Le design de la recherche
2. Le choix de l’étude de cas pour décrire, expliquer et proposer
2.2. Statut et design de l’étude de cas
Como nos refere Riley (1995), depois de os naturalistas do século XVIII haverem “descoberto” a ilha e a insularidade, estas tornaram-se o objecto de estudo por excelência para diversas áreas científicas.
A aplicação deste conceito (insularidade) a todas as ilhas, das do Mediterrâneo às das cercanias polares, frequentemente traduzida numa espécie de metadiscurso antropogeográfico sobre a condição do homem e sociedade insulares, radica na literatura de viagem e estudos naturalistas do século XVIII sobre os diferentes arquipélagos do Pacífico e está firmemente associada a uma noção biológica de insularidade, como o assinalou Lucien Febvre na sua obra La Terre et l’évolution humaine. Introdution geographique à l’histoire.
Paralelamente podemos ainda destacar as ilhas menores, ou as ditas ilhas de baixo4,
que em virtude da sua posição secundária na hierarquização do espaço arquipelágico, se encontram também elas relegadas, por assim dizer, para a periferia do discurso historiográfico (Riley, 1995).
Este último autor menciona aliás, a importância de precisar em que sentido, e em que escala, é utilizado o conceito de periferia. A sua noção, enquanto conceito operatório utilizado no campo das Ciências Humanas e Sociais, emerge com particular vigor na fase do pós-guerra dos anos 50-60 e está indissociavelmente ligada ao domínio político-económico e às teorias da globalização e dominação do sistema capitalista ocidental (Rowlands et al., 1987). A periferia, frequentemente associada aos conceitos de subdesenvolvimento e de Terceiro Mundo, deve ser entendida como uma “alegoria ao mesmo tempo, espacial e política”, como é sublinhado pelo geógrafo francês Yves Lacoste em Géographie dus sous-développment (Riley, 1995).
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Refira-se a este respeito o facto significativo de os micaelenses, exceptuando a ilha de Santa Maria, se referirem a todas as restantes parcelas do arquipélago pelo designativo genérico de Ilhas de Baixo. Independentemente das justificações geográficas que, segundo Leite de Vasconcellos, enformam a designação (aquelas para cujo lado o sol se baixa, isto é, as Ilhas de Oeste na terminologia culta), esta representação colectiva de um espaço topograficamente dividido em cima e baixo, reflecte sem dúvida uma consciência etnocêntrica de centralidade por parte dos habitantes de São Miguel (Riley, 1995).
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Por outras palavras, que centro – seja ele geográfico, político-administrativo, económico, cultural ou simbólico – tomamos por padrão quando qualificamos determinado lugar de periférico (Riley, 1995)?
Segundo Shills (1961), o centro de uma determinada sociedade, tem sempre a sua correspondente expressão espacial sem que, contudo, a natureza dessa centralidade apresente qualquer filiação, ou condicionalismo, de ordem geográfica. De facto, na sua teoria os contornos geográficos encontram-se muito esbatidos, pois para ele (Shills), o “centro, ou zona central, é um fenómeno que pertence à esfera dos valores e das crenças. É o centro da ordem de símbolos, de valores e crenças que governam a sociedade” (Riley, 1995).
Contudo, a partir do momento que saímos do campo da Macrosociologia para entrarmos no da História, as configurações geográficas das relações centro/periferia tornam-se muito mais objectivas e, ao mesmo tempo, mais complexas, consoante adoptamos, ou não, perspectivas de análises inspiradas no difusionismo ou na conflitualidade, no monocentrismo ou no policentrismo, como se encontra demonstrado no exemplar estudo de Carlo Ginzburg e Enrico Castelnuovo sobre a História da Arte Italiana (Riley, 1995).
De facto, se Medeiros (1987) refere o Corvo como uma ilha que se povoou e desenvolveu à sombra de outra (Flores), levando a que as relações centro-periferia num sentido eminentemente geo-administrativo, promovessem a referência mais imediata de centralidade a encontrar-se na ilha das Flores, onde estavam sedeadas as instituições representantes da autoridade pública mais próximas (Riley, 1995).
Aqui como centro mas na generalidade das situações, e muito graças ao contexto regional do arquipélago e mesmo à posição e peso relativo em relação ao Continente as Flores passam a ser consideradas como periferia.
Sem dúvida periférica mas não isolada. Não nos esqueçamos do importante papel que esta ilha, assim como a do Corvo, teve nos finais de quinhentos, à medida que as carreiras das Índias iam aumentando o seu fluxo de riquezas e a presença dos corsários ingleses se ia intensificando em torno delas. O grupo ocidental encontrava-se no centro de um dos mais importantes pontos de tensão da guerra naval entre o Norte e o Sul da Europa. Os ataques dos ingleses às Flores e Corvo em 1587, a batalha da Ilha das Flores em 1591, o apresamento da nau Madre de Deus (o maior feito pelos corsários ingleses) nas imediações do Corvo são alguns dos muitos acontecimentos documentados que atestam esta situação de centralidade da periferia ocidental dos Açores no domínio da História Marítima (Riley, 1995).
Centralidade esta que põe evidentemente em causa o seu isolamento. O termo mais adequado seria talvez marginalidade pois, como nos diz Riley (1995) esta singular
Qualidade de Vida e Vulnerabilidade no Arquipélago dos Açores: Estudo de Caso i
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125 comunidade insular, levanta-nos a necessidade de considerar a periferia não em termos geográficos, mas num sentido social, político e cultural. Ou seja, de acordo com Shields (1991), “os espaços marginais de interesse não estão necessariamente situados nas periferias geográficas, mas sim primordialmente colocados nas periferias de sistemas de organização do espaço”.
Quando, em 1924, Leite de Vasconcellos desembarcou por breves horas no Corvo, com o intuito de recolher e registar os arcaísmos da linguagem, cantigas e tradições locais, foi, não sem alguma surpresa sua, abordado por uma mulher que, com toda a naturalidade, o interrogou acerca da cotação da moeda norte-americana (Riley, 1995).
Tal situação totalmente inconcebível em outros meios rurais percorridos por Leite de Vasconcellos chama-nos a atenção para o facto da impossibilidade de comparação entre o isolamento insular e a interioridade continental, da mesma forma que deixa transparecer a variação da natureza das periferias não apenas em função da relações com o centro, mas também, e neste caso sobretudo, em função da diversidade de sociedades e sistemas culturais significativamente distintos, como é o caso vertente do relacionamento que, nos últimos séculos, o Corvo (e no nosso caso as Flores) manteve com Portugal e os Estados Unidos da América (Riley, 1995).
Surge-nos assim a imagem relevada por este último autor relativamente ao Corvo que pode muito bem ser transposta para a ilha das Flores sua vizinha, de centralidade da sua posição relativamente às rotas náuticas intercontinentais, bem como a sua perifericidade em termos de geografia política e administrativa.
Assim, começamos a ter noção de que a sua insularidade não lhe confere necessariamente a situação de isolamento, permite-nos dizer antes que possui algumas restrições mas que continua como sempre na rota dos acontecimentos mundiais, apesar de muitas vezes estar à margem de possíveis intervenções da realidade envolvente.