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Synthèse des résultats en vue de l’application aux verres ophtalmiques

Chapitre 4. Le traitement des disparités horizontales sur l’ensemble du

V.1 Synthèse des résultats en vue de l’application aux verres ophtalmiques

Pode-se considerar recente a discussão sobre a constituição da subjetividade pelo “outro”, o “não-eu”, isto é, pela alteridade. Da mesma forma, a discussão mais sistematizada da intersubjetividade e suas variações nos diferentes olhares das pesquisas. As psicologias, especialmente, têm-se confrontado com as exigências éticas em relação à necessidade de reconhecer a alteridade como aspecto constitutivo das subjetividades.

Várias são as teorias, a exemplo da psicanálise, que têm intensificado a atenção para a relevância de reconhecer a alteridade nos processos de constituição do self. Fica, dessa forma, evidente a oposição entre grande parte da tradição filosófica moderna e a ideia contemporânea, uma vez que a primeira concebe o Eu como unidade auto-constitutiva, independente de um Outro. Essa oposição também se encontra na relação sujeito/objeto, nas epistemologias do pensamento moderno, deixando de fora a discussão sobre a intersubjetividade. É considerada pioneira a discussão filosófica europeia, em que a filosofia fenomenológica coloca em primeiro plano o estudo do conceito e da experiência da intersubjetividade. Edmundo Husserl (1929-1969) foi o primeiro que teceu considerações acerca da importância da experiência intersubjetiva e toda e qualquer forma de conhecimento de si e do outro. A partir dele, seus sucessores Scheler, Heidegger, Merleau-Ponty e Levinas colocaram a filosofia fenomenológica como referência principal para o estudo da intersubjetividade em diferentes dimensões. Para Heidegger (2002), certa alteridade é presença constitutiva das subjetividades, na medida em que a tradição que nos antecede e nos envolve, seja compreendida como aquilo que não seja eu, mas faz com que o eu possa vir a ser o que sou, isto é, para o filósofo, “um ser-aí, o Dasein e um Mit-sein (ser-com)” (COELHO JUNIOR; FIGUEIREDO, 2004, p.18).

A subjetividade reconhecedora da alteridade e que foge da harmonia perfeita entre eu e outro, compreendendo que algo do outro me excede, é sempre traumática. Em Freud (1856-1939), por exemplo, encontram-se referências a esta intersubjetividade traumática a partir da ideia de o outro, inconscientemente, impor- me a sua sexualidade como um forte impacto não passível de assimilação, nem de simbolização. Essa forma de compreensão é a fertilização para diferentes teorias psicanalíticas cujo intento é compreender “a origem da angústia de separação e de

individuação” que, indubitavelmente, envolve uma forma de convivência de perda, abandono e castração. A alteridade aqui é “traumática porque produz fraturas e exige trabalhos em processos permanentes de inadaptação entre eu e outro” (COELHO JUNIOR; FIGUEIREDO, 2004, p.21).

Para Safra (2005, p. 39), o self se diferencia do eu na medida em que é “uma organização dinâmica que possibilita a um indivíduo ser uma pessoa e ser ele mesmo”. Essa organização acontece no período maturacional com a mediação de um meio ambiente humano. À medida que experimenta, há uma integração cada vez mais ampla. O eu, para o autor, é “um campo representacional que possibilita ao indivíduo uma identidade nas dimensões do espaço e do tempo”. No entanto, é necessário salientar que nem o self nem o eu confundem-se com o ego, “que é uma das instâncias intrapsíquicas de caráter funcional, articulador das demandas do id, do superego e da realidade”.

Refletindo sobre a ideia de self para Winnicott, Safra (2005, p. 22) explica que há inicialmente um “self central que é o potencial herdado da criança”. Este, em união com o favorecimento do ambiente, experimenta sentir a continuidade de ser, adquirindo, gradualmente a sua maneira e em ritmo próprio “uma realidade psíquica e um “corpo próprio”. Esse favorecimento do ambiente permite o reconhecimento do outro, o que possibilita a própria existência enquanto ser. No momento em que o não-eu entra no seu campo vital, a partir do ato de criar, acontece o conhecer.

Embora o indivíduo, criativamente, se mostre por gesto, sonoridade, formas visuais e outros diversos meios disponíveis para constituir seu self e seu modo de ser, nem sempre é possível chegar a conhecer de verdade a si próprio e o outro, uma vez que essas criações apresentam tal complexidade simbólica que não são passíveis de decodificação. Safra (2005, p. 27) enfatiza a linguagem e os símbolos orgânicos estéticos como meios para o homem expressar suas experiências. Enquanto a linguagem discursiva “parece ser o veículo privilegiado do pensamento analítico, da linguagem da precisão, da representação, das funções denotativas e conotativas para entes inscritos no espaço e no tempo”, os símbolos orgânicos estéticos “veiculam o sentir, o ser, o existir”. Para o autor, os símbolos do “self articulam-se em imagens, em objetos recortados na materialidade”, mostrando os mistérios da vida do homem e seu estilo de ser. Assim, para compreender o homem, necessita-se da exploração tanto do verbal quanto do não verbal, uma vez que

assim como a linguagem os objetos sensoriais evoluem também em níveis mais sofisticados. Safra escreve:

Há o objeto subjetivo, que inicia a constituição do self; o objeto transicional, primeira possessão não-eu; o objeto do self, articulação simbólica de um estilo de ser; o objeto do self na cultura, conectando o sujeito na história do homem; o objeto do self artístico-religioso, apresentando o vértice estético e sagrado e inserindo o homem na atemporalidade da experiência humana. (SAFRA, 2005, p. 32)

Significa dizer que os objetos sensoriais evoluem, gradualmente, pela experiência do indivíduo com a sua exterioridade. No entanto não se deve confundir um único uso de qualquer desses objetos com as várias articulações possíveis durante o processo maturacional do self do indivíduo.

As formas sensoriais (presença do outro) dão ao indivíduo um sentir que ele existe. São experiências que permitem à criança a vivência de lugar e extensão, estabelecendo-se, gradativamente, uma organização do self bidimensional que é, por exemplo, calor, textura, dureza. Por meio da experiência da amamentação e do holding9 proporcionado pelo colo da mãe, a criança experimenta o self tridimensional. Neste momento, a criança tem acesso às primeiras concepções do não-eu (SAFRA, 2005, p. 81).

Entre o eu e o não-eu surge a experiência do vazio. Logo se revela um repertório imaginativo, composto de formas sensoriais que lhe dão sentido ao self. É quando o vazio pode ser preenchido e pode-se compreender como uma nova articulação da ilusão (criação do espaço entre a mãe e o bebê). Essa imaginação é a possibilidade de ocupar o espaço vazio (ausência do outro) com sua capacidade de sonhar.

Cada pessoa ocupa um lugar no mundo e, consequentemente, um lugar na vida do outro. É através desses espaços transicionais que fazem parte do dia a dia de todos, que é possível suportar a passagem pelos vários outros espaços do mundo. “A pessoa, pela capacidade de criar espaços transicionais, amplia o espaço do seu mundo, na medida em que consegue transformar o não familiar em familiar”. (SAFRA, 2005, p. 86).

Outro espaço que se faz presente no indivíduo é o sagrado, cuja amplificação se dá em direção à verticalidade, quando a subjetividade humana se direciona para

o mundo e para o divino. “É a experiência de estar na amplidão cósmica divina e no não espaço” (SAFRA, 2005, p. 87).

A importância da linguagem nas formulações da psicanálise sobre a psique humana já é conhecida desde os primeiros trabalhos freudianos, sendo fundamental para a recuperação do material inconsciente, por meio da associação livre, quando as ideias são verbalizadas, contribuindo para a interpretação e compreensão do trabalho onírico. Fato de grande aceitação entre os psicanalistas, em especial os franceses, com seu referencial na continuação teórica da escola lacaniana “A linguagem revela o self em dimensões poéticas, mesmo ali onde aparentemente ela é simplesmente discurso” (SAFRA, 2005, p. 117).

Safra (2005, p. 97) aborda a ideia de a “psicanálise ter se ocupado tão pouco da ação e do gesto do homem no mundo”, uma vez que é por meio desses aspectos que o homem constrói e transforma o mundo. A capacidade de agir, tomar uma atitude é o fundamento da criatividade humana. Assim é necessário dar espaço à ação e ao gesto para a construção do ser humano.

O self deve ser pensado a partir da ideia de como o indivíduo organiza-se no tempo, no espaço, no gesto, a partir de sua corporeidade, daí entender que o self se dá no corpo, consistindo dessa forma “lugar de encontros”. Entendendo o self como lugar de encontro de uma coletividade em si próprio, Safra argumenta:

Na questão do estabelecimento do público e do privado como sentido de si mesmo está um dos pontos contundentes da natureza humana, ou seja, a criação da singularidade de si no mundo com outros e a criação dos “muitos” em si no campo da singularidade do self. Uma vez que o self esteja bem constituído, em um registro, a pessoa é única e singular, enquanto, em outro, ela é muitos. Esses “muitos” são seus ancestrais, presenças atuais ou simbólicas, na constituição de si mesma (Safra, 2005, p. 155).

Assim, quando o indivíduo tem seu self bem constituído, consegue transitar em vários espaços do mundo, reconhecendo-se como individual e coletivo, bem como, entendendo que o seu outro é constituído da mesma forma. Dá-se então, uma convivência social harmoniosa e respeitadora.

3 SITUANDO O CORPUS