Chapitre 5. Combinaison des disparités horizontales et verticales
II.3 Discussion
III.2.2 La disparité verticale selon son plan de profondeur
Dando continuidade à parte das análises, passa-se agora a uma etnografia do DVD “Toca Brasil”. Para além de uma descrição, foram confrontados os movimentos gestuais de Escurinho com trechos da entrevista, onde o mesmo esclarece aspectos de sua história de vida à pesquisadora. O que se ressalta, visual e sonoramente, no DVD “Toca Brasil”, é o grande alcance temporal e emocional que as experiências de vida pelas quais passou Escurinho, têm sobre sua performance.
É por isso que a etnografia do DVD está entrecortada por relatos pessoais.
Atentando para este artista, pode-se apreender, que as estruturas que compõem sua performance, são ao mesmo tempo forma e conteúdo. Estas disposições e significações são dotadas de técnicas, aprendizados, história, influências culturais e sociais, além de diálogos intertemporais e interculturais com atores e contextos diversos. Dentre tantas experiências performáticas passadas, algumas deixaram marcas na relação de Escurinho com o palco. Podemos citar, a menção que Escurinho faz do pai tocando violão em reuniões de família, do grupo musical na adolescência (Ferradura), e da peça “Vau da Sarapalha”. Esta última, enquanto espetáculo que invocava uma presença
116 performática visceral, beirando à animalização, também contribuiu muito para o bom uso das habilidades corporais feitas por Escurinho hoje em dia.
O conteúdo abarcado pelas entrevistas virou matéria-prima para que se possa efetuar uma hermenêutica das visualidades do DVD. Esta é uma estratégia metodológica de interpretação, onde o etnógrafo pode considerar as respostas e reações de seu entrevistado, como continentes de significados sobre o assunto abordado. Ao explanar e relacionar palavras ditas por alguém, o pesquisador faz um exercício de transcritor, tradutor e organizador de uma teia cultural presente nas falas por ele recolhidas.
Assim, há três características da descrição etnográfica: ela é interpretativa; o que ela interpreta é o fluxo do discurso social e a interpretação envolvida consiste em tentar salvar o "dito" num tal discurso da sua possibilidade de extinguir-se e fixá-lo em formas pesquisáveis. (GEERTZ, 2008, p. 15)
Fazer etnografia de um DVD de música, significa voltar os sentidos para imagens e sons que foram armazenados no passado. Contudo, apesar da abordagem anacrônica levantada por um evento já acabado, esta iniciativa ganha novas significações toda vez que um DVD é assistido. Sempre há a possibilidade de refazer e incrementar esta descrição. A cada vez que o etnógrafo assiste, abrolham novos elementos como: movimentos, vocalidades, cores, posicionamentos de palco, instrumentos e maneiras de execução dos mesmos.
Esta pesquisa conteve análises musicais (ver tabelas contidas no terceiro capítulo), e agora passa a examinar exterioridades visuais e seus diálogos com a trajetória do artista. Um elemento complexo, que alimenta a discussão das visualidades, justamente por envolver dimensões diversas, sejam elas visuais, corporais, sentimentais, históricas ou sonoras é a performance. Sobre ela, tem-se algumas considerações no trecho abaixo:
A etnografia da performance musical marca a passagem de uma análise das estruturas sonoras à análise do processo musical e suas especificidades. Abre mão do enfoque sobre a música enquanto “produto” para adotar um conceito mais abrangente, em que a música atua como “processo” de significado social, capaz de gerar estruturas que vão além dos seus aspectos meramente sonoros. Assim o estudo etnomusicológico da performance trata de todas as atividades musicais, seus ensejos e suas funções dentro de uma comunidade ou grupo social maior. Adotando uma perspectiva processual do acontecimento cultural. (PINTO, 2001, p.228)
117 Até o advento das tecnologias de fotografia e gravação, os fenômenos performáticos eram portadores de uma efemeridade, que só não era maior, porque as narrativas, os desenhos e as descrições já vinham sendo usados como formas de registro. A etnografia seria a dicção de uma experiência através de palavras, reduzindo a texto as sensações vividas em algum evento a que se viu, ouviu e do qual se participou. É a representação testemunhal do ocorrido, transcrevendo em palavras escritas, uma experiência sensorial vivida pelo etnógrafo. A depender do caso, esta vivência poderá abarcar sentidos como visão, audição, olfato, tato, paladar e até reverberações emocionais desencadeadas pelos fatos presenciados.
Numa etnografia se fala pelos outros (GEERTZ, 2008, p. 10) e se tenta encontrar relações entre as mais variadas situações fáticas tidas como práticas sociais dos sujeitos envolvidos. Uma análise de vídeos, leva em consideração imagem e movimento, como também escolhas, discursos e símbolos. Neste caso, se faz etnografia de um conjunto de imagens, que já recebeu o tratamento e triagem de terceiros, aumentando com isso, a parcela de responsabilidade de cada um que se põe a analisar um uma obra artística como essa. Há que se tomar cuidado para no momento da descrição, não eliminar a densidade da cultura descrita. Sobre isso temos o trecho abaixo:
Visto sob esse ângulo, o objetivo da antropologia é o alargamento do universo do discurso humano. De fato, esse não é seu único objetivo — a instrução, a diversão, o conselho prático, o avanço moral e a descoberta da ordem natural no comportamento humano são outros, e a antropologia não é a única disciplina a persegui-los. No entanto, esse é um objetivo ao qual o conceito de cultura semiótico se adapta especialmente bem. Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (o que eu chamaria símbolos, ignorando as utilizações provinciais), a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível — isto é, descritos com densidade. (GEERTZ, 2008, p. 10)
As visualidades contidas num DVD de música, já foram editadas e peneiradas, de acordo com o entendimento do que seja “artístico” para aquele que trabalhou na escolha das imagens. Essas possibilidades, de seleção da informação apresentada, que são tão atuais quanto necessárias, não passam ao largo do interesse acadêmico como pode-se notar pelas palavras de Luciana Hartmann em “Imagens que produzem imagens”:
118 Outra perspectiva, no entanto, começa a ganhar espaço a partir da crise do texto: a fotografia, e mais recentemente o vídeo, passam a ser considerados também como um “recorte da realidade”, resultante do olhar de um sujeito que foi preparado, educado por uma cultura. (HARTMANN, 2001, p.68)
O recorte da realidade, através da cristalização da imagem e do som, é uma ocorrência típica das análises de performance atuais. Quando congelada em algumas dimensões, a realidade ganha e perde elementos constituintes, sem, contudo, deixar de ser uma maneira de expressão do vivido. Toda performance tem infungíveis elementos imagéticos e essas percepções sensoriais audiovisuais, no caso de um DVD de música, nos chega pelo suporte do registro em mídia. Portanto, o afazer que iniciamos é o de relacionar a história pessoal (entrevistas) com a performance demonstrada (DVD profissional de música).