• Aucun résultat trouvé

O itinerário que se reabre a Riobaldo tem alvo certo: a vingança pela morte de Joca Ramiro, compromisso assumido com Diadorim: “Esse menino, e eu, é que erramos destinados para dar cabo do Filho do Demo, do Pactário!” (GSV, p. 386) Os bandos amigos são novamente arregimentados para a missão extraordinária, mas esta não se cumpre de imediato; o bando é surpreendido pelas tropas de soldados do governo à cata

dos bebelos e dos bandos filiados a Joca Ramiro que capturaram e absolveram Zé Bebelo. Os bandos se desfazem para desviar a atenção dos soldados. Nas idas e vindas, em que vários confrontos retardam o cumprimento da missão, Riobaldo é ferido pela primeira vez, no tiroteio do Ribeirão-do-Galho-da-Vida. Isso motiva o medo de uma deficiência física:

– “Se eu tiver de atirar, então como é que faço? Não posso...” – era outro meu receio. […] Assim a primeira vez que me sucedia um a-mal, isso me perturbasse. O que me sofria até nas margens do peito, e nos dedos da mão, não me concedendo movimentos. Muito temi por meu corpo. (GSV, p. 304)

Nessas errâncias, em diversos combates, Riobaldo está no bando comandado por Marcelino Pampa. Surpreendentemente, numa época em que não é mais procurado pela polícia nem perseguido pelos ramiros, Zé Bebelo reaparece: “ – ‘Vim cobrar pela vida de meu amigo Joca Ramiro, que a vida em outro tempo me salvou de morte... E liquidar com esses dois bandidos […]! Filhos da égua...’ – e ele estava com a raiva tanta, que tudo quanto falava ficava sendo verdade” (GSV, p. 86). Exige a chefia que lhe é cedida sem resistência por Marcelino Pampa. Sob seu comando, o bando empreende novas investidas contra Hermógenes e Ricardão, até caírem num cerco do bando dos hermógenes, no casarão da Fazenda dos Tucanos. Riobaldo-narrador faz desse incidente na casa uma espécie de laboratório do medo.

A principal análise recai sobre os temores de Zé Bebelo: “Só duma coisa eu forte sabia… Só que eu ia vigiar sempre Zé Bebelo.” (GSV, p. 328) O protagonista quer saber em que medida o chefe teme. Uma leitura possível dessa vigilância sobre o chefe, numa visão linear, refere-se à desconfiança do protagonista quanto a um possível conluio articulado por Zé Bebelo com forças do governo, para danar os jagunços e alcançar os objetivos políticos da campanha pessoal a deputado. Mas, olhando-se mais de perto todos os movimentos dentro da casa e as ações do chefe e do protagonista no calor da guerra e depois da fuga desabalada do bando, percebe-se que há duas lutas pelo poder: uma que

vem de fora, patrocinada pelo bando inimigo e outra interna protagonizada por Zé Bebelo e Riobaldo.

A guerra externa traz ao bando interno o medo da morte, especialmente, quando, dentro da casa, os jagunços são obrigados a empilhar os corpos dos companheiros e conviver com o fedor deles e a opressão dos relinchos horrorosos dos cavalos, sendo mortos a tiros. No interior do casarão, trava-se uma luta de outra ordem que revela os reais limites do poder e as verdadeiras intenções de Riobaldo: ser o líder definitivamente. Nessa passagem, o romance mostra a produção do medo inventado. Nesse momento, apenas alude-se à existência desse fato a ser demonstrado no capítulo seguinte.

A luta interna é fundamental para se entender a relação do medo com o exercício do poder; a situação dentro da casa agrava-se deveras quando Riobaldo acusa Zé Bebelo de ser pago pelo governo. A suspeita de que o chefe entregaria todos os jagunços aos soldados para se promover não se confirma. Aparentemente, o suposto conluio não existe, pelo menos nos moldes pensados por Riobaldo, tanto que a traição não é comprovada, como mostra um diálogo entre eles após a guerra. Assim que o bando consegue livrar-se da casa, Zé Bebelo prova ao secretário que sua desconfiança não tem fundamento: “ – Riobaldo, escuta, botei fora minha ocasião última de engordar com o Governo e ganhar galardão na política... Era verdade, e eu limpei o haver: ele estava pegando na mão do meu caráter.” (GSV, p. 350)

Nos dias do cerco, Riobaldo analisa não só Zé Bebelo, mas também as diversas reações de medo dos companheiros: “cada um gritava para os outros valentia de exclamação, para que o medo não houvesse.” (GSV, p. 325) Mais do que a aprendizagem da coragem, ali há o exercício da manipulação do medo, cujo alvo principal é o poder: “Zé Bebelo carecia de rédeas de um outro diverso poder e forte sentir, que tomasse conta […]. Assim eu estava sendo. Eu sabia.” (GSV, p. 336) A partir desse episódio na Fazenda dos Tucanos, Riobaldo transforma-se em exímio observador do medo alheio.

Nas andanças que se seguem sob a chefia do candidato a deputado, o bando erra o caminho e vai defrontar-se com os catrumanos, que provocam terror e repugnância. Nesse momento, Riobaldo percebe quão inábil é Zé Bebelo para chefiar, pois não sabe ler as ameaças de um povo desqualificado e à margem da “ordem e progresso” – lema de sua campanha. Riobaldo aplica-se à leitura do comportamento daquelas pessoas estranhas e desfiguradas, para descobrir a medida de seus temores e o potencial deles à temeridade. Como hábil ledor do medo, o protagonista tem olhos para essa leitura que, na condição de narrador, fornece ao interlocutor: “De homem que não possui nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo!” (GSV, p. 367)

O bando segue viagem, atravessa o Sucruiú, arrancha-se numa localidade vizinha chamada Valado. Exaustos, os jagunços começam a sofrer muito e Riobaldo confirma o medo a respeito do chefe apreendido na Fazenda dos Tucanos: “Zé Bebelo pegou a principiar medo!” (GSV, p. 377) A tropa avança e chega à tapera da Coruja. Doença e desânimo forçam a suspensão da caminhada; Riobaldo teme a falência pessoal e do grupo, e suspeita de novo conluio, agora de Zé Bebelo com Seô Habão para transformar os jagunços em assalariados18. Riobaldo decide superar o medo que medra ali e ter forças para vencer Hermógenes: resolve encarar o demônio num pacto. O mote que o acompanha antes e durante o pacto é “Eu não ia temer” (GSV, p. 395). No momento crucial, lança mão de uma estratégia, analisada adiante, de produção de medo para neutralizar o medo e gerar espanto: “tirei de dentro de meu tremor as espantosas palavras.” (GSV, p. 395)

Após a tentativa de realizar o pacto – que fica sem saber se houve ou não – e reintegrado ao bando no dia seguinte, Riobaldo toma a chefia de Zé Bebelo e, sagazmente, confirma que o poder caiu em suas mãos: “Amém. Tudo me dado.” (GSV, p. 412) Quem

18

Para Willi Bolle (2004, p. 150), o que motiva o pacto com o demônio é essa questão: “O protagonista tem clara consciência de que se encontra entre um senhor e seus escravos – e que chegou o momento de optar. É nessas circunstâncias que ele recorre ao meio do pacto com o Diabo. Em que consiste a significação desse episódio senão em superar através de um ‘meio mágico’ a diferença de classes que separa um peão de um fazendeiro, de um ‘homem muito provisório’ de um ‘sujeito da terra definitivo’?” Mas o pacto pode ser visto também como uma forma de resistir, não à situação de classe, mas à ruína pessoal, tanto que Riobaldo não avisa ninguém que fará o pacto e, depois, não anuncia que o fez.

doou o poder ao herói? A palavra “amém” é irônica, pois a conquista do poder não foi o resultado de uma ação democrática como resposta à solicitação do grupo. Essa ação já vinha sendo gestada, há muito, pelo protagonista. O “amém” – termo ligado a atividades litúrgicas –, associado ao exercício do poder remete à fundação do poder entre os homens; significa que ele caiu dos deuses diretamente àqueles que começaram a exercê-lo como modelo divino, por isso deve ser aceito reverentemente. O poder pleno – profano, intrinsecamente ligado ao religioso – do modo colocado por Espinosa (1979, p. 121), constitui importante forma de produção de medo entre os homens.

Com o “amém”, finda-se a primeira etapa do itinerário timorato do narrador- protagonista.