Das reflexões filosóficas de Riobaldo que consideramos importante ressaltar, destacamos a dúvida quanto à liberdade do homem de decidir os passos de seu itinerário e a capacidade de entender a matéria que narra. Interviria o medo nessa questão?
O medo e a esperança – conforme demonstramos no primeiro capítulo – estão condicionados à dúvida, para Espinosa (Ética-III, Prop. XVIII, Esc. II), e orientam a vida e a narração do jagunço barranqueiro. Enquanto narrador, Riobaldo tenta dar um encadeamento preciso às ações tomadas na vida guerreira. Não logrando êxito na empreitada, conclui que a vida humana rege-se num encoberto.
Da mesma forma que o pacto, o infortúnio do Paredão, momento em que Riobaldo fica sabendo que seu amor por Diadorim não era proibido, influi decisivamente na maneira de o narrador-protagonista pensar e narrar. A dúvida que o acometera enquanto jagunço era fruto do medo e da esperança de um amor interditado.
A vitória no Paredão seria a coroação dos dois encontros que determinaram a vida de Riobaldo: com o Menino e com o jovem Reinaldo. Esses dois episódios são reveladores da presença constante do medo. Caso se considere o itinerário do herói, no nível da história, o medo ocupa lugar privilegiado, pois o primeiro diálogo significativo, logo em seguida ao inolvidável encontro com o Menino, é sobre tal paixão.
O conjunto de questionamentos do narrador, relativamente ao encontro com o Menino, trata da questão do medo: “Agora que o senhor ouviu, perguntas faço. Por que foi que eu precisei de encontrar aquele Menino? Toleima, eu sei. Dou, de. O senhor responda. Mais, que coragem inteirada em peça era aquela, a dele? De Deus, do demo?” (GSV, p. 74) O narrador quer saber a razão pela qual Riobaldo sente medo, mesmo estando “a serviço de Deus”, esmolando para o Senhor Bom-Jesus e o Menino que lhe pareceu tão perturbador e bondoso não conhece medo. Então, de onde vêm a coragem e o medo? A fonte pode ser a mesma: de
Deus ou do demo.
O relato do reencontro de Riobaldo com o Menino, transfigurado no rapaz Reinaldo, traz reflexões sobre a forma de narrar:
Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. (GSV, p. 133; grifo nosso)
Esse encontro dá-se num “sobrefalseado”, ao contrário do que comumente acontece em relatos que se assumem como portadores do verdadeiro. A narrativa de Grande sertão:
veredas é “em falso”, numa opacidade peculiar à criação literária, com a diferença de que,
nessa obra, o desvio do signo que explora “as virtualidades da língua” é dinâmico e levado ao limite: “Esse permanente dinamismo não raro conduz a linguagem à obscuridade, e sempre à assimetria, fazendo-a oscilar entre a altiloqüencia e o lúdico, meramente encantatório.” (PROENÇA, 1959, p. 211).
Isso significa que, na obra, tudo está num encobrimento, resguardado nos símbolos e imagens, nos quais a linguagem dissimula formas e fatos. Com efeito, mesmo afirmando que não agirá como o “povo prascóvio” que “em falso receio desfalam no nome” (GSV, p. 9) do demo, Riobaldo refere-se ao diabo constantemente, porque tem medo de ter feito o pacto com ele. Sua narração e sua visão de mundo também são “em falso receio” como se percebe no relato: quando Diadorim faz alguma afirmação, o narrador teme: “receei: será tivesse Diadorim falseado fala […]?” (GSV, p. 460); a vida jagunça é um “falso viver” (GSV, p. 172); nas Veredas-Mortas, o demo não aparece porque “é um falso imaginado” (GSV, p. 398); lide e narração cruzam-se no mesmo falseamento: “O senhor, mire e veja, o senhor: a verdade instantânea dum fato, a gente vai departir […]. Acham que é um falso narrar.” (GSV, p. 412)
O senhor sente? Desmente? Eu desminto.” (GSV, p. 175) Tudo é narrado como se estivesse numa espécie de encobrimento, como é a vida jagunça: “Olhe: jagunço se rege por um modo encoberto”. (GSV, p. 160)
Ao estilo de narrar, corresponde a visão que Riobaldo possui de Diadorim: “Reinaldo, Diadorim, me dizendo que este era real o nome dele – foi como dissesse notícia do que em terras longes se passava […]. Da razão desse encoberto, nem resumi curiosidades.” (GSV, p. 149) Nesse encoberto, um recurso de ambigüidade que propicia variedade de significações, é que se dá a recordação sobre Diadorim, tanto no nível da história quanto no da narração: “Desistir de Diadorim, foi o que eu falei? Digo, desdigo. Pode até ser, por meu desmazelo de contar […]. O engano.” (GSV, p. 177) Oscilando entre desistir ou não do amigo e esquecer e lembrar o amor, situação responsável pelo encobrimento das ações e desejos do protagonista, o narrador tem os elementos para sua narração em falso: “A qualquer narração dessas depõe em falso, porque o extenso de todo sofrido se escapole da memória.” (GSV, p. 379)
Desse modo, a narração e a vida são constituídas tortuosamente no relato do narrador: “Falo por palavras tortas. Conto minha vida” (GSV, p. 461). Mas o elemento que também interrompe a fala do jagunço e é o causador da narrativa ambígua é o medo. No momento crucial em que Diadorim ordena a Riobaldo assumir o posto de Medeiro Vaz, ele emudece: “estremeci por interno, me gelei de não poder palavra” (GSV, p. 78) e, simultaneamente, teme a Diadorim: “Temi. Terçava o grave. Assim, Diadorim dispunha do direito de fazer aquilo comigo?” (GSV, p. 78) Tanto o medo que o protagonista consegue esconder “atrás dos olhos” (GSV, p. 185) quanto o que se manifesta em reações corporais (“me gelei”) movem a vida do herói e a palavra do narrador. Assim sendo, uma das fortes razões da narração está no medo: “Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. […] Eu queria decifrar as coisas que são importantes. Queria entender do medo e da coragem.” (GSV, p. 96)
A narração da matéria vertente, que irrompe, transborda e jorra, faz-se de forma entrançada e dificultosa, para perseguir um objetivo não alcançado, completamente, pelo
jagunço raso: decifrar coisas importantes, tais como o medo, a coragem, o amor, a liberdade e a esperança. Da mesma forma, os pensamentos têm interferência do medo: “Medo, meu medo. Agüentei. […] Alguma justa noção não emendei, eu pensava desconjuntado.” (GSV, p. 49)
O medo como mediador das narrativas também está presente nos causos dos homens do sertão, dos quais Riobaldo não difere: “E eu era igual àqueles homens? Era.” (GSV, 164) Aprende com eles a narração que se faz pelo, ou contra, o medo: “Sem crer, cri. […] O medo, que todos acabavam tendo do Hermógenes, era que gerava essas estórias […]. O fato fazia fato” (GSV, p. 386). Riobaldo tenta não formar crenças dentro das balizas do medo que os companheiros infundem em suas narrativas sobre o pactário. Entretanto, não conseguindo isso (“sem crer, cri”), as narrativas temerárias viram fato para ele também.
Sendo assim, a memória que o narrador constrói não escapa à paixão do temor que se mistura à angústia e ao medo inventado no exercício do saber e no jogo do poder, imagem de todo poder civil de comando e dominação.
No íntimo do herói Riobaldo, nem a ascese, nem os bons conselhos de Quelemém têm resposta para sua angústia, por isso, seu saber das coisas é uma ilusão: “eu senhor de certeza nenhuma”. (GSV, p. 334) Entende-se porque o narrador-protagonista elogia a proposta feita pelo rapaz pescador ao fim certeiro do caso de Davidão e Faustino e inclina o ouvido aos causos sertanejos que estão impregnados de “medo mau em ilusão” (GSV, p. 28). Se seu relato é da vida, ele segue a norma desta. Não importa se os jagunços relatam causos nos quais “acabam crendo e temendo.” (GSV, p. 72)
A relação entre crer e temer é recorrente no romance; teme-se porque se crê e narra-se porque se teme. Quando as narrativas timoratas expõem alguma explicação complexa, o narrador não as desabona; ele inicia o relato de Grande sertão: veredas mostrando os causos sertanejos em que os paradoxos da vida humana manifestam-se mais claramente, como o sadismo no seio da família, as artimanhas de Jisé Simplício e de Aristides que se enriquecem
à custa da crença popular no diabo, as ameaças dos índios sobre os sertanejos, enfim, causos nos quais procura uma explicação para a existência do demo e do comportamento humano.
Sem entender a causa da maldade dos homens, interrompe a narração para dizer: “minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas.” (GSV, p. 22) À luz das explicações de Quelemém, que tenta acalmar seu desespero aconselhando-o a aguardar a evolução de seu espírito, sente medo terrível das ações de Deus: “o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro. Ah, uma beleza de traiçoeiro dá gosto. A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor!” (GSV, p. 24)
Com o labor narrativo, Riobaldo deseja entender a razão de suas aflições, por isso, nas curvas e paragens do sertão, e em vários causos, ele põe-se a especular sobre o medo, exigindo de si mesmo novas formas de organização do pensamento, que passa a ser (re)elaborado depois da tragédia do Paredão: a perda fatal de Diadorim.