Inicia-se a reflexão localizando o conceito de medo na filosofia espinosana:
a esperança não é senão uma alegria instável, nascida da imagem de uma coisa futura ou passada, de cujo resultado duvidamos; o medo, ao contrário, é uma tristeza instável, nascida também da imagem de uma coisa duvidosa. Se se retira a dúvida
dessas afecções, a esperança transforma-se em segurança e o medo em desespero, a saber, a alegria ou a tristeza nascida da imagem de uma coisa que tememos ou
esperamos. (Ética-III, Prop. XVIII, Esc. II; grifos do autor)
O medo pressupõe a esperança e vice-versa; ambos estão ligados a uma imagem, à temporalidade, a uma instabilidade passional e à dúvida. Pressupõe também um conhecimento falso. É preciso ao homem conhecer a fim de não perecer, ou, pelo menos, para evitar viver de
forma precária, desnecessariamente, por criar imagens errôneas de uma afecção de tristeza, localizada no passado ou no futuro, tornando-a presente, sem que a coisa que gera tal afecção exista de fato. Uma vez que o homem não tem a capacidade de saber quanto tempo dura tal imagem, vive flutuante ou em dúvida, tornando seu momento presente aberto a toda sorte de superstição.
Um dos principais objetivos do conhecimento na filosofia de Espinosa é a perfeição humana, possível pela inteligência, com o que o homem conquista aquilo que lhe assegura o gozo da alegria contínua. A concretização do “gozo de uma alegria contínua e suprema” (Tratado da correção, § 1), segundo Espinosa, resulta da disposição do espírito humano para indagar e compreender as coisas do modo preciso, com o fim de superar a superstição e vencer o medo.
A natureza do conhecimento levantada pelo sistema espinosano culmina com a defesa de três modos de se conhecer, ou de se formar noções universais sobre o saber: o primeiro, o “conhecimento pela experiência vaga” ou pela imaginação; o segundo, o conhecimento pela razão; o terceiro, conhecimento da ciência intuitiva (Ética-II, Prop. XL, Esc. II). Os dois últimos ensinam o homem a discernir o verdadeiro do falso. O erro e a falsidade decorrem apenas do primeiro modo do conhecimento, pois, de certa maneira, a imaginação priva o intelecto de aprender perfeitamente as idéias adequadas, pela confusão da noção de causalidade da natureza.
Em suma, Espinosa contrapõe duas formas de se pensar a natureza: a imaginação e a razão. A primeira observa a disposição das coisas e conclui que estão bem ordenadas, mas não se aplica em saber sua essência, ou seja, em perceber que tal disposição apenas representa a ordem e não a causa das coisas. Caso haja alguma alteração na forma de a representação dispor a ordem, a imaginação conclui que tudo ficou confuso, que a ordem foi alterada. Resulta, disso, a incapacidade de recriação da memória que é relegada à confusão da ordem. A segunda, a partir da observação, busca analisar aquilo que excede a representação da ordem
ou que excede a disposição das coisas; não se debilita, caso outras noções de ordem venham a emergir; vê a ordem como efeito. O entendimento, sabendo que as alterações são causas necessárias, não se embaralha quando se depara “com uma infinidade de coisas que excedem em muito a nossa imaginação.” Mas o medo da “desordem” afunda o homem numa ordem falsa.
Imaginações como imortalidade da alma e seu caráter perfectivo, reencarnação, idades do ouro – e coisas semelhantes – são tentativas de conhecimento, objetivando ao desaparecimento do medo primordial. De fato, a morte existe, mas “a sabedoria [segundo os ditames do intelecto] não é uma meditação da morte, mas da vida” (Ética-IV, Prop. LXVII). Ou seja, o homem guiado pela razão, “não é levado pelo medo da morte, mas deseja diretamente o bem, isto é, deseja agir, viver e conservar o seu ser” (Prop. LXVII, Dem.). O conhecimento advindo do medo da morte não é racional nem verdadeiro. Segundo Hobbes, o indivíduo – sob o “medo perpétuo que acompanha os homens ignorantes das causas” (Leviatã-I, Cap. 12) – perde o gozo de uma alegria suprema e, também para Espinosa, abre espaço à dominação de outro sobre si.
Mas como a morte é real e não se pode suprimir definitivamente o medo a seu respeito, desde eras primordiais o homem é afetado por corpos que trazem a imagem dela. Todavia, o império do temor sobre a morte pode ser refreado, pelo sentido de emergência que ela impõe à vida. Caso o homem não consiga pensar pela força da razão, diz Espinosa, no mínimo, precisa adotar uma correta norma de viver, ou seja, enumerar e guardar na memória os perigos ordinários da vida e a maneira adequada de os evitar e superá-los: “Para nos desembaraçarmos da força do medo, devemos pensar da mesma maneira na força da alma” (Ética-V, Prop. X, Esc.).
A sabedoria do intelecto está em buscar, pelo conhecimento verdadeiro, uma paixão contrária ao medo da morte: o desejo da vida. É bem verdade que não há esperança sem medo, mas este leva o ser ao conhecimento do mal quando desprovido daquela que é
paixão alegre. O conhecimento proveniente da esperança gera segurança, que elimina a dúvida. Nessa medida, a esperança é contrária e superior ao medo, que se limita pelo desespero; ela se fortalece pela percepção das coisas necessárias. Se ela não se camufla de medos, o homem habilita-se à ação. Comentando esses aspectos sugeridos por Espinosa, Chauí (1987, p. 73)afirma:
Somente quando os limites impostos ao corpo forem sentidos com afetos de tristeza e sua expansão for sentida com afetos de alegria, somente quando a ignorância for experimentada como tristeza e o pensar como alegria ou “virtude própria da mente”, o combate entre as paixões mudará de curso e das paixões alegres passaremos às ações.
Será através da esperança que se aniquila a passividade própria ao medo? Este é invencível? Ele pode tornar-se menos intenso, mas não destruída sua passividade. A luta do homem deve refrear o medo pelo desejo das coisas que são presentemente agradáveis, afinal, “em nossas afecções mais passivas há, como sabemos, um elemento ativo, a parte de potência envolvida em nosso desejo” (DELBOS, 2002, p. 153). Trata-se do desejo enquanto cupiditas, isto é, enquanto esforço do homem para realizar atos que servem para sua conservação: “O desejo que nasce da alegria, em igualdade de circunstância, é mais forte que o desejo que nasce da tristeza” (Ética-IV, Prop. VIII), pois ela é definida não só pela potência humana, mas também pela potência da causa externa. Já a força nascida da tristeza ganha feição só pela potência humana, sendo, portanto, mais fraca que a alegria.
O desejo pode incidir sobre aquilo que falta ao homem (que pode ser algo perdido ou algo nunca possuído: a novidade). Desde que dirigida pela razão, a mente deseja, e escolhe, aquilo que aumenta a potência para o homem agir. Assim é que a razão escolhe sempre, de dois bens, o maior e de dois males, o menor, pois um mal menor é, de certa forma, um bem; e um bem menor, um mal (Ética-IV, Prop. LXV). Com efeito, a força do medo em relação ao bem está em travar seu próprio excesso e, da mesma forma, conter o excesso de alegria quando esta se manifestar num nível que impeça o ser de agir (Prop. XLVII).
Logo, para Espinosa, ocasionalmente, o medo pode ser bom; não é, entretanto, bom em si mesmo, pois implica algum “grau de tristeza, uma certa carência de conhecimento e potência” (DELBOS, 2002, p. 145). E “A importância primeira do conhecimento na doutrina de Espinosa provém de representar e assegurar ao homem o objeto supremo de suas tendências e de seu amor” (idem, p. 95). A felicidade só é possível quando se liberta dos enganos do primeiro gênero do conhecimento, isto é, da experiência vaga calcada na superstição.