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1.3 Les fondements théoriques du secret en droit

1.3.2 Les diverses expressions de la nature du secret

1.3.2.3 Le secret dit absolu et le secret dit relatif

As crônicas de 1º/11/1877, 14/08/1878, 05/04/1888 e 16/09/1894 são marcados pelo exercício da metalinguagem. Nesse sentido, Machado de Assis aproveitou aquelas oportunidades para especular a respeito da origem do gênero assim como para caracterizar as estratégias utilizadas na apurada observação e julgamento dos fatos da semana. Buscou também compartilhar com o leitor o seu estilo de fazer crônica, apresentando certas particularidades no trato com o público, deixando explícitas suas preferências temáticas, pois nem tudo o que era destaque no noticiário era de seu agrado.

Apurei da leitura dessas crônicas que, antes de Machado de Assis se enveredar para o fogo cruzado das discussões sobre o papel da imprensa, foi necessário a ele conhecer o funcionamento do gênero que marcou a expressão jornalística do século XIX: a crônica. Explicando esses meandros, o autor de Dom Casmurro pretendia mostrar ao leitor os princípios norteadores do ofício dos cronistas, esses “beneditinos da história mínima e cavouqueiros da expressão oportuna”, segundo os retrata Machado em “O ofício do cronista” (1994: 31).

No texto de 1º/11/1877, Machado de Assis conta um episódio que pode ser a princípio trivial e comezinho, mas “em busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um” (SABINO, 1965: 174), ele, como bom cronista que é, acabava ciscando questões filosóficas: em primeira instância, discute a noção de felicidade, e, como conseqüência, a idéia de que tudo é relativo. Eis o enredo do texto em questão: o cronista vai a um enterro. Lá fazia um calor dos diabos, o que lhe rendeu uma insatisfação generalizada com o tempo. Acontece que o cronista e os demais estavam usando chapéus, o que pelo menos atenuava os efeitos do sol. Em situação pior, revela o cronista, estavam os coveiros, que tinham a cabeça descoberta e estavam suados por causa do sol e do trabalho exaustivo com a enxada. Terminado o enterro, o cronista e os outros voltariam para as suas casas ou repartições, enquanto os coveiros continuariam envolvidos naquela rotina e sofreriam ainda mais com o calor. A história serviu para

exemplificar a filosofia que Machado de Assis quis sustentar: “a verdade mais incontestável que achei debaixo do sol, é que ninguém se deve queixar, porque cada pessoa é sempre mais feliz do que outra” (1994: 14). O texto em questão pode muito bem servir de exemplo de “crônica metafísica”, segundo antiga classificação de Afrânio Coutinho, que situa Machado de Assis junto com Carlos Drummond de Andrade nesse estilo, porque eles encontrariam “sempre ocasião e pretexto nos fatos para dissertar ou discretear filosoficamente” (COUTINHO, 1971: 121).

É necessário salientar que, antes de o jornalista narrar o episódio mencionado, ele inicia a crônica com uma divagação sobre o surgimento do gênero. Esse é o primeiro assunto que Machado vai tratar em “O nascimento da crônica”. Como salienta Massaud Moisés, o cronista busca “desentranhar do acontecimento sua porção imanente de fantasia” (1985: 247). Ele parte da sua “índole contemplativo-devaneante” (DRUMMOND

apud SÁ, 1987: 16) para construir uma versão subjetiva a respeito das raízes da crônica.

Machado parte do princípio de que a crônica começa despretensiosa, como quem não quer nada, para depois abocanhar o mundo, através de palpites sobre todo e qualquer assunto:

Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est

rompue; está começada a crônica (MACHADO DE ASSIS, 1994: 13)

(grifo do autor).

A passagem demonstra a coerência de Machado de Assis quanto à descrição do estilo do cronista, que ele acabou adotando. No fragmento da crônica acima citada, publicada em 1877, período em que o jornalista completava trinta e oito anos e já era um cronista reconhecido – ele trouxe novamente o mesmo painel que havia traçado aos vinte anos sobre o ofício do cronista e de sua liberdade em atuar nos diversos assuntos. Trata- se de um retorno às origens, revivendo o que marcou, desde o princípio de carreira, o seu ingresso precoce na discussão sobre o exercício da própria profissão, conforme

demonstra esta passagem de “O folhetinista” (Aquarelas, O Espelho, RJ, 30/10/1859): “o folhetinista, na sociedade, ocupa o lugar de colibri na esfera vegetal; salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre todos os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo o mundo lhe pertence; até mesmo a política” (1997: 959). Poder- se-ia dizer que o jornalista, agindo desse modo, conseguiu “atar as duas pontas da vida” (MACHADO DE ASSIS, 1997: 810), tal como desejou Dom Casmurro, personagem da ficção machadiana, ao escrever seu livro de memórias. Trazendo à baila esse motivo ficcional, penso que Machado de Assis conseguiu restaurar, nos anos da maturidade, a juventude.

Além da variedade temática e da desenvoltura interpretativa que exigem do cronista uma aptidão especial, é oportuno salientar que, desde seu nascimento, a crônica encontra-se umbilicalmente atada ao tempo. De fato, o cronista é aquele que narra a experiência contida na tradição, entendida como um tecido de experiências ancestrais que, ao serem recolhidas e narradas pelo cronista, desenham um horizonte de esperanças futuras. A exigência de superação e negação do passado, imposta por um tempo em progresso, arruína a experiência do tempo e com ela a tradição. Na modernidade vive-se a experiência no tempo, experiência que se extingue no instante fugaz em que é vivenciada e que, portanto, não pode ser comunicada. O tempo é esvaziado de suas experiências e homogeneizado quanto ao ritmo veloz com que nele se repete a irrupção da novidade. Dar ouvidos à tradição é estar em desacordo com a moda, é tornar-se anacrônico.

Em “O cronista se apresenta”, de 05/04/1888, Machado de Assis se configura como um relojoeiro extenuado e descrente de sua tarefa: “eu sou um pobre relojoeiro, que, cansado de ver que os relógios deste mundo não marcam a mesma hora, descri do ofício” (1994: 105). Doravante, o ofício do cronista deve enfrentar a transitoriedade e a contingência próprias da modernidade. O próprio gênero deve, portanto, ser reinventado:

a única explicação dos relógios era serem iguaizinhos, sem discrepância; desde que discrepam, fica-se sem saber nada, porque tão certo pode ser o meu relógio, como o do meu barbeiro (...) foi por essas e outras que descri do ofício; e, na alternativa de ir à fava ou ser escritor, preferi o segundo alvitre; é mais fácil e vexa menos (1994: 105-106).

Machado de Assis parece ter tomado para si a tarefa de atualização da crônica num contexto de relógios descompassados. Bem entendido, atualizar-se às condições modernas não significa render-se a elas. Assim, num “século utilitário e prático”, conforme ele mesmo avaliou em “A Semana”, de 30/04/1892, a crônica machadiana proporciona o encontro entre o “útil” e o “fútil”. De fato, ela nasce sob o signo da ‘desconversa’. Esta se inicia no sólido terreno da notícia, dos últimos acontecimentos da semana, da novidade dos faits-divers – úteis e sérios –, para escapar em seguida para o solo movente e aparentemente desimportante e fútil da profecia dos fatos, ou sua filosofia. A crônica machadiana opera, assim, “o parto sério e singular do sério, consorciado com o frívolo” (1997:959), conforme o próprio jornalista avaliou o gênero em “O folhetinista”, de 30/10/1859. Consórcio que aparece com toda clareza quando o autor tem de fazer a crônica de uma semana sem novidades. Este é o momento por excelência da arte da desconversa.

Na falta de fatos ‘relevantes’, o narrador assunta a própria crônica. Ao indagar sua origem, desvela seu caráter errante. Tratar-se-ia de um tipo de conversa vadia, no mais das vezes ociosa, em que se transita de um a outro tema, desse ao seguinte, para então voltar ao primeiro sem o maior constrangimento. De acordo com o texto “O nascimento da crônica”, de 1º/11/1877, este gênero lhe parece uma autêntica conversa de comadres:

Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta, para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastimar-se do calor. Uma dizia que não pudera comer ao jantar, outra que tinha a camisa mais ensopada do que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da crônica (1994: 14).

O bate-papo entre as vizinhas pode ser interpretado como uma alegoria do gênero crônica, pois ambos estão marcados por elementos pertencentes à oralidade, tais como a variedade temática dos assuntos de uma conversa e a sintaxe “desestruturada”, “solta”. Não é por se aproximar mais da conversa informal do que do texto escrito, adverte

Jorge de Sá (1999), que a crônica deixa de ser uma elaboração literária, pois não se limita, simplesmente, à transcrição de um bate-papo. A conversa entre as vizinhas, marcada pela variedade de assuntos, pelo tratamento íntimo e tom informal, pode representar um possível contato almejado por Machado de Assis com seus leitores. A relação entre o cronista e o leitor será estudada, posteriormente, ainda neste capítulo.