O jornalismo é um campo no qual se produz e circula sentidos. De acordo com Benetti (2007), esta instituição tem o poder de nomear, podendo evidenciar certos elementos ou aspectos ou até mesmo ocultando sujeitos, práticas, segmentos sociais. O seu discurso não é transparente, visto que pode conter inúmeras possibilidades de interpretação, e nem sempre pode ficar nítido quem é o enunciador.
Entretanto, ao se pesquisar o jornalismo, é necessário “considerar fortemente suas regras como campo e suas características como gênero” (BENETTI, 2007, p. 2). Somente assim é que se poderá evitar resultados equivocados, distorcidos ou até mesmo completamente inválidos. O conceito de gênero pode ser compreendido comparativamente a uma moldura. Nele, determinados textos podem ser reunidos, sob a mesma classificação. Trata-se de uma espécie de acordo que vai se constituindo entre aquele que fala (o enunciador) e aquele que lê (o destinatário). Este acordo cumpre determinadas funções e atende a expectativas geradas.
O gênero se define no eixo de um contrato de leitura ou de comunicação: um acordo tácito, entre quem escreve e quem lê, sobre as regras daquele texto, segundo os dispositivos de enunciação definidos também pelo suporte em que este texto produz sentidos. No caso do jornalismo, falamos de um acordo entre o jornalista e o leitor sobre o que é o jornalismo, o que pode ser dito (e o que não pode ser dito), o lugar reservado ao leitor, o papel que o jornalista deve exercer e o tipo de informação que deve entregar. Este não é um acordo recente, estabelecido por um veículo ou um jornalista em particular. É um contrato de leitura que define um gênero discursivo, o gênero do discurso jornalístico, construído ao longo de pelo menos quatro séculos (BENETTI, 2007, p. 2).
Na construção do gênero jornalístico, um dos pilares constitutivos do contrato estabelecido entre jornalistas e leitores está relacionado intimamente com a noção de verdade. É justamente com base nessa noção que o jornalismo trabalha com o seu principal capital: a credibilidade. Diante disto, não é difícil associar certas ilusões ao campo jornalístico, como a
de que ele retrataria a realidade exatamente como ela é; tudo aquilo que remeter ao interesse público é informado pelo jornalismo; a verdade é o compromisso absoluto desta instituição; as melhores fontes são as que sempre são ouvidas e todos aqueles que falam através dela são os melhores especialistas (BENETTI, 2007).
Romper com essas ilusões que costumam permear o campo do jornalismo é passar a entender que o texto jornalístico da forma com que se apresenta é uma construção social e, neste contexto, a objetividade nada mais é do que um guia que orienta a ética da profissão. Contudo,
[...] não é exatamente ‘uma escolha’ do leitor crer ou não que o jornalismo narre a realidade, pois abrir mão dessa crença significa abrir mão de uma voz estruturadora do real. Por meio dessa voz, é possível saber não apenas o que anda acontecendo no mundo, mas também, e especialmente, o que importa saber sobre o que anda acontecendo no mundo. O jornalismo escolhe o que ‘vale a pena’ relatar, quem tem mais confiabilidade ou mais apelo para se constituir como fonte e então constrói os relatos, estabelecendo os critérios de relevância e os parâmetros de normalidade da sociedade (BENETTI, 2007, p. 3).
O discurso jornalístico, apresentado como algo dotado de neutralidade e objetivo, seria então a voz legítima e autorizada para retratar a realidade. Entretanto, a linguagem não é ingênua nem neutra. Ela perpassa por seleções, escolhas etc. Este mesmo discurso leva em consideração a existência de uma espécie de “leitor virtual”, isto é, aquele para quem o autor imagina enunciar. É com esse leitor imaginário que o jornalista pensa ao sugerir pautas, selecionar as fontes e de fato produzir o texto. “o leitor virtual, imaginado para o texto, está inscrito nesse texto, onde pode ser localizado e compreendido”.
A produção do texto jornalístico, então, exige o posicionamento de dois parceiros, a partir do contrato de leitura: o jornalista, que estaria ‘autorizado’ a retratar a realidade; e o leitor, que estaria ‘capacitado’ a compreender esse relato. Essas identidades não são naturais ou óbvias, e sim foram construídas historicamente. São totalmente ideológicas e, como toda ideologia, são simplificadoras, esquemáticas, conservadoras e motivadoras de uma prática que se repete sem ser questionada até adquirir a falsa aparência de algo natural e evidente (BENETTI, 2007, p. 4).
Ao empreender uma análise acerca da cobertura da Segunda Guerra Mundial realizada pelo jornal impresso “A República”, um dos principais veículos de comunicação da capital do Rio Grande do Norte que circulou entre 1889 a 1987, Avelino (2006) pode observar como o silenciamento pode ser utilizado como estratégia discursiva no texto, a fim de atender, por exemplo, a determinados interesses. No caso analisado, “o enquadramento da cobertura noticiosa do jornal seguia a determinação política do Governo brasileiro” (AVELINO, 2006, p. 1).
O silenciamento como estratégia discursiva diz, isto é, significa. Mesmo que não esteja materializado no texto, ele produz sentidos, promove discursos e perpetua ideologias (ORLANDI, 1997). Através do que foi dito, pode-se chegar ao que está implícito no texto, o não dito. Opta-se por dizer um determinado enunciado, relegando diversas outras enunciações possíveis.
Na análise das notícias referentes ao período da Segunda Guerra Mundial, Avelino (2006) verificou uma cobertura do conflito em que as fontes e os fatos que apoiavam a operação militar defendida pelo grupo dos Aliados (formado pela Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, entre outros) foram destacados enquanto que as vozes da oposição, as potências do Eixo (Alemanha. Itália e Japão) foram silenciadas, não eram sequer citadas.5 Diante da discrepância entre os dois lados envolvidos, a interpretação da autora foi a de que a cobertura do jornal analisado privilegiou representações do conflito que eram convenientes ao Governo. Isto se deu sobretudo através do apagamento de sentidos pelo silenciamento de determinados aspectos. A escolha de determinadas fontes e a ênfase de certos aspectos de um fato podem fazer com que se veicule a reconstrução de uma das variadas leituras que se pode fazer de um acontecimento, evidenciando posicionamentos.
Na década de 80, outro veículo de comunicação passou a evidenciar, através do seu discurso, um posicionamento. Desta vez, o tema dizia respeito justamente à homossexualidade: o jornal A Tarde, um dos principais veículos de comunicação que circula no estado da Bahia.
[...]o principal jornal local, A Tarde, manteve durante anos uma postura marcadamente homofóbica, ao ponto de escrever um editorial em que propunha a morte dos gays como a solução menos onerosa ao problema da AIDS. Com uma reforma editorial em 2003, o jornal passa a adotar uma postura mais moderna e abre seus espaços para matérias positivas sobre homossexualismo e também entrevista e dá voz às principais lideranças gays do estado (TAVARES, 2005, p. 59).
A partir da leitura do referido editorial publicado pelo jornal A Tarde, o mais importante jornal de Salvador, segundo Trevisan (2007), pode-se depreender uma concepção da AIDS como uma doença exclusivamente gay. A comparação foi feita com o período em que se assolou no Brasil uma peste suína, cuja solução foi exterminar os porcos ameaçados de contágio. De forma semelhante, se deveria, de acordo com o editorial, exterminar todos os elementos que podem transmitir a Aids.
Em Salvador, o diário A Tarde propôs, repetidamente, e em várias de suas colunas, o extermínio dos homossexuais – depois que seu secretário de redação proibiu, em
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portaria expressa, noticiar qualquer evento relativo aos movimentos gueis de liberação. [...] No mesmo jornal, a coluna de José Augusto Bebert, líder do Grupo Machão da Bahia (provável provocação ao Grupo Gay da Bahia), comunicava que ‘matar veados não é homicídio, é caçada...’ (TREVISAN, 2007, p. 443).
Diferentes jornais de uma mesma cidade ou região podem reconstruir o relato de um único fato de maneiras particularmente distintas. Isto se deve ao fato de um mesmo enunciado poder ser apresentado de modos diversificados. Embora o assunto tratado seja igual, a forma com que se aborda costuma variar de um veículo para o outro. Esta diversificação dos modos de representação da notícia se dá tanto no plano verbal quanto na visualização da matéria, ocupando maior ou menor espaço, sendo alocado em diferentes editorias, com ou sem o acompanhamento de fotografia etc.
A distinção entre o que se diz e as modalidades de se dizer algo pode ser aplicado, de acordo com Verón (2004), ao discurso da imprensa escrita. Em um discurso, o enunciador atribui a si próprio um local (ou vários) de fala. De forma análoga, o enunciador define também o seu destinatário, isto é, o enunciador não somente se posiciona enquanto sujeito como também imagina e constrói o seu destinatário. Contudo, ressalta-se que tanto o enunciador quanto o destinatário são entidades discursivas. Sendo assim, pode-se entender porque um mesmo conteúdo é enquadrado através de diferentes modalidades de enunciação. Estas relações estabelecidas entre enunciador e destinatário, na construção da imagem de cada um deles, podem ser evidenciadas, no caso da imprensa escrita, através da análise do contrato de leitura.
Portanto, é na construção do contrato de leitura que o enunciador é apresentado, ao mesmo tempo em que se propõe um lugar a um destinatário, ou seja, ao se posicionar, o enunciador determina, por conseguinte, o lugar do destinatário. Nesse sentido, a análise do contrato de leitura pode ser eficaz para entender os locais de fala dos diferentes agentes da relação discursiva.