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Evaluation et couverture

O caráter do ato instaurador do poder divino-secular inicia sua representação no romance de Guimarães Rosa pela subida de Riobaldo ao Itambé, para que os subalternos vejam maravilhas nele. Assim, mais do que amado e benquisto, ele é venerado pelos jagunços. É uma teatralização do poder divino-humano, pois, no fundo, há um pacto com o demônio, que não está nas alturas do Itambé, mas no abismo, no “Fosso” (GALACHE, 1995, p. 454). Projetado dentro de uma vocação divina, Riobaldo alegra-se com o poder – “o brinquedo do mundo.” (GSV, p. 414)

Avante, o bando retoma a missão, agora com uma chefia divino-humana, diferente, pois, das anteriores providas apenas do poder de feição terrena, o que explica a derrocada delas. O temor, que Riobaldo conhece em várias nuanças, é sua estratégia de liderança. A primeira pessoa que ele faz temer é seô Habão – cuja autoridade tem apenas o aspecto político, ou seja, secular – ao reencontrá-lo, no início da segunda etapa do itinerário timorato:

E veio perante minha presença o seô Habão, mais antecipado que todos; macio, atarefadinho, ele já me sussurrava. Homem, esse! Ele queria me oferecer dinheiro,

com seus meios queria me facilitar. Ah, não! de mim ele é que tinha de receber, tinha de tomar. Agarrei o cordão de meu pescoço, rebentei, com todas aquelas verônicas. As medalhas, umas delas que eu tinha de em desde menino. Fiz gesto: entreguei, na mão dele. O senhor havia de gostar de ver o ar daquele seô Habão,

forçado de aceitar pagamento do que nem eram correntias moedas de tesouro do rei, mas costumeiras prendas de louvor aos santos. Ele estava em todos tremores –

conforme esses homens que não têm vergonha de mostrar medo, em desde que possam pedir à gente perdão com muita seriedade. Digo ao senhor: ele beijou minha mão! Ele devia de estar imaginando que eu tinha perdido o siso. Assim mesmo, me agradeceu bem, e guardou com muito apreço as medalhas na algibeira; até porque, não podia obrar de outra forma. Matar aquele homem, não adiantava. Para o começo

de concerto deste mundo, que é que adiantava? Só se a gente tomasse tudo o que era dele, e fosse largar o cujo bem longe de lá, em estranhas terras, adonde ele fosse

preta-e-brancamente desconhecido de todos: então, ele havia de ter de pedir esmolas... Isso, naquela hora, pensei. Ah, não. E nem não adiantava: mendigo mes- mo, duro tristonho, ele havia ainda de obedecer de só ajuntar, ajuntar, até à data de morrer, de migas a migalhas... (GSV, p. 415; grifos nossos)

Esse episódio abre-se com uma prática comum no sertão: o pacto entre fazendeiros e chefes jagunços. Mas Riobaldo rejeita essa aliança, para garantir sua soberania, afinal, uma nova ordem inicia-se. Nela, o protagonista quer ter a soberania conquistada, como se observa, pela imposição do medo. Ele força seô Habão a aceitar pagamento, pois, conforme se viu em Aristóteles (1964, p. 116), àquele a quem não se deve favores não se teme. Assim, Riobaldo implanta sua estratégia do medo no exercício do poder, para começar a pôr em ordem o mundo.

O modelo de poder calcado na expressão divino-humana está espalhado nos signos que Riobaldo exibe ao público. O cordão que ele arranca do pescoço tem os seguintes elementos em sua constituição: verônicas e prendas de louvor aos santos, o que remete a personalidade do chefe ao sagrado. O fazendeiro Habão interpreta muito bem a intenção de Riobaldo de surrupiar suas fazendas, como está revelado em “a gente tomasse tudo o que era dele, e fosse largar o cujo bem longe de lá”. O que resta ao homem fazer diante de um poder instituído pelo divino-humano? A reverência – é o que faz seo Habão: “Digo ao senhor: ele beijou minha mão!” Fazer o homem carente de bens materiais (“mendigo mesmo, duro tristonho”) para torná-lo dependente da ajuda superior constitui uma das marcas desse poder em sua fundação primeva; a lógica da dependência é o domínio, ou seja, forçar a obediência (“ele havia ainda de obedecer”).

O ato de presentear seô Habão é realizado à vista de todos os jagunços. Isso é fundamental para que o público quede-se e preste-lhe reverência, ainda que, no fundo, o aspecto religioso genuíno não seja de real interesse no centro do poder:

As verônicas e os breves ele vendesse ou avarasse para os infernos. Comigo só o escapulário ainda ficou. Aquele escapulário, dito, que conservava pétalas de flor, em pedaço de toalha de altar recosturadas, e que consagrava um pedido de bênção à minha Nossa Senhora da Abadia. Que, mesmo, mais tarde, tornei a pendurar, num fio oleado e retrançado. Esse eu fora não botava, ah, agora podia desdeixar não; inda que ele me reprovasse, em hora e hora, tantos meus malfeitos, indas que assim requeimasse a pele de minhas carnes, que debaixo dele meu peito todo torcesse que nem pedaço quebrado de má cobra. (GSV, p. 415)

O escapulário continua na nova ordem do poder, porque ainda permaneciam no protagonista as crenças e porque o poder precisa revestir-se da religião para o jogo de cena entre o individual e o público, conforme se mostrou no primeiro capítulo. Riobaldo sabe que seu estilo de vida é reprovado pela virtude religiosa do escapulário, mas tem consciência da necessidade de trazê-lo consigo, de tê-lo à vista, talvez porque intui a importância do signo divino perante os companheiros jagunços, mas não se esquece de que, particularmente, o escapulário torna-se a constante reprovação de seus atos “imorais”.

Capitaneando no novo estilo, o protagonista adquire força; intima os homens do Sucruiú que, por medo, seguem o chefe: “Os que fingiam não me temer, achavam mais favorável querer ter vindo por próprio conselho” (GSV, p. 418). Assim, quando o protagonista afirma não ter medo, refere-se sempre ao medo inventado pelo poder que ele agora assume: “Algum medo não palpitava fino por detrás de meus olhos” (GSV, p. 422). Essa afirmação é feita somente após ele assumir o poder.

Avançados os dias no comando, Riobaldo hospeda-se na casa de Seo Ornelas, de onde se retira só quando consegue minar a coragem do chefe de família: “[Seu Ornelas] de susto, recuante, o leve medo de tremor. Isso foi o que me satisfez.” (GSV, p. 430) A confirmação do poder realiza-se fazendo os possíveis opositores tremer. Em retirada daquela fazenda, Riobaldo toma duas reses de um bando que passa e fica feliz, esclarecendo: os vaqueiros

responsáveis escondem “o medo que de mim deviam de ter.” (GSV, p. 439)

Assim, pelo caráter divino-humano de sua chefia que produz medo, a travessia do Liso transcorre com pleno êxito.

Os principais fatos públicos, com aura divinal, que deram força à ordem da travessia foram, além subida ao Itambé, o parto milagroso numa choupana, o milagre da paralisação da chuva na casa de Zabudo e o comando no confronto contra os hermógenes no Tamanduá-tão. Cada um desses milagres que Riobaldo assume como realizados por ele e a relação deles com a teatralização do poder são analisados em outro capítulo. Esses “milagres” são responsáveis pelo sucesso da travessia, pois convicta da realização deles por Urutú-Branco, a tropa empreende o trajeto da passagem do Liso.

Depois do encontro com o lazarento, da deserção dos urucuianos e da travessia – passagens em que o medo não arreda – chega o momento do confronto no Paredão: ninho do medo “tão terrível?”, que provoca a fuga dos habitantes do lugar.

Não é inusitado esse fato que aconteceu no Paredão. Há relato histórico de comunidades inteiras sendo afligidas pelo temor sem causa aparente, como o que ocorreu em Cartago:

Os gregos admitem um […] tipo de medo, que não provém de um erro de nosso raciocínio, mas ocorre sem causa aparente e por vontade dos deuses. E povos inteiros e exércitos inteiros o experimentam. Dessa ordem foi o que provocou em Cartago tão prodigiosa desolação. Só se ouviam gritos de pavor; os habitantes precipitavam fora de suas casas, como a um sinal de alarma e se atacavam mutuamente, e se feriam, e se matavam como se inimigos houvessem entrado na cidade. E a isso, que só findou quando, mediante preces e sacrifícios, conseguiram acalmar a cólera dos deuses, chamam os gregos de “terror pânico”. (MONTAIGNE, 1980, p. 42)

Trata-se de medo que não provém da ignorância humana. O Paredão e Cartago revelam a força do medo “terror pânico”, explicado assim por Hobbes (Leviatã-I, Cap. 6; grifos do autor):

O medo sem se saber porque, ou de que, chama-se terror pânico […]. Na verdade, existe sempre em quem primeiro sente esse medo uma certa compreensão da causa, embora os restantes fujam devido ao exemplo, cada um supondo que seu

companheiro sabe por quê. Portanto esta paixão só ocorre numa turba ou multidão de pessoas.

No momento da luta no Paredão, o medo manifesta-se com intensidade a tal ponto que Riobaldo desfalece, ainda que negando continuamente ter medo: “Desconheci temor nenhum.” (GSV, p. 546); “Medo não me conheceu” (GSV, p. 547); “E medo não tive” (p. 550); “Ter medo nenhum. Não tive!” (GSV, p. 556) e “o ato do medo não tive” (p. 556). Em contrapartida, as pernas tremem, a cabeça dói, bate o queixo, o braço enrijece, baba muito, a língua fica seca e, finalmente, desmaia quando Diadorim duela com Hermógenes.

Tempos depois, quando a era da jagunçagem já se extinguira, Riobaldo recebe o doutor a quem conta sua história. Presentemente, quando a história coincide com a narração, o narrador-protagonista é um homem timorato; os dois tipos de medo assolam-no. O medo inventado é denunciado pela geografia das casas da fazenda onde mora, que fica no centro e, “ao redor meu”, as residências que aluga aos ex-jagunços. Assim, para esse primeiro tipo, a fazenda não é apenas um lugar de medo; ela proporciona também paz e esperança pela segurança que tem.

Quanto ao medo primordial, Riobaldo cerca-se de outras muralhas, isto é, de elementos religiosos: as rezas de Otacília, a reza contratada, a reza a contratar, os ensinamentos de Quelemém, os livros de moral e de missionários e, por fim, os cultos protestantes. Nesse sentido, ele vive em esperança.

Questões relativas ao medo, anunciadas neste itinerário, são examinadas a seguir. Começamos a análise, no capítulo seguinte, destacando o papel do medo na busca do herói pelos atributos dos arcana Naturae e arcana Dei – imagem do poder uno que visa neutralizar os temores dos espíritos invisíveis e dos homens.

3. Medo e ascensão ao poder