando se tem uma preocupação ética em não distorcer as práticas e quando pouco de nossa formação nos instrumentaliza nesse sentido (fragmento do Diário de Campo da pesquisadora).
O codinome Ônix foi adotado devido a essa ideia de necessidade de proteção e de legítima preocupação: a colaboradora, por vezes, apresentava insegurança diante dos desafios do olhar para as questões relacionadas à religião e mostrava-se apreensiva ao abarcar a espiritualidade, havendo cuidado legítimo para que isso não se convertesse em proselitismo. Ônix, nas tradições, é considerada uma poderosa pedra de proteção, do corpo e da mente, tida como potente transformadora de energia negativa, auxiliando na melancolia, na depressão e no acalmar dos medos, favorecendo segurança e estabilidade.
Ônix formou-se há três anos, tendo sua trajetória à semelhança da maior parte das colaboradoras relacionada a finitude e à psicologia hospitalar, logo também em cuidados paliativos.
Ametrino e o cuidado sensível e transforma-dor
Figura 3. Ametrino
O encontro com Ametrino foi transformador. Logo após a entrevista, antes mesmo de transcrevê-la, uma das frases colocadas ante um dos relatos que ela gentilmente compartilhou ficou ecoando na lembrança: dizia sobre a dor de um dos pacientes, que marcou muito a equipe, a qual não só era decorrente estrita da biologia da doença, mas que incluía também a de estar doente, que era também uma dor da existência, relacionada ao existir e, como tal, não podia ser cuidada exclusivamente por analgésicos.
[...] após a sensibilidade com que narrou essa situação e que relacionava a uma dor também espiritual eu coloquei “a mofina não abarca todas as dores, né?” ela respondeu: ‘e então’. Depois disso ficamos um tempo em silêncio, pra mim como que digerindo a densidade e complexidade do que havia acabado de ser comunicado, e conectando-nos de uma maneira diferente, era como se esse recorte de diálogo promovesse em nós um giro: a partir dali algo naquele espaço mudou, e a conversa parecia agora ter menos véus, mais autêntica e com uma potência que me permitiu aproximar das dores e porque não delícias, de ser profissional de psicologia na proximidade da morte, lembrando-me a letra de Caetano ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é’ em um contexto totalmente distinto (fragmento de Diário de Campo da pesquisadora).
Ametrino, em diferentes momentos, destacou para si a espiritualidade como algo importante, embora sentisse falta de exercitá-la mais ativamente, considerando, de certo modo, que pouco a exercia. Todavia, em sua forma de se colocar, fez com que a pesquisadora se conectasse com uma espiritualidade imanente, numa espécie de radicalidade que se ancora no sentido da vida para cada sujeito. Por essa razão, além das afetações todas que foram produzidas e de outros aspectos contidos nas suas narrativas, foi denominada Ametrino, uma combinação das pedras Ametista e Citrino, a qual, de certo modo, compartilha propriedades dessas duas formações minerais: uma muitíssimo ligada à espiritualidade, à intuição, à proteção; a outra, à vida, à felicidade/prosperidade, à força pessoal e ao corpo. A Ametrino é considerada uma pedra poderosa, que promove inspiração, transformação; é tida como a pedra para os que buscam dar sentido à vida e à existência.
Ametrino data cinco anos desde o início de sua atuação em Cuidados Paliativos, prática, conforme narra, mais clara, coesa e em equipe nos últimos dois. Formou-se há mais de 15 anos e, atualmente, faz uso do referencial da Terapia Cognitivo Comportamental nas suas práticas, que, em cuidados paliativos, têm se dado exclusivamente no hospital, apesar de sua atuação também na clínica.
Olho-de-tigre e o cuidado sábio e assertivo
O Olho-de-tigre é uma pedra apreciada e difundida em diferentes tradições e está associada à terra e à coragem, dentre outras simbologias. Diz-se que incentiva a resolução de conflitos, que favorece a autoestima e que gera discernimento, auxiliando, assim, a tomada de decisões importantes, a superação de limitações e a abertura; aumenta a assertividade e apura o instinto de atuar no momento certo, vinculando-se também à sabedoria. Consiste em uma pedra relacionada ao poder, impulsionando o enfrentamento de desafios, o foco e a materialização de objetivos, aspectos com os quais a colaboradora fez a pesquisadora se vincular fortemente na entrevista
[...] era direta, assertiva de um cuidado que se fundamenta na melhor prática – consistente e ética. Nosso encontro foi breve, entretanto completo em seu tempo (fragmento de Diário de Campo da pesquisadora).
Olho-de-tigre estava formada há mais de quinze anos e considera que esse é também o tempo que faz em que trabalha com cuidados paliativos. Ela se utiliza da Gestalt-terapia como abordagem e atua no hospital e na clínica.
Tanzanita e o cuidado profundo, reconectivo
Figura 5. Tanzanita
Nos estudos sobre pedras e cristais, a Tanzanita é considerada um cristal de elevação espiritual. Em algumas tradições, é vista como facilitadora do contato com fraternidades de luz
e como suposta neutralizadora de energias negativas, estimulando capacidades metafísicas, meditação profunda e reconexão consigo. Esses aspectos relacionados à Tanzanita fizeram com que a ela essa colabora fosse associada, uma vez que
[...] em suas narrações e inquietações trouxe a vista a seara da metafísica, não como algo que excetua outros campos, mas como modo também particular de ver o mundo e as experiências de seu campo de trabalho e de sua espiritualidade, Tanzanita me remeteu ao misticismo e olhar para dimensões não-materiais, de um modo que pouco consigo dizer (Fragmento de Diário de Campo da pesquisadora).
Tanzanita está formada há mais de quinze anos, atualmente atua em hospital e na clínica, fazendo, ainda, atendimento domiciliar. Em seu percurso, atuou em diferentes momentos com cuidados paliativos, retomando sua prática nesse campo no último ano. Utiliza-se da Gestalt- terapia e da Sistêmica Familiar em sua atuação.
Berilo e o cuidado que conforta
Figura 6. Berilo
Berilo é uma pedra associada à compaixão, ao recomeço, à reconciliação e à autocura, ameniza a ansiedade e fortalece os bons sentimentos. Referenciada por favorecer o foco nas ações importantes, é uma pedra recomendada para amenizar a ansiedade e atua aumentando a coragem, acalmando a mente e aliviando o estresse. O relato a seguir apresenta indícios do porquê de essa colaboradora receber o nome dessa pedra.
Eu cheguei agitada para a entrevista, tinha me atrasado por um problema na impressão e isso me irritou em alguns sentidos, já que a pontualidade é algo importante para mim. Nos instantes que antecederam meu encontro com Berilo fui respirando e tentando chegar o mais tranquila possível e a encontrei tranquilíssima a minha espera, como se nem houvesse atraso, paciente e compassiva... e este foi também o tom com que a entrevista se sucedeu, mesmo na densidade de alguns temas (fragmento de Diário de Campo da pesquisadora).
Berilo atua a partir da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), formou-se há quase dez anos e trabalha a cerca de um ano com cuidados paliativos no hospital, sendo essa uma demanda que recebe desde a formatura no contexto clínico.
Cornalina e o cuidado seguro
Figura 7. Cornalina
A energia da cornalina inspira ação, movimento, eloquência e coragem. Ela é uma pedra relacionada ao elemento terra e auxilia o aumento da sensação de segurança, de vitalidade no corpo e de poder pessoal, auxilia na transposição de desafios e na promoção de mudanças significativas e positivas para si, estando vinculada à carreira e às realizações pessoais.
O encontro com Coralina em alguns sentidos me lembrou o encontro com Olho-de- Tigre, direto, assertivo, seguro e sobretudo eticamente comprometido. Obviamente ao seu próprio jeito e a partir de seus próprios modos e características. Nosso encontro teve
um ar de pressa, daqueles que por vezes se instaura nos espaços do hospital diante de todas as atividades e demandas que aquele lugar presentificava naquele dia, mas ainda assim havia uma presença e engajamento em responder cada questão, e nessas horas podia haver ligeireza, mas não havia pressa. Deixei, então, nosso encontro pensando neste paradoxo (Fragmento de Diário de Campo da pesquisadora).
Em virtude desses aspectos, remeti essa colaboradora a uma pedra ligada à ação, à coragem, à segurança e ao poder pessoal. Coralina, assim como quatro das outras colaboradoras, está formada há mais de quinze anos. Utiliza-se da Gestalt-terapia e faz atendimentos domiciliares, na clínica e no hospital, atuando em cuidados paliativos há cerca de dez anos.
4. CUIDADOS PALIATIVOS E A MORTE: CONSTRUINDO UMA HISTÓRIA DE