O interlocutor acompanha, pela palavra do jagunço barranqueiro, a viagem pelo sertão não só a partir do amor, mas também do medo que impele o herói a aproximar-se e a distanciar-se de Diadorim. A história “em falso”, que o narrador solicita ao interlocutor ouvir, impregna-se também pela amizade falsa/verdadeira que ilude-desilude: “De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão.” (GSV, p. 72) Se a amizade recheia-se dessa ambigüidade, não menos ocorre à narração: “Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto.” (GSV, p. 175) A ambigüidade dos afetos de Diadorim cunha também o relato do narrador. A postura firme, o olhar profundo, a seriedade nas palavras do amigo, que fazem Riobaldo temer, criam a saudade do coração e as lembranças do espaço sertanejo.
Como se percebe, também em Diadorim o medo se manifesta, intervindo no amor e, naturalmente, na linguagem e na poesia do narrador. A lembrança dos fatos ocorridos não vem desprovida do medo na memória do hesitante Riobaldo-narrador. No momento crucial do
relato, ele clama ao doutor para que, além da força da rememoração, sinta o estado de ânimo que o sobressalta no momento da narração: “O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso” (GSV, p. 550). Tal apelo localiza-se próximo ao final da narração, quando o medo confunde-se com a angústia.
Volte-se às páginas iniciais do romance. A introdução de Diadorim acontece não antes de o narrador apresentar algumas maneiras de o sertanejo pensar as limitações das idéias do compadre Quelemém sobre o processo de reencarnação dos espíritos – meio de superar o medo da morte; de revelar casos menores como o referente à crueldade do Aleixo e a cegueira de seus cinco filhos e o sadismo de Pedro Pindó e da mulher que supliciam o filho Valtei que envolvem a crença do “povo prascóvio” no demo. Por fim, antes da apresentação de Diadorim, há a inserção do próprio narrador, enquanto protagonista, na teia da intriga, num tiroteio em Serra-Nova, de onde é forçado a retirar-se rapidamente. Na fuga, correndo velozmente em seu cavalo, Riobaldo revela a intensidade de seu medo:
Voei, vindo. Bala vinha. O cerrado estrondava. No mato, o medo da gente se sai ao inteiro, um medo propositado. […] Atravessei aquilo, vida toda... De medo em ânsia, rompi por rasgar com meu corpo aquele mato, fui, sei lá – e me despenquei mundo abaixo, rolava para o oco de um grotão fechado de moitas. (GSV, p. 21).
Diante da iminência da morte, o medo não conhece reservas, apresenta-se por inteiro e vincula-se à pulsão de vida, à preservação, a máxima da natureza, o desejo-conatus do homem, conforme Espinosa (Ética-IV, Prop. LXVII, Dem.). Riobaldo foge por causa do “medo em ânsia”. A expressão “vida toda” e a oração “despenquei mundo a baixo” mostram a impressão relativamente ao tempo e a atitude do jagunço timorato no sertão- mundo, quando o temor ganha intensidade elevada. A atitude de Riobaldo lembra uma bela imagem de Montaigne (1980, p. 42): “Ora o medo põe asas em nossos pés […] ora nos prega no solo e nos imobiliza.” O aspecto paradoxal do medo é recorrente no romance, podendo fazer o protagonista disparar, pensar fluentemente e ficar sem idéias e também inerte, como na luta final no vilarejo do Paredão.
Correndo sem saber para onde, Riobaldo acaba caindo no “oco de um grotão”. Seu estado de ânimo afeta o corpo muito fortemente: “Eu era só mole, moleza” (GSV, p. 21). Nesse momento da história, Diadorim é introduzido pelo protagonista, de acordo com o relato:
Conforme pensei em Diadorim. Só pensava era nele. […] Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim, mano-oh-mão, que estava na Serra do Pau- d’Arco, quase na divisa baiana, com nossa outra metade dos sô candelários... Com meu amigo Diadorim me abraçava, sentimento meu ia voava reto para ele... Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas. No senhor me fio? Até que, até-que. Diga o anjo-da-guarda... Mas, conforme eu vinha: depois se soube, que mesmo os soldados do Tenente e os cabras do Coronel Adalvino remitiram de respeitar o assopro daquele Joé Cazuzo. (GSV, p. 22).
Diadorim vem à mente de Riobaldo como amigo e anjo da guarda: dois antídotos contra a força do medo. Os anjos da guarda, em especial, posto que representantes de Deus, são guardiões da vida, colocando-se, assim, contra o diabo que, ligado à queda no abismo (grotão), se une ao simbolismo “de encerramento, de limite” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1991) e, portanto, da morte. Ademais, surgem, no romance, imagens da ação que se entrelaçam à narração: o modo de correr desgovernado e em disparada do protagonista corresponde à maneira sem ordem e divagada do narrador. Assim como o personagem vive momento de intensa atividade, alternado a instantes de pasmaceira, a narrativa acelera ou diminui o ritmo conforme o narrador recorda ou esquece Diadorim. A oração “conforme eu vinha” aplica-se tanto à vida do protagonista que, nesse caso, está fugindo, quanto à narração que foge da ordem comumente esperada.
A essas explicações e à menção do desejo do narrador, de continuar viajando para poder ter melhores pensamentos e idéias abertas, segue a seguinte afirmativa: “O senhor sabe: há coisas de medonhas demais, tem. Dor do corpo e dor da idéia marcam forte” (GSV, p. 22; grifo nosso). A dor do corpo, advinda das andanças e da passagem do tempo, liga-se à dor das idéias que, na narração, têm o pretexto para reflexão: o narrador narra
filosofando. O viver e o narrar trazem latentes pulsões de várias ordens associadas ao prazer e ao desejo de fazer prolongar a vida e ao medo de perdê-la.
Como figura angelical que interrompe temporariamente a força do medo, Diadorim está ligado à fonte de poesia. Ele ensina Riobaldo a apreciar as belezas da natureza: a vazão da cachoeira, o “cio da tigre preta”, a “garoa rebrilhante”, o revoar dos pássaros sob o luar “tão claro” que possibilita a cunhagem de moedas, o cheiro “de campo com flores, forte, em abril”, o “tamarindo sombroso”, o “céu-azul vivoso”, o vento entre as palmeiras, os buritis enfileirados, a fertilidade da terra que faz brotar o capim “verde-mar, filho do menor chuvisco”, as matas que produzem lindas borboletas “de todas as cores” brilhantes e a tardezinha cheia de música das cigarras. (GSV, p. 28 e 29) Na narração, lugares, coisas e os enamorados são mostrados também com essa aura angelical. As ações entre os dois companheiros são vistas também nessa atmosfera criada pela linguagem poética:
Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim […], de conversa continuada nem de amizades estreitas […]. E estávamos conversando, perto do rego – bicame de velha fazenda, onde o agrião dá flor. […]. Diadorim acendeu um foguinho, eu fui buscar sabugos. Mariposas passavam muitas, por entre as nossas caras, e besouros graúdos esbarravam. Puxava uma brisbisa. […]. E o chiím dos grilos ajuntava o campo, aos quadrados. Por mim, só, de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. […]. Quase que sem menos era assim: a gente chegava num lugar, ele falava para eu sentar; eu sentava. […]. Então, depois, ele vinha sentava […]. E eu – mal de não me consentir em nenhum afirmar das docemente coisas que são feias – eu me esquecia de tudo, num espairecer de contentamento, deixava de pensar. Mas sucedia uma duvidação, ranço de desgosto: eu versava aquilo em redondos e quadrados. (GSV, p. 30; grifos nossos)
As atividades primeiras que vêm à mente do narrador são aquelas em que Diadorim é parte integrante sem a presença do medo: passeios, conversas, acampamentos, fogueiras. O trato da linguagem faz com que as muitas minúcias venham à memória ligadas a Diadorim; a repetição do fonema /ĩ/ dá o sentido de afeto: foguinho, mim, assim chiím, Diadorim. A saudade do companheiro faz com que o narrador recorde alguns elementos que compõem as ações e o espaço. O leitor é persuadido de que a memória que propicia a
narração com essas belas imagens provém das belezas do passado. Mas, ao menor desequilíbrio da amizade aurática, o narrador corre o risco de perder o fio da narração: “eu me esquecia de tudo”; ou de raciocinar: “deixava de pensar”. Por conseguinte, ele versava tudo em “redondos e quadrados”, ou seja, numa narração com reticências, cortes, sem a linearidade que a mente supostamente racional do interlocutor, por ser doutor da cidade, poderia esperar.
De todo modo, Diadorim é a musa inspiradora do narrador, a ponto de ele afirmar que além dos rastros recebidos, o companheiro também o ensinou a ver e a apreciar o que é o belo: “Quem me ensinou a apreciar essas belezas sem dono foi Diadorim.” (GSV, p. 27)
Contudo, a partir do momento em que Diadorim expõe seu projeto de vingar o pai, o narrador-protagonista afirma: “Diadorim queria o fim” (GSV, p. 31). A claridade presente altera-se: “Treva toda do sertão, sempre me fez mal. Diadorim, não, ele não largava o fogo de gelo daquela idéia; e nunca se cismava. Mas eu queria que a madrugada viesse. Dia quente, noite fria.” (GSV, p. 32) E o sertão, como Diadorim, ressurge nessa dubiedade. As reflexões que o narrador-protagonista tece, sobre o relacionamento entre os dois jagunços, são apresentadas de forma tensa pelo incômodo de serem do mesmo sexo, pelo temor (de Riobaldo de ser flagrado nessa paixão proibida) e pelo medo que Diadorim faz ao protagonista. O narrador não se liberta completamente do medo em suas reflexões.