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Absence d’Opportunit´es d’arbitrage et rendement des titres

Riobaldo sente que vive um mundo de desmedidas. Acredita que ama um homem como ele: “Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora.” (GSV, p. 274) De início, a descoberta do amor ocorre sem assombro, espanto ou temor. “Na hora”, a desmedida não foi percebida, mas, com o tempo, toma consciência de estar envolvido em intrincado e complexo descomedimento:

Olhei bem para ele, de carne e osso […]. – “Hê, Riobaldo, eh, uê, você carece de alguma coisa?” – ele me perguntou, quem-me-vê, com o certo espanto. […] Daí, voltei, para o rancho, devagar, passos que dava. “Se é o que é” – eu pensei – “eu estou meio perdido...” Acertei minha idéia: eu não podia, por lei de rei, admitir o extrato daquilo. (GSV, p. 276; grifos nossos)

Espanto de um lado, perdição de outro. Com a consciência da desmedida, está o sentimento de culpa. Riobaldo pensa em se matar com um tiro no lado da cabeça ou fugir

para conseguir “meia salvação”; decisão irônica, pois isso é igual a “meio perdido”, o que significa perdido completamente. Sob tensão fortíssima, dispara um tiro para o alto, assustando os colegas. O mais interessante disso tudo é que a certeza do amor por Diadorim ocorre em um tempo de paz entre os bandos – uma vez que Zé Bebelo foi julgado, momento em que o medo contracena com a justiça (GSV, p. 263), e expulso para Goiás – e num paraíso, em um locus-amoenus, ou seja, em Guararavacã. Ali, diz ele, “meus destinos foram fechados” (GSV, p. 274). Seria uma alusão à queda adâmica? No Éden paradisíaco, entre flores, animais como as ovelhas, rios, ouro e prata, Lúcifer – ex- anjo de luz, regente do coral dos anjos celestiais, transformado em serpente, isto é, em diabo – apresenta-se a Eva que, ludibriada por ele, come o fruto proibido e seduz a Adão comê-lo também17. No paraíso edênico, a primeira emoção experimentada pelo homem foi o medo. (ROBIN, 2004, p.1)

Nota-se essa alusão imagética e temática, quando Riobaldo, na condição de narrador, reflete sobre o momento em que seu destino amoroso com Diadorim foi definitivamente revelado à sua consciência em Guararavacã:

Hoje, sei. E sei que em cada virada de campo, e debaixo de sombra de cada árvore, está dia e noite um diabo, que não dá movimento, tomando conta. Um que é o romãozinho, é um diabo menino, que corre adiante da gente, alumiando com lanterninha, em o meio certo do sono. Dormi, nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo o que é bonito é absurdo – Deus estável. Ouro e prata que Diadorim aparecia ali, a uns dois passos de mim, me vigiava. (GSV, p. 273)

Árvore, diabo, Deus, ouro e Diadorim a vigiar o protagonista – cenário que revela conflito cósmico. Tal qual Adão que, ao acordar, conhece Eva, Riobaldo desperta do sono e depara-se com Diadorim: fecham-se os destinos deles. Naquele lugar, o diabo romãozinho movimenta-se dia e noite, portando luz (Lúcifer), alumiando. Deus é estável, nunca se ausenta, mas o herói jagunço percebe que o amor que sente por Reinaldo é proibido.

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Na Bíblia, o livro de Gênesis (Cap. 2 e 3) apresenta a descrição do Éden e da queda do homem; a descrição da vida de Lúcifer e sua transformação em anjo das trevas lê-se no livro de Ezequiel (Cap. 28, Ver. 13-17) e de Isaías (Cap. 14, Ver. 12-15).

Mesmo assim, a ambígua relação entre os amigos permanece: “Diadorim – mesmo o bravo guerreiro – ele era para tanto carinho: minha repentina vontade era beijar aquele perfume no pescoço” (GSV, p. 542). No amor que sente por Diadorim, há motivos sobejos para Riobaldo sentir culpa. Não só isso, pois, enquanto narrador, quanto mais conta, mais assume a consciência de que vários nós complicados na vida jagunça devem-se a suas escolhas – fruto de desejos que entende como desmedidos, ou timoratos –, como por exemplo: o aprisionamento de Zé Bebelo resulta, primeiramente, das informações que Riobaldo passa ao bando de Joca Ramiro das condições do bando dos bebelos, depois tem medo de estar ajudando na morte do ex-aluno num repentino tiroteio; o risco de vida do cego Barromeu e do menino Guirigó tem como causa a decisão de Urutú-Branco intimá-los a seguirem-no e a morte de Diadorim é fruto do amor proibido ao qual Riobaldo sucumbe a ponto de firmar juramento de vingança da morte do pai dele/dela e agir, como chefe, para que a vingança se cumpra. Sendo assim, o narrador-protagonista afirma: “Tanto tudo ia sendo sempre por minha culpa!” (GSV, p. 239)

Os encantos e desencantos vividos na paradisíaca Guararavacã, durante dois meses, são suspensos com a notícia da morte de Joca Ramiro, à traição, pelos judas Ricardão e Hermógenes. A notificação chega por um jagunço amigo que fala incontidamente: “Artes que o Gavião-Cujo ainda contava mais, as miúcias – parecia que tinha medo de esbarrar de contar. Que o Hermógenes e o Ricardão de muito haviam ajustado entre si aquele crime, se sabia.” (GSV, p. 282) O anúncio comove a todos e detona novos sentimentos de medo em Riobaldo: “Arre, eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços. Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Até atravessado, na barriga, me doeu. Antes mais, o pobre Diadorim.” (GSV, p. 280) A reação do bando não difere muito da de Riobaldo; nos companheiros embaralham-se medo e ódio aos traidores:

– “Arraso, cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demônio! Traição! Que me paga!...” – constante não havendo quem não exclamasse. O ódio da gente, ali, em verdade, armava um pojar para estouros. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado? Aquilo era como fosse um touro preto, sozinho surdo nos ermos da

Guararavacã, urrando no meio da tempestade. Assim Joca Ramiro tinha morrido. E a gente raivava alto, para retardar o surgir do medo – e a tristeza em cru – sem se saber por que, mas que era de todos, unidos malaventurados. (GSV, p. 280; grifos nossos)

O medo que afeta Riobaldo nesse instante é avassalador porque lhe chega com uma notícia que mistura morte e traição – fantasma que o ronda há tempo. Teme-se a morte, especialmente, a violenta ou por traição e, quando esse tipo de morte ameaça quem se ama, provoca todo tipo de reação para que seja evitada ou, caso não se consiga isso, vingada. A reação pela qual passa Riobaldo é de quem está perdido, desorientado e derrotado. Precisa de orientador. Diadorim é essa pessoa que, depois dos destinos fechados na Guararavacã, posta-se ao lado de Riobaldo, surpreendendo-o com as palavras “tem tento” ou silente a encará-lo, tornando-se, assim, seu guia, pelos labirintos no interior do sertão, para devorar as carnes dos judas.

Sob o impacto daquela funesta notícia, os jagunços xingam, porque sentem raiva e também medo; considerando o tipo de xingamento, querem afastar o demo e todo aquele que se identifica com seu caráter de traição, no caso, Hermógenes, o príncipe de toda maldade. O demo, na pessoa de Hermógenes, é sinônimo de morte, do fim trágico. Esse tipo de atitude – reagir ao medo da morte – será usado de maneira astuciosa por Riobaldo, quando intenta usurpar o poder e no exercício dele. Comovido, o bando abandona o paraíso e cai no inferno das andanças pelo sertão.