Nesta parte do trabalho, pretende-se mostrar a interação do medo inventado riobaldiano e a angústia que subjaz à narração e às atitudes do herói, relativamente a seu amor por Diadorim cujo limite é estabelecido no incidente trágico no Paredão.
Em Grande sertão, percebe-se o medo impregnado tanto no narrador (“Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor” [GSV, p. 356]) quanto no cenário (“O sertão tem medo de tudo.” [GSV, p. 296]) e nos moradores (“a gente sobrossosa” [GSV, p. 337]). Em suas mais diversas formas, o medo pulsa a todo o momento nesse romance.
De fato, enquanto protagonista, Riobaldo também é tomado pelo medo inventado que atravessa sua vida amorosa, e, depois, sua liderança. Como narrador, o medo primordial, que gera angústia, insere-se em seu modo de narrar. Medo e angústia impregnam a vida do narrador-protagonista. Nem sempre é possível diferençar a medida da manifestação dos dois tipos de medo nas reações de Riobaldo, ainda que o medo e a angústia recebem distinções conforme a área do conhecimento. A psiquiatria contemporânea faz diferença entre um e outra. Já a psicologia clássica, da mesma forma que a filosofia clássica, não faz diferença
Tenho medo da dor de tua ausência que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo, dessa beleza das noites secretas quando chegas sempre
como se fosse a última vez. Tenho medo de que um dia queiras cessar esse rio de águas ardentes onde mais do que os corpos tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu. (LUFT, 2003, p. 55)
entre ambos. No medo incluem-se: temor, espanto, pavor e terror; na angústia: inquietação, ansiedade e melancolia (DELUMEAU, 1996, p. 25). Diferentemente do medo inventado, alinhamos a angústia ao medo primordial que, na filosofia contemporânea, corresponde ao temor fundamental, entendido, segundo Heidegger (ABBAGNANO, 2003, p. 60), como aquilo que mantém a abertura contínua e radical da ameaça “que vem do ser mais próprio e isolado do homem”, isto é, a consciência da finitude, o medo da morte.
Diante da angústia, do nada (NUNES, 1986, p. 114), o homem tem a expressão de si mesmo estorvada: “A angústia nos tolhe a palavra. A parolagem protege-nos da angústia, de que fugimos” (idem, p. 194), por isso, o homem procura quebrar o silêncio com a palavra (ibidem). É o que acontece ao narrador de Grande sertão que, sob o desabrigo da angústia, fala bastante, na esperança de prolongar o convívio com o visitante ilustre.
A loquacidade de Riobaldo, movida pelo desejo de entender a vida e adiar a morte, incide sobre a falta essencial; ele detém a atenção do interlocutor falando dos vazios do sertão e do demo, ambos “dentro da gente”. Incomodado pela finitude – “a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final” (GSV, p. 55) –, atreve-se a narrar o nada, o não-ser, o que não sabe: “Como vou contar, e o senhor sentir em meu estado? […]. Ah, o senhor pensa que morte é choro e sofisma – terra funda e ossos quietos...” (GSV, p. 557). O medo da morte é real, não é sofisma. Em Grande sertão, o demo é o símbolo mais representativo do nada, pois configura “o-que-não-existe!” (GSV, p. 285) e mete medo. Necessitando falar, Riobaldo narra pelo desejo de preencher o vazio, o espaço da anulação do ser. Não é sem razão que o título “imortal” atribui-se, em especial, a narradores e a poetas, capazes de perpetuarem-se pela palavra.
A narradora Scheherazade, das Mil e uma noites, por exemplo, supera sua anulação completa, narrando em meio às trevas da noite e às do decreto de morte, alimentando a curiosidade do sultão, que, praticamente, ouve, sem se saciar; a narrativa dela atende ao turbilhão do desejo dele, não durante três dias, mas por centenas de noites. A cada noite, ele
precisa ouvir a continuação da história da véspera; uma narrativa preenche o vazio da anterior, supera o medo de uma nação e abre uma esperança de vida e paz.
Riobaldo-narrador, negando para si o decreto de morte, quer superar o pacto do homem com a demoníaca tirania da sintaxe e da linearidade, insistindo na narração “em falso” com abundância de causos. Na primeira e na última página desse romance, ele afirma que o demo não existe e empreende, ao longo de sua fala, uma batalha contra a palavra que anuncia o fim, tanto que no meio do discurso de Grande sertão, reforça a afirmação: “Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha. É preciso negar que o Que-Diga existe” (GSV, p. 296). O imperativo é: negar as forças do fim, o “Tristonho, o Não-sei-que-diga” (GSV, p. 447). O diabo é “a negativa da palavra” (CHAVES, 1991, p. 453), é aquela palavra que – como o demo que guarda o “significado dum azougue maligno” (GSV, p. 13) – atrai tudo para a via fatal. Riobaldo questiona essa linguagem que dispõe tudo numa lógica finalista, buscando novas formas de narração, que lhe abra uma esperança de organizar outras perspectivas de vida, e insiste na permanência de seu interlocutor no posto de escuta para ouvi-lo.
O que parece caótico na fala de Riobaldo, quanto ao que “é e ao que não é”, constitui caminhos do conhecimento; importa a ele a inquirição do sentido, por isso, procura “ir até no rabo da palavra” (GSV, p. 166). Não é sem motivo que a arte de narrar, que ele confessa praticar sofregamente, tenha sido aprendida, justamente, com quem lhe oferece alguma explicação sobre a realidade pós-morte: “Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém” (GSV, p. 188). A aprendizagem não é satisfatória, pois o medo da morte não se resolve com as explicações do kardecista tanto que Riobaldo não tem sossego de espírito e Quelemém sempre o repreende quando mostra incertezas (GSV, p. 14). No entanto, adota diversas formas narrativas. Sua dificuldade de narrar deriva de questões que aborda. O medo do narrador-protagonista influi não só no teor, mas também na forma da narração.