8.7 Calibration de la courbe des taux
8.7.4 Sensibilit´es aux param`etres de risque
Presume-se que “a mescla de formas narrativas21”, que compõem Grande sertão:
veredas, traz latente as faces misturadas de narradores das respectivas formas, os quais entram
na constituição do narrador Riobaldo. Dentre eles, tem-se o narrador das “formas simples22”, como a saga e o mito, e também os “narradores anônimos23”. Tanto André Jolles (1976) quanto Walter Benjamin (1994) concluem que os narradores primevos e anônimos narram os temores e mostram uma cosmogonia natural e social. Esses narradores buscam uma unidade24 que responda ao medo da morte e das maravilhosas e terrificantes forças da natureza; também procuram resistir aos poderes que subjugam o homem.
Com efeito, a multidão de narradores anônimos do sertão, aos quais Riobaldo inclina o ouvido para escutar os relatos, utilizam provérbios, máximas e contam causos exemplares. Alguns jagunços relatam façanhas na tentativa de resistir a forças aterradoras, fazendo da narrativa, “obra de opor, por medo”, e “tretam” para ganhar respeito (GSV, p. 23). Alguns causos emergem da perspectiva do temor: “O medo, que todos acabavam tendo do Hermógenes, era que gerava essas estórias, o quanto famanava” (GSV, p. 386); outros
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Para David Arrigucci Jr. (1994, p. 40), a singularidade de Grande sertão: veredas, quanto à forma, “depende em profundidade da mescla das formas narrativas que o compõem, intrinsecamente relacionada com o mundo misturado que tanto desconcerta o narrador.”
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As formas simples para André Jolles (1976, p. 97) são formas primitivas, que estruturam as narrativas arcaizantes, como os provérbios, as máximas e o mito, “resultante[s] de uma disposição mental coerente e contundente”, atualizados, por exemplo, no conto, no causo e nas narrativas exemplares; ainda que desvirtuados, estes podem trazer, como as formas simples do mito, interrogação do passado por meio da contemplação que se “converte em espanto, e este espanto em interrogação”, mostrando “uma gama de temores, apreensões, esperanças e objeções” (p. 87; grifos nossos).
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Walter Benjamin (1994, p. 199 e 226) entende os narradores anônimos como representantes da massa dos excluídos, que preservam cacos (“restos” de fatos sobreviventes soterrados pelo historicismo dos vencedores que galgaram o poder) de relatos de sua vida, na tentativa de cumprir a missão do Angelus Novus de Klee: “salvar seus mortos” soterrados pelo terror teleológico do historicismo.
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Nas aproximações que Suzi Sperber faz entre Valdomiro Silveira e Guimarães Rosa, relativamente ao conto “Salvação” daquele, afirma que sua moral temerosa “leva à indefinição das formas”, conseqüentemente o conto realiza “mal aquilo que para as formas simples é fundamental: o holismo, que atribui sentido à vida e ao mundo”. (SPERBER, 1997, p. 99). No caso de Grande sertão: veredas, não há indefinição, mas uma confluência de formas simples e clássico-literárias, objetivando dar conta do sujeito timorato que, em vez de se segregar numa moral, carece de múltiplas formas para apreender sua indivisibilidade, pois não pode ser explicado pelos seus distintos componentes físico, psicológico ou psíquico, separadamente.
narradores, ainda, inventam “maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam crendo e temendo” (GSV, p. 52). Traços míticos também comparecem na obra: “O fundo arcaico – de cujo oco mais profundo no sertão, reino de uma mitologia ctônica, parece ter saído o Hermógenes – é também o da cercania do mito.” (ARRIGUCCI JR., 1994, p. 17)
Assim, Riobaldo-narrador compõe-se também das faces desses narradores “prascóvios” e verte a matéria jagunça na narrativa, para entender do “medo em ânsia” (GSV, p. 21), da coragem e da gana que o empurra a fazer tantos atos (GSV, p. 96). Subjazem, pois, no seu relato, o temor e a angústia. Para o ensaísta Alfredo Bosi (1988, p. 274; grifos do autor), os substratos das grandes obras literárias possuem a pulsão do medo: “Na intervenção do texto enfrentam-se pulsões vitais profundas (que nomeamos com os termos aproximativos de desejo
e medo, princípio do prazer e princípio de morte)”.
Na complexidade de seu conceito, o termo “pulsão” – conforme Sigmund Freud, que deu proeminência ao assunto – transita, nos estudos freudianos, entre a concepção de forças no psiquismo que tendem ao princípio do prazer e o impulso do organismo vivo à morte (FREUD, 1969, p. 53-61). Nesse dualismo pulsional (pulsões de vida e pulsões de morte), está a dimensão conservadora25 do ser vivo, no sentido de que os movimentos vitais procuram sempre desvios no itinerário que conduz à morte (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 484). Na filosofia contemporânea, a pulsão pode ser entendida como o “princípio de atividade” (HEIDEGGER, 1983, p. 221) que tende para a preservação do ser, como destacamos no primeiro capítulo. O caráter compulsivo, nesse sentido, está presente nas ações do herói Riobaldo que, paradoxalmente, arrisca a vida sem o desejo de alcançar a morte.
Também é margeando a morte que o herói de Grande sertão narra; narrar é tão necessário quanto viver. Assim, muitos recursos estéticos primitivos ou refinados encarnam o temor humano. Nesse sentido, sua narrativa é uma luta contra a morte, é um apego à vida; especialmente quando se está em idade avançada, ou sob o peso de doença terminal, a
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Sigmund Freud (1969, p. 58) entende que o aspecto conservador das pulsões assume também o sentido de preservação da “própria vida por um longo período”, graças a um grupo de pulsões que se atira “para trás até certo ponto, a fim de efetuar nova saída e prolongar assim a jornada”.
narrativa torna-se a chama luzidia e aquecedora da vida que tremula em direção ao fim. Não sem razão, Todorov (1979, p. 126) afirma: “A narrativa é igual à vida; a ausência de narrativa, à morte.” Riobaldo, já com doenças da velhice, não cessa de insistir em contar: “Quero é armar o ponto” (GSV, p. 205), “quero contar” (GSV, p. 217), “quero pergunta” (GSV, p. 251), “quero dizer” (GSV, p. 296), “me ouça” (GSV, p. 301), “conversa quero referir ao senhor” (GSV, p. 408) e assim por diante.
Riobaldo é símbolo do homem timorato que deseja narrar para viver. Com efeito, percebe-se que um dos substratos importantes de Grande sertão: veredas é o medo em sua vertente primordial e, também, inventada, ou seja, tanto o medo maior, da finitude, quanto o construído no nível das relações de saber e poder entre os homens. Da mesma forma que a vida jagunça de Riobaldo, sua narração, dentre várias paixões, é também impelida pelo medo. Nesse romance, a manifestação do temor, como na tragédia grega, não vem a efeito sem as ações; e o sertão, espaço onde se desenrola a força das formas secretas do temor e o amor viceja, é como um teatro: “Diadorim. […]. Meu corpo gostava do corpo dele, na sala do teatro” (GSV, p. 173). No centro do medo de traços trágicos, encontram-se Diadorim e Riobaldo. Nesse sentido, reporta-se ao referido estudo de Willi Bolle (2004) que classifica Diadorim como coluna mestra do ato criador de Guimarães Rosa.
O ensaísta considera Diadorim a musa inspiradora de Guimarães Rosa na construção de
Grande sertão, onde o romancista mineiro estrutura uma quantidade enciclopédica do
conhecimento sobre a terra e o homem do sertão, e aproxima seu estudo do de Elizabeth Hazin, que mostra a gênese do romance baseada em temas axiais, tais como “Riobaldo, o jagunço contraditório, reflexivo e filosofante” (BOLLE, 2004, p. 197). Seguindo a orientação de Cavalcanti Proença, o estudioso toma as pistas da identificação da paixão de Riobaldo como a forma de composição de todo o romance, isto é, um modo de escrever espaçado e disjuntivo adotado pelo romancista. Diadorim é, nessa perspectiva, uma figura emblemática do estilo dissimulado do autor.
O estudo de Willi Bolle (2004, p. 199) realça a função do personagem Diadorim como
leitmotiv da história, de três maneiras: pela confissão do narrador de que sua vida conhece-se
pela de Diadorim, pelo significado do nome “Reinaldo” como “o rei que conduz” e pela confissão do romancista a Ariano Suassuna – que conversou com Guimarães Rosa sobre a ideação de Deodorina –, de que adota, em Diadorim, a idéia do romance ibérico da donzela que foi à guerra, como fio condutor do enredo de Grande sertão. O romance, na verdade, tem outros centros, tão importantes quanto o vínculo Riobaldo-Diadorim, como questão da mistura entre o bem e o mal.