Assumindo a liderança, Riobaldo despede o dissidente Zé Bebelo e, politicamente, fica fortalecido. Mas um poder político apenas secular não tem força diante dos subalternos, assim é que o novo chefe resolve revestir de aura divina seu comando. Isso se dá, especialmente, em cinco episódios de caráter místico-miraculoso ao público. O primeiro refere-se ao Itambé:
O que eu carecia era de uns instantes sempre meus […]; e as extraordinárias cousas, para que todos admirassem e vissem, eu estava em precisão de fazer. E vi um Itambé de pedra muito lisa; subi lá. Mandei os homens ficassem embaixo, eles outros esperavam. Minha influência de afã, alegria em artes, não padecesse de se estorvar em monte de pessoas nenhumas. (GSV, p. 414)
Essa cena não deixa em dúvida a teatralização do poder profano buscando os
arcana Dei. Para sua palavra de comando adquirir força, Riobaldo sobe ao “pico do serro
do Itambé” (GSV, p. 386); essa é uma necessidade dos comandantes. O Itambé ergue-se “alto nas nuvens nos horizontes”; o bando, naturalmente, vê o chefe sumir entre nuvens, no céu, afinal, essa é a ordem: que ficassem no sopé, a fim de que “admirassem e vissem” seu líder nas alturas. O episódio é diametralmente oposto ao das Veredas Mortas, agora ele está fazendo um pacto com Deus.
Nas Veredas Mortas, Riobaldo sozinho caminha na quiçaça, numa terra ruim de mato baixo e espinhento, “na escuridão”, sob a “lua escondida”, ouvindo “chirilil dos bichos”, com frio que “apertava por baixo”; já no Itambé há nuvem, horizonte e espectadores. Os dois ambientes envolvem elementos telúricos e poderes espirituais. Qual a diferença? Parece antitética a formação do poder conformado nesses moldes. Grande
sertão: veredas procura representar o paradoxo da formação do poder primevo que
Riobaldo, nas Veredas Mortas, enfrenta o medo/demo íntimo, a luta é individual; ali procura superar-se. No Itambé, encena a concessão do poder divino, de forma que os subordinados vejam as extraordinárias cousas. Por sua vez, o que ele viu lá em cima? O narrador não revela ao interlocutor: mistérios divinos, mistérios e enigmas do poder. Que jagunço-Homem no sertão-Mundo não teme os mistérios do poder-síntese dos arcana? Com efeito, o Itambé simula a produção do medo que leva o homem comum a ver o poder de forma intocável, com reverência, pois é fruto de uma eleição divina “Tudo me dado”, por isso, “amém”, diz o narrador.
Das alturas, Riobaldo olha os jagunços no sopé e reitera a eleição: “Tinham me dado o brinquedo do mundo”. (GSV, p. 414) O verbo “ter” no plural deixa transparecer que o sujeito são os companheiros jagunços; o poder de Riobaldo passa a ser exercido com a autoridade de Deus, ainda que sua origem seja de fato terrena, feito pelo homem humano. Diferentemente da vez que retorna do pacto – quando o protagonista apresenta-se ousado e impulsivo –, descendo do Itambé, ele vem comedido e ponderado:
Fiquei lá em cima, um tempo. Quando desci, umas coisas eu resolvia. Aonde se ia; em cata do Hermógenes? Ah, não. Antes, primeiro, para o Chapadão do Urucuia, onde tanto boi berra. Ao que me seguissem. Ah, mas, assim, não. O que foi o que eu pensei, mas que não disse: – Assim não... (GSV, p. 414)
Só de forma aparente, a subida ao Itambé sinaliza uma intenção ascética, objetivando supressão do medo pessoal. Encena a assunção do poder. A aura e a mistura do novo líder vêm acompanhadas do novo nome do herói; assim, ele está pronto para capitanear o grupo. Contrariamente ao estilo de liderança de Zé Bebelo, que tudo explicava numa visão unicamente política, Riobaldo toma decisões, mas não as comunica aos subalternos jagunços. Age em segredo, em mistério, o que não impele o grupo a abandoná-lo, mas a segui-lo. A exigência que fazia a Zé Bebelo, de perseguir e envenenar Hermógenes, agora perde a urgência, mas o grupo não percebe a incoerência do novo líder; é que Zé Bebelo não tinha a aura dos arcana Dei.
Avante, reiniciam o roteiro retornando por onde vieram; o bando encontra seô Habão que insinua parceria a Riobaldo – uma praxe política comum no sertão, em que fazendeiros e jagunços compactuam-se –, que a rechaça, provocando nesse velho capitão da Guarda Nacional “todos tremores – conforme esses homens que não têm vergonha de mostrar medo” (GSV, p. 415).
Com efeito, deliberadamente, Riobaldo decide capitanear ao contrário da liderança anterior: “Meu direito era contrariar as regras todas do chefe que antes fora” (GSV, p. 422); por isso, não toma conselho com os experientes Alaripe, João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, nem com Diadorim, o idealizador da missão.
Nesse primeiro caso, o que há de milagroso, na mente dos jagunços, é o fato de seu novo chefe ter sido aceito por Deus no Itambé.
O segundo episódio milagroso que se destaca é o poder de Riobaldo de paralisar uma chuva intermitente de três dias. Façamos o percurso com o bando até o cenário do milagre.
Enquanto avançam pelo Chapadão, até a casa do fazendeiro Zabudo, Riobaldo começa sentir algumas dúvidas na afirmação de Diadorim de ter mandado recado a Otacília: “Ao que, por praga, eu relutei no freio: Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. Porque surpreendi o mundo desequilibrado rústico, o que me pertencia e o que não me pertencia.” (GSV, p. 454) O mundo, que se lhe afigurava com alguma ordem desde a assunção ao poder, mostra-se-lhe desequilibrado novamente, motivo pelo qual, desencadeiam-se, em Riobaldo, várias reflexões sobre o medo: relembra o pacto e, como narrador, pergunta a seu ilustre hóspede: “Digo ao senhor: meu medo é esse. Todos não vendem?” (GSV, p. 356); ao imaginar Otacília em seu encalço, afirma: “tive um receio” (GSV, p. 460); ao se defender de Treciziano, matando-o, pondera: “Sofri os pavores disso – da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.” (GSV, p. 482) e, por ter capturado a mulher de Hermógenes, teme os sentimentos amorosos: “Tive um receio de vir a gostar dela como fêmea. Meio receei ter um escrúpulo de pena; certo não temi abrir razão de praga.” (GSV, p. 486)
A pousada na casa de Zabudo constitui ocasião para Riobaldo reafirmar seu poder, relativamente aos arcana naturae que alicerçam ao público os arcana Dei. Como a paragem delonga-se por causa de chuva intermitente, ao terceiro dia, ainda sob chuva, irritado, Riobaldo toma uma atitude digna de reverência: ordena os jagunços a albardarem os animais, a fim de partirem. Quando pegam os animais, a chuva pára, o vento sopra e, brilhando o sol, a terra seca. Resultado: “Ante o que – por isso e por tanto – a admiração do pessoal foi de grandes mostras. E eu vi que menos me entendiam, mais me davam os maiores poderes de chefia maior. ” (GSV, p. 507) Admiração e pouco entendimento dos subordinados conferem maior poder a Riobaldo, mas seu comando resulta de artimanhas, do desconhecimento das “causas adequadas” da natureza pelos subalternos. Urutú-Branco sabe (“E eu vi”) que é bem terreno e sabe também que o poder de que está investido aumenta à medida que realize coisas maravilhosas ou aparentemente maravilhosas na natureza.
O terceiro episódio que pode ser visto como milagroso é o nascimento de uma criança que leva o nome do parteiro Riobaldo. Veja-se a cena:
Da mulher – que me chamaram: ela não estava conseguindo botar seu filho no mundo. E era noite de luar, essa mulher assistindo num pobre rancho. […]. Eu fui. […]. Entrei no olho da casa, lua me esperou lá fora. Mulher tão precisada: pobre que não teria o com que para uma caixa-de-fósforo. […] A mulher me viu, da esteira em que estava se jazendo, no pouco chão, olhos dela miaram de pavores. Eu tirei da algibeira uma cédula de dinheiro, e falei:
– “Toma, filha de Cristo, senhora dona: compra um agasalho para esse que vai nascer defendido e são, e que deve de se chamar Riobaldo...” Digo ao senhor: e foi menino nascendo. Com as lágrimas nos olhos, aquela mulher rebeijou minha mão... Alto eu disse, no me despedir: – “Minha Senhora Dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar!...” – e saí para as luas. (GSV, p. 440)
Como Urutú-Branco está iluminado – tal qual um vidente – diante do bando, anuncia o nascimento do bebê, não toca na mulher e sabe o sexo da criança, antes que nasça, como se percebe no pronome “esse” e na frase “deve de se chamar Riobaldo”. A filantropia, o milagre e a cena do beijo são significativas na projeção do poder aureolado.
Diadorim foi o único a não ser seduzido pela encenação, tanto que Riobaldo se aborrece e fala a si mesmo: “Aquelas obras, então, Diadorim não visse?” (GSV, p. 440)
O quarto episódio místico, pelo menos para os subalternos, acontece na luta no Tamanduá-tão. O confronto é contra os jagunços de Hermógenes, ainda que ele não estivesse presente, pois o bando é comandado por Ricardão. Durante o tiroteio, Riobaldo decide ficar parado, comandando; os tiros zunem em seu ouvido, roçam seu chapéu, mas ele fica inerte, como se percebe nas frases: “me alteei, e tive”; “não guerreei”; “só comandei”; “comandei o mundo”; “quieto fiquei”; “eu mal morto estava” e “No cavalo, eu estava levantado”. A guerra vem para seu lado, mas ele não se move e os enunciados de teor religioso são provocadores: “fiz o sinal-da-cruz” e “Se não vivei Deus, ah, também com o demo não me peguei”. Ao sentir a vitória, sussurra algumas vezes com força: “Urutú-Branco!…”. Saldo da guerra: muitos inimigos mortos, inclusive Ricardão. Por fim, ele conclui: “comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.” (GSV, p. 520-522)
Esses quatro episódios fundadores da imagem do poder divino-humano preparam o bando para os dois grandes desafios subseqüentes, idealizados por Riobaldo: a travessia do Liso e a guerra do Paredão. Melhor: prepara Riobaldo para impor aos subalternos a decisão da travessia.
Quando Urutú-Branco resolve revelar, aos jagunços, seu grande projeto de atravessar o Liso, ocultado de todos desde a subida ao Itambé, está consciente da reação dos jagunços, motivo pelo qual se projetara diante deles num poder conjugado terreno-celestial. Conclui que a tropa ficaria assombrada e maravilhada, ao ouvir a decisão: “Pasmo deles ia ser” (GSV, p, 474) Desde que assumiu o poder, Riobaldo foi hábil em criar, em torno de si, a temeridade no grupo: “para mim, eu peço espantos” (GSV, p. 473). Depois da subida ao Itambé – monte santo –, do milagre do parto, da paralisação da chuva e da vitória no Tamanduá-tão, o pasmo que o bando pudesse ter diante da notícia do projeto não seria de medo, mas de admiração, esperança e aceitação da proposta do líder. É o que acontece; ao anunciar a novidade, todos
“foram se animando” (GSV, p. 477).
O Liso do Sussuarão “era tão terrível?” (GSV, p. 478) Era. Mas com o poder do chefe humano-divino, o bando atravessa o “vão” medonho com admirável facilidade e sucesso, ainda que tenha ocorrido uma baixa, no trajeto de nove dias. Quem, dali para frente, ainda duvida dos poderes do chefe? A vitória sobre Hermógenes é certa.
Com esses episódios, Grande sertão: veredas põe em cena, perfeitamente, a representação dos fundamentos do poder forte – másculo, guerreiro, agindo de forma misteriosa e que se assume numa vocação redentora e libertária do mal. Os quatro milagres iniciais preparam o quinto. Riobaldo percebe-se claramente no jogo do poder sobre o vulgo; não tem nada de sobrenatural, sabe não ser misterioso e onipotente, mas mostra-se assim aos jagunços. A imagem da esperança que ele paulatinamente elabora tem início na iminência da fratura do grupo no retiro do Coruja.
Tal encenação do ato instaurador do poder primevo – cuja força está no medo que, habilmente manipulado, serve aos interesses de uma casta que se diz guardiã do poder divino – revela ao leitor também o jogo do poder moderno que encena a naturalidade do poder secular. Ao modo de ser de Riobaldo e, conseqüentemente, a seu poder vitorioso, Guimarães Rosa faz uma crítica, conforme se lê em sua entrevista a Lorenz: “Riobaldo é mundano demais para ser místico” (ROSA apud LORENZ, 1983, p. 95).
Todavia, a travessia do Liso ocorre com sucesso, mesmo sem planejamento nem provisões. Somem-se a tudo isso, as constantes retiradas solitárias, à fresca das manhãs, de Riobaldo, para buscar a “alvorada” (GSV, p. 963). Sempre que retorna, o café está pronto. O ascetismo público é fundamental no fortalecimento do poder. Enfim, é como afirma Julia Kristeva (1994, p. 199), a propósito da relação “súdito, artista e rei”: “não existe o sobrenatural para a pessoa que goza de um poder reconhecido e de uma imagem esplêndida. O sobrenatural transforma-se, para ela, em forma de gestão […]: o sobrenatural é para os ‘súditos’”.